quarta-feira, 24 de abril de 2019

Travessias I



I

Ofélia estende a mão para colher uma estrela no meio da tarde e esquecer o cansaço, antes de seguir o seu quotidiano no cais do porto, mesmo sabendo que há tardes em que os navios não atracam e as estrelas não ficam visíveis a olho nu. Hoje é uma dessas tardes. E o coração de Ofélia, incansável, no centro da vida, dá imensas voltas. Sandálias franciscanas nos pés, um leve sorriso, ao que vale a pena, pendurado no pescoço, Ofélia, esquiva, perambula, enquanto a noite não pousa sobre a cidade. Varada de solidão, perambula. Faz tempo que descerrou os punhos e descobriu o quanto o açúcar é reconfortante, mesmo fazendo mal à saúde. É o que a faz esquecer o pranto, o grito calado. Quando o céu começa a cobrir-se de um tom avermelhado anunciando o crepúsculo, é a hora em que a pele da noite começa a abrir pacientemente os olhos ejaculando promessas ao entardecer. E isso é tudo para Ofélia.

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Pequena luz


eu não sei, foucault, tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, choro frágil, sem alarde, como um não quer nada e vem sóbrio e simples. acontece por acaso e eu ali, sob a luz amassada da lua minguante, com o último cigarro custando a acender, encostado na mureta da casa vizinha, pasmo, paranoico, com o fósforo à mão, ao vivo, em sua vida, de costas para o vento. vento tão forte, um zéfiro caipira. e os jornais velhos o protegendo. seu corpo magro estremece quando as luzes piscam sobre o palco montado à sua revelia. epidérmica é a minha ajuda no pequeno latifúndio, mas se lê em minha testa, miséria muito próxima. digo por conhecê-la de cor e salteado. e a minha vocação para santo, que não passa de um redemoinho, logo se desfaz. tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, e a primeira coisa que ele aprende é mentir sobre si mesmo. 

(José Carlos Sant Anna)