sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Cena 5



Leve espessura, fugaz, complacente. A música se dilui, o que me leva a escutar lençóis e fronhas em suaves ondulações, hálitos de brancura, enquanto as mãos e o olhar se tecem. Livre, abre-se ao meu corpo o teu palácio, as tuas tranças negras me envolvem como um sopro mais alto, águas que não se cansam, aromas de pedra, perfumes de cântaros resvalam tangíveis. Abandono-me em espirais brancas, voluptuosas, em todas as partes da morada do teu corpo, entranhas mudas impõem-me um flagelo pelos teus ermos, onde por fim vou saber existir nas comportas abertas onde o meu ser inteiro mede a si mesmo sem que a chuva passe nos rumores da língua. E ardendo, como uma lava em manchas de óleo, vou me queimando. Então, parte alguma de mim se intumesce incendiada pela tua corola, boca impetuosa. 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 9 de agosto de 2015

Cena 4



Escrevo nos teus olhos de luar o rumor dos insetos e da última estrela onde adormecem as nossas vidas. É tudo muito rápido. Poderia escrever outras palavras, outros sinais, antes que o dia se cruzasse com outras semeaduras, quando no meio da noite vens e dizes o quanto és doce, clareando o meu peito de menino, florescente, a dizer-me da urgência do amor, dos corpos enleados, depois destas lâmpadas acesas e das vespas que atiçam as carnes das palavras e do corpo que não suporta tanto calor, e do ardor da sede, desse tempo de voar, muito além de tudo, sentindo o teu lume no meu, sopro-a-sopro, e o sabor da tua água nas zonas mais incandescentes celebrando a fome desse sol interminável, desses corpos dissolvidos. 

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 1 de agosto de 2015

Cena 3



Para todo o sempre, é o que Marina diz para si mesma com o rosto encostado na vidraça da janela, enquanto a chuva se desembesta pela encosta do outro lado da rua. 
Há três dias que a chuva não dá trégua na cidade. Ilhada, como se encontra ali, agora, por conta da chuva, aproveita para se perguntar se ele a procurasse o que diria depois de tanto tempo esperando. Olhos nos olhos, a música de Chico não sai da sua cabeça quando pensa nessas bobagens dessa estrada poeirenta, ainda que literalmente a chuva não cesse de cair, entediando-a e convulsionando a cidade. Parece que o velho Pedro, muito ocupado com as coisas lá do céu, só agora ficou sabendo das suas tristezas e chora ininterruptamente há três dias, como se estivesse arrependido pela falta de solidariedade. E a Marina não falta vontade para dizer-lhe, do jeito que lhe for possível, que não há nada de novo para contar-lhe, que é tão pouca a sua alegria, mas vai vivendo sem perder um pôr-do-sol no porto da Barra, o velho porto da Barra, novinho em folha, depois da repaginada feita pelo pintor de rodapé, e diz ainda para si mesmo e, como se também o dissesse ao santo, que se a memória dói, é porque há lembranças, as cicatrizes ainda estão à flor da pele, mas só se fica sozinha nessa vida quando se quer. Pedro não esconde um sorriso. Ainda que não devesse, ela não esconde de ninguém que ainda tem a boca amarga, apesar dos anos que estão separados, porque, volta e meia, ele emerge nos seus sonhos com a sua boina e uma mala atulhada de roupas numa mão e, na outra, um cigarro que ele sai pitando pela porta entreaberta, do mesmo jeito que entrou. Ela não se conforma que tenha que conviver com esse fantasma, ouvindo os seus passos pelo corredor assoalhado da casa. Esconjura a chuva, mas, em passos lentos, se põe na rua trajando apenas um sobretudo sobre a roupa que veste, levando na mão uma Vuitton, único luxo que se permite, e vai andando pela tarde dispersando os hálitos da alma e, ao chegar ao primeiro cruzamento, aguarda do semáforo a luz verde para os pedestres; é a senha que precisava para tocar uma nova vida. Então, abre a bolsa e retira a sombrinha que estivera fechada durante a sua caminhada até o semáforo, e canta, e dança, e canta, e dança, sob os olhares atônitos dos passantes e motoristas, o clássico que foi imortalizado por Gene Kelly. 

(José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cena 2



Perco-me inesperadamente pelos corredores à luz de uma pedregosa chama de poesia. Mergulho nas palavras como se eu tivesse no pulso um relógio apressado ou houvesse uma chuva ansiosa para despencar céu abaixo. As palavras hesitam sobre a mesa, se coagulam, se desconjuntam, fecham-me as portas. A fluidez do sangue estanca. E por um desvio de qualquer natureza, atravesso o oceano insinuando-me através das ondas a lavrar um céu coalhado de hibiscos que se espalham por tendas e tapetes persas, exalando perfumes e fulgores perseverantes como o das palavras ainda há pouco anunciando um lento infiltrar-se de oxigênio nas minhas veias fatigadas. Entrego-me ao ritual das chamas. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cena 1



Ainda me chegam postais de uma história que ensaia os primeiros passos, mas dizem tanto das madrugadas que já não sei o que tem se passado pelo gargalo das noites mal dormidas. Lá, como aqui, maresia e poesia andam de mãos dadas, mas deixam um punhado de interrogações. Por isso, deixo a janela filtrar os raios de sol, abro as cortinas do presente para que esses fios à espera, pressentidos, não me tragam uma nostalgia que lembre Pessoa, Camilo, Nobre, numa harmonia de versos dor mentes ou de inaudita dor. Na memória das palavras o silêncio míngua na ânsia de vê-la, e vela a minha pena ao sonhar em doce balanço o desfolhar dos dias por meridianos que se põem do outro lado de tudo ao saber que a mutualidade das palavras foi a argamassa que aprisionou os sentidos, tornando-os cativos desta afeição.

(José Carlos Sant Anna)