Agora
estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de
adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda
que não o negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim. O que faço, então? Visto-as sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um
adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido porque não quero gastá-los e, quase
sempre, o faço em dia de festa quando os meus pés ruidosamente os acolhem com meias
de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos
sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem
que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho.
Ah! E a areia! As andanças! A corda de enforcado! Como eu não queria este devaneio agora,
esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, sim, escancarada mas ensolarada, como o
diabo gosta. A promessa de espuma alvíssima, o mar batendo na amurada do cais, a leve
impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em
plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga
no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros
do navio na baía onde se lê Mar del Plata, e a bandeira azul e branca, de los hermanos, tremulando no mastro, os fictícios
tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com
taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no
entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela, a noite
passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala
encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se
despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos passeiam pela grama do
meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a
policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce.
(José Carlos Sant Anna)

