quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A dançarina



Por onde anda Émily?
quando ela entrou por aquela
porta trazia um aroma
e um rumor
nos lábios acesos e no ar compungido 
o melífluo jeitinho de corça 
me deu uma pontada curta
e seca mas como os seus
ombros arfantes revelavam
o desejo ainda entranhado na sua pele
esculpi suas formas delicadas na tarde 
ardente de um janeiro
arfando a chuva de verão derramada 
em cântaros de cerâmica portuguesa
acho que ela percebeu pois
no instante seguinte disse-me segurando 
a respiração
que era a última vez que nos víamos
fazendo-me sentir o tamanho do meu corpo
a baforada de ar que entrou pela janela
aragem fresca vinda do mar
cortando o silêncio
me ajudou a atravessar este rio 
latejando
e com a música do vento já dispersa ela
em novo gesto pediu que eu fechasse a porta
e se despiu sem que 
os meus livros a interrogassem
agora quando eu lavo os pratos sozinho 
sinto o desejo e uma saudade 
que se esboçam 
na nascente dessa ilha. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Postigo para o mar


INCÓLUME, A ÁGUA do mar ia subindo, subindo, densa como o sangue correndo pelas veias, a fazer naturalmente o seu caminho entre as palafitas. Depois de lavado o assoalho da casa, a maré refluía do mesmo jeito que chegara, fazendo o caminho de volta, quando deixava a dona da casa atônita. Era sempre assim que ela ficava, depois da enchente, atordoada, sentindo o peso da sua impotência, diante da força da natureza. Já não sabia o que fazer... E a maré, pouco a pouco, fazia o seu caminho de volta, recolhendo-se ao fundo do oceano em gesto largo, generoso, com as palafitas do manguezal da cidade baixa.  
Lentamente a água refluía. Aos poucos. Devagar. Era o ritual da lua cheia com o qual aquela mulher já se habituara. Durante três dias, era quanto durava a presença da maré na sua casa, ela cuidava de não deixar resíduos da sua passagem, recolhendo os detritos ou dejetos, trazidos pela água do mar e deixados nos aposentos da casa, embora fosse raro que tal não acontecesse alguma vez. Sempre restava algo para ser expurgado.
Quando a lua era crescente, ela se cercava de todos os cuidados, mantendo a casa fechada para evitar qualquer dissabor, pois a maré trazia toda sorte de lixo. De fezes humanas, que os palafiteiros evacuavam sobre o mar, das suas latrinas improvisadas, aos animais mortos, como pombos, cachorros, galinhas e outros, arrastados pela força da água. Com as portas fechadas a água entrava por debaixo da porta, da frente e da cozinha, mas o fazia, sobretudo, pelas frinchas entre as tábuas do assoalho, rompendo aquelas ranhuras com a sua força descomunal, silenciosa.
Expurgadas as promessas, os remorsos e as culpas, a vassoura cumpria o resto do que tinha de ser feito após a passagem da maré. A de março era, para aquela senhora, sempre a mais dolorosa durante o ano, pois subia com mais intensidade e mais força do que a dos outros meses do ano.
Baixado o nível da água, ficava atrás de si um cheiro nauseabundo de maresia, impregnado em tudo dentro da casa. Quando a lua começava a minguar, acabava o sofrimento dela. Essa dor mensal, como uma menstruação, que lembrava os tempos de menina-moça, em geral, durava três dias, no calendário em que ela dava baixa, mês a mês, ano a ano, das suas purgações.
 O assoalho não via mais a cor da água cinzenta que o beijava incessantemente para o desespero da dona da casa. "Um ritual", ela repetia para si mesma, resignadamente. Sabia que seriam sete anos. Nunca disse aos filhos como soubera que a purgação levaria sete anos, longos sete anos. Nas redondezas era a única palafita que recebia aquele batismo a cada mês do ano.
Aquele lote de água, ela o recebera de outro invasor, sim porque era um lote de água o que ela dispunha agora, mas sairia daquele beco imundo onde morava com os cinco filhos e porque eram todos invasores, nas redondezas. Ninguém era dono de nada ali, naquele pedaço de mar, entre os manguezais. A mulher ficava esperando a água refluir completamente para que alguém, entre os seus, avistasse os piquetes que demarcavam o seu terreno, a sua área, a sua água, onde surgiria a sua futura casa. 
Se a maré estava cheia, chegava àquela marcação com um bote que ficava à margem, à beira do mangue, disponibilizado pelos antigos moradores das palafitas, se estava vazia, seguia cuidadosamente por uma vereda ou outra, pelos restos de mar deixados pelos caminhos, pelas poças, para não enterrar as pernas até os joelhos nas partes mais moles do terreno. Havia sempre pequenos pântanos pelos caminhos. Enquanto não nascia a sua "edificação" de madeira, ela precisava peregrinar pelas águas como um Moisés, quase todos os dias, para tomar conta do seu "lote", não deixando que nenhum outro aventureiro dele se apossasse. 
Era um lote de água, com os piquetes submersos, que recebera num dia de Ação de Graças daquele indivíduo. Estavam submersos porque a altura deles era inferior à altura que água subia regularmente. Dera-lhe o lote, ninguém sabe em que circunstâncias com as marcações dos piquetes, um invasor, ilustre desconhecido da sua família. Poderia construir três casas na área demarcada, se tivesse recursos. Não os tinha para tanto, cedeu, para um vizinho do beco imundo onde morava, uma parte das suas águas, e a outra parte fora invadida por um morador antigo das redondezas, que há muito estava de olho naquele "terreno", embora já tivesse uma casa em outra rua das palafitas.
Ali, ela fizera a casa com os restos de madeira e lona, e os mourões que comprara para a sustentação da base. Ninguém sabe como juntara, da noite para o dia, aqueles trapos para armar sua casa sobre as águas. Quem a construíra, nada sabia da maré naquele pedaço do mangue da cidade baixa. Logo, a casa foi construída sem se levar em conta a altura que a maré chegava àquela parte do mar.
Assim, amargaria por sete anos a lavagem da casa pelas águas de Iemanjá, talvez já não se lembrasse de alguma promessa que tivesse feito para a Rainha do Mar. Como a deixou de cumprir, pagava, por certo, pela promessa não cumprida. Cumpria a sua pena, carregava a sua cruz, dizia para si mesma a todo instante quando as coisas desandavam. E ia tocando a vida sem deixar de acenar uma única vez para a esperança.

(José Carlos Sant Anna)




terça-feira, 24 de novembro de 2015

Parábola do Gelo



Me acordei, pulei da cama e abri a janela descerrando as cortinas. O sol entrou fulgurante. Recebi aquela baforada de ar quente pelo meu peito, respirei o ar puro da manhã e entrei no banheiro para a minha higiene matinal. Em seguida, pus a roupa de ginástica, passei pela cozinha, bebi um suco de amoras, natural, coloquei um gorro para proteger a cabeça do sol, passei filtro solar no rosto, braços e pernas, e desci para a caminhada habitual.
Ao chegar ao portão do prédio onde moro, levei um susto. Apesar do sol inclemente, o passeio e a rua, como se tivesse nevado a noite inteira, estavam tomados de gelo. Fiquei intrigado. Como aquele gelo todo teria se formado, se a temperatura beirou a casa dos 35 graus durante toda a noite? Como, se habitualmente, neste período, a temperatura nunca é inferior a 30 graus, tal fenômeno seria possível? Alguma coisa estava fora da ordem, foi o que pensei. O zelador me trouxe a mangueira do jardim do condomínio e uma pá e cuidei de desobstruir a passagem dos meus passos e das minhas palavras. 
Uma vez desobstruídos, passeio e rua, com o gelo escoando pela rede pluvial, olhei para o infinito como se ele pudesse explicar-me alguma coisa e, como não obtive resposta, deixei-me perder, achando-me do outro lado, no sul do país, pelas bandas de outra cidade, desconhecida, com as vistas, saudosas, alcançando uma rua, que, curiosamente, estava também pejada de gelo, embora não houvesse explicação, aqui, como lá, para o incomum fenômeno.
Eu não poderia fazer nada, absolutamente nada, àquela distância, senão esperar que a moça do outro lado desobstruísse a passagem dos seus passos e das suas palavras, removendo o gelo tal como eu já o fizera na minha calçada. 

Resta-me agora esperar que ela o tenha feito. 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de novembro de 2015

Cena 15



Agora estou despojado de tudo. Impertinente, só não descartei a alergia e a pose de adulto idiossincrático que carrego comigo há anos como um mal necessário. Ainda que não o negue, cresci o bastante, e as roupas já não cabem em mim. O que faço, então? Visto-as sem nenhum pudor. Só aquele sapato feito a mão é que guardo como um adorno de veraneio. Eu só os calço por descuido porque não quero gastá-los e, quase sempre, o faço em dia de festa quando os meus pés ruidosamente os acolhem com meias de algodão e saio pelas ruas com os olhos nas nuvens e, ao mesmo tempo, nos sapatos como se carregasse nos pés uma joia, embora, os que me olhem, pensem que estou à procura de alguma coisa que perdi pelo caminho. 

Ah! E a areia! As andanças! A corda de enforcado! Como eu não queria este devaneio agora, esta sombra me perseguindo numa escancarada manhã de sábado, sim, escancarada mas ensolarada, como o diabo gosta. A promessa de espuma alvíssima, o mar batendo na amurada do cais, a leve impaciência, a chave perdida, os vampiros sugando sem cerimônia o meu sangue em plena luz do dia, os burocratas conspirando dia e noite, as raspas de manteiga no fundo do pote, o travo nos maxilares, os arrecifes de corais e os escombros do navio na baía onde se lê Mar del Plata, e a bandeira azul e branca, de los hermanos, tremulando no mastro, os fictícios tesouros ali perdidos, o medo de te perder também, o coração batendo com taquicardia, o ar seco, a luz crua, um estranho sentimento, um céu poderoso, a vodka dançando sobre um ataúde, e o serpenteio da serpentina no ar como a música de uma harpa, como se visse uma impossível musa, as cortinas oscilando, o vento vogando no entremeio, os móbiles a esmo, a água da chuva nos vidros da janela, a noite passada, tudo reverbera, e os filamentos são as nervuras de uma pétala encoberta pelas cascas de uma noz sobre uma mesa de jantar que ainda não se despojou dos restos da nossa última ceia. Os lobos  passeiam pela grama do meu jardim, enquanto procuro minha caixa de lápis de cor para retocar a policromia do arco-íris que está desbotando como se fosse um disfarce. 

                          (José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cena 14


As amoras
ciosas     incomuns
mostram um raro bom senso
quando me trazem nos seus lábios
o gosto maduro do seu fruto.

Mas eu    inquieto amador
não tive o mesmo bom senso
ao revelar
o segredo das amoras
e dos seus lábios em insólito poema.

Agora as amoras
tensas 
sombrias
                       pairam
acima das nuvens
com essa revelação
que se espalhou por toda parte. 

José Carlos Sant Anna