INCÓLUME, A ÁGUA do mar ia
subindo, subindo, densa como o sangue correndo pelas veias, a fazer
naturalmente o seu caminho entre as palafitas. Depois de lavado o assoalho da
casa, a maré refluía do mesmo jeito que chegara, fazendo o caminho de volta,
quando deixava a dona da casa atônita. Era sempre assim que ela ficava, depois
da enchente, atordoada, sentindo o peso da sua impotência, diante da força da
natureza. Já não sabia o que fazer... E a maré, pouco a pouco, fazia o seu
caminho de volta, recolhendo-se ao fundo do oceano em gesto largo, generoso, com as
palafitas do manguezal da cidade baixa.
Lentamente
a água refluía. Aos poucos. Devagar. Era o ritual da lua cheia com o qual
aquela mulher já se habituara. Durante três dias, era quanto durava a presença
da maré na sua casa, ela cuidava de não deixar resíduos da sua passagem,
recolhendo os detritos ou dejetos, trazidos pela água do mar e deixados nos
aposentos da casa, embora fosse raro que tal não acontecesse alguma vez. Sempre
restava algo para ser expurgado.
Quando
a lua era crescente, ela se cercava de todos os cuidados, mantendo a casa fechada
para evitar qualquer dissabor, pois a maré trazia toda sorte de lixo. De fezes
humanas, que os palafiteiros evacuavam sobre o mar, das suas latrinas
improvisadas, aos animais mortos, como pombos, cachorros, galinhas e outros, arrastados
pela força da água. Com as portas fechadas a água entrava por debaixo da porta,
da frente e da cozinha, mas o fazia, sobretudo, pelas frinchas entre as tábuas
do assoalho, rompendo aquelas ranhuras com a sua força descomunal, silenciosa.
Expurgadas as promessas, os remorsos e as culpas, a vassoura cumpria o resto do que tinha de ser feito
após a passagem da maré. A de março era, para aquela senhora, sempre a mais
dolorosa durante o ano, pois subia com mais intensidade e mais força do que a
dos outros meses do ano.
Baixado
o nível da água, ficava atrás de si um cheiro nauseabundo de maresia,
impregnado em tudo dentro da casa. Quando a lua começava a minguar, acabava o
sofrimento dela. Essa dor mensal, como uma menstruação, que lembrava os tempos
de menina-moça, em geral, durava três dias, no calendário em que ela dava
baixa, mês a mês, ano a ano, das suas purgações.
O
assoalho não via mais a cor da água cinzenta que o beijava incessantemente para
o desespero da dona da casa. "Um ritual", ela repetia para si mesma,
resignadamente. Sabia que seriam sete anos. Nunca disse aos filhos como soubera
que a purgação levaria sete anos, longos sete anos. Nas redondezas era a única
palafita que recebia aquele batismo a cada mês do ano.
Aquele
lote de água, ela o recebera de outro invasor, sim porque era um lote de água o
que ela dispunha agora, mas sairia daquele beco imundo onde morava com os cinco
filhos e porque eram todos invasores, nas redondezas. Ninguém era dono de nada ali, naquele pedaço de mar, entre os manguezais.
A mulher ficava esperando a água refluir completamente para que alguém, entre
os seus, avistasse os piquetes que demarcavam o seu terreno, a sua área, a sua
água, onde surgiria a sua futura casa.
Se a
maré estava cheia, chegava àquela marcação com um bote que ficava à margem, à
beira do mangue, disponibilizado pelos antigos moradores das palafitas, se
estava vazia, seguia cuidadosamente por uma vereda ou outra, pelos restos de
mar deixados pelos caminhos, pelas poças, para não enterrar as pernas até os
joelhos nas partes mais moles do terreno. Havia sempre pequenos pântanos pelos
caminhos. Enquanto não nascia a sua "edificação" de madeira, ela
precisava peregrinar pelas águas como um Moisés, quase todos os dias, para tomar conta do seu
"lote", não deixando que nenhum outro aventureiro dele se apossasse.
Era um
lote de água, com os piquetes submersos, que recebera num dia de Ação de Graças
daquele indivíduo. Estavam submersos porque a altura deles era inferior à
altura que água subia regularmente. Dera-lhe o lote, ninguém sabe em que
circunstâncias com as marcações dos piquetes, um invasor, ilustre desconhecido
da sua família. Poderia construir três casas na área demarcada, se tivesse
recursos. Não os tinha para tanto, cedeu, para um vizinho do beco
imundo onde morava, uma parte das suas águas, e a outra parte fora invadida por
um morador antigo das redondezas, que há muito estava de olho naquele
"terreno", embora já tivesse uma casa em outra rua das palafitas.
Ali,
ela fizera a casa com os restos de madeira e lona, e os mourões que comprara
para a sustentação da base. Ninguém sabe como juntara, da noite para o dia,
aqueles trapos para armar sua casa sobre as águas. Quem a construíra, nada
sabia da maré naquele pedaço do mangue da cidade baixa. Logo, a casa foi
construída sem se levar em conta a altura que a maré chegava àquela parte do
mar.
Assim,
amargaria por sete anos a lavagem da casa pelas águas de Iemanjá, talvez já não
se lembrasse de alguma promessa que tivesse feito para a Rainha do Mar. Como a
deixou de cumprir, pagava, por certo, pela promessa não cumprida. Cumpria a sua
pena, carregava a sua cruz, dizia para si mesma a todo instante quando as
coisas desandavam. E ia tocando a vida sem deixar de acenar uma única vez para
a esperança.
(José
Carlos Sant Anna)