sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Transfiguração

Tomas Nicolleta - imagem capturada na internet

Ela. Depois de um longo e delicado inverno, em vão, se interroga retirando um livro de uma das prateleiras da estante, quase vazia. Ele. Viaja pelo vão de uma rua estreita, nevoenta e sem estrelas. Ela. Estranhamente pela primeira e única vez usava um salto alto, bem alto, deixando-a mais sedutora, trajando um macaquinho preto. Ele. Crispa o olhar diante da garoa, do vento morno e da ausência de estrelas, devorando-a de longe. Ela. Mostra as mãos desatadas e as pernas, roliças, como nunca fizera antes. Ele. Pousa as mãos suavemente no seu decote. Ela. Parece que nada comove o seu coração, mas nos seus lábios se adivinham tábuas de música. Ele. Ainda que a nau pareça indiferente, avança sem bússola, descendo as mãos, sorrateiras, sentindo a arca em brasa. Ela. Os olhos cantam violinos do amanhã de desejos reprimidos. Ele. Move-se no universo dos enganos e das ruínas trêmulas que se desfazem. Ela. Simula uma conversa com o personagem do romance que sustinha nas mãos, entregando-se ao deleite. Ele. Feriu-se, sangrou, e cada gota de sangue ocultou fundos mistérios nos lenços de si mesmo. Ela. Tudo ainda estava por vir no vento que soprava os seus cabelos. Ele. Não se lembra, mas se abriu um céu límpido no seu umbigo quando as suas mãos desceram para o ventre pelo zíper entreaberto. Ela. Importa que estou aqui, à beira deste sonho. Ele. É tempo de voar pelas colinas frescas do teu corpo libertado. Ela. Deito-me na tua relva entre as tuas vagens. Ele. Talvez não merecesse este sonho e este lume da subida. Ela. Não me diz nada, nada, liga tão só a tua ignição. Ele. É tempo de exaltar. Ela. É tempo de sorver.  Ele. Ela. Corpos desnudos e avivados pelos fulgor das águas que escorrem pelas zonas mais vivas dos seus corpos dissolvidos.


(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Página 21



FAZ DEZ DIAS QUE NÃO passo na barbearia. Com o jeitinho característico do brasileiro sinalizei ao barbeiro, ao passar pela porta do estabelecimento, que ando muito ocupado, dando-lhe a entender que as festas do final de ano me desviariam do caminho da cadeira giratória do salão de beleza. Aliás, devo confessar que ir à barbearia é um lazer do qual não abro mão, se enraizou na minha vida de adulto. Eu adoro. Nessa época do ano, no entanto, o que não faltam são os almoços ou jantares de confraternização para todos os gostos. Haja festa. Logo, me afastei, para a alegria de alguns e tristeza de outros, porém contra a minha vontade, do santuário do cabelo.
Assim, ao meu sinal, o barbeiro procurou dissimular certa contrariedade com a minha ausência e fez um gesto vago anuindo com um sorriso amarelo. Afinal, o fim de ano é um momento de generosidade por parte de clientes e de amigos, portanto, ele esperava que não fosse diferente comigo. O que é certo é que achava o tempo inteiro que ele engordaria a sua caixinha de natal com os mais assíduos frequentadores, logo com a minha contribuição. Eram favas contadas para ele. Talvez esperasse uma garrafa de vinho ou outro mimo, quem sabe?
A verdade é que eu nunca levo tanto tempo sem bater o ponto, ainda que eu não precise aparar as pontas dos parcos cabelos que ainda mantenho, por algum milagre, na cabeça, ou seja, a minha ida àquele salão de beleza se faz com uma regularidade que bem poderia ser chamada de britânica. Como há sempre um porém na vida de toda gente, e como os há, todos nós o sabemos, eu não consigo evitar...
Assim, essa regularidade não agrada ao meu eleitorado em casa. São três mulheres e uma sentença. Ainda que a "dona da minha cabeça" (por onde você anda Geraldo Azevedo?) diga-me a toda hora que não sabe por que eu gosto tanto, mas tanto, de cortar o cabelo, "de boa", desconheço suas aporrinhações, e sigo em frente. Quando ela menos espera, digo-lhe à queima roupa:
Vou ali à barbearia aparar o cabelo.
E ouço dela na lata:
Já vai jogar dinheiro fora, não é, seu abestalhado?
Finjo que não ouço e saio indiferente aos outros impropérios proferidos com a máxima ironia, mas que se erguem sem destruir as "coisas belas" (Caetano a culpa é sua e de Sampa) que nos mantém unidos.
Por que reagir? Tudo vale a pena, com ou sem Pessoa, a repetir já sem voz este pedaço de verso gasto pelo uso indiscriminado. Às vezes, diante de tais constrangimentos, vergo sob a ação do vento de Santa Bárbara, mas não demora, e a haste volta a si, recompondo-se e, em seguida, recupera sua elasticidade, sua envergadura.
Jamais ela compreenderia as minhas razões para continuar seguindo em frente. O que ela não sabe, "nem nunca procurou saber" (alô, alô, Roberto Carlos, ainda censurando as biografias não autorizadas?) é que o que menos a mim interessa na barbearia são os cabelos. Sou indiferente ao tamanho dele ou às suas pontas. E lá vou eu radiante.
Chego de mansinho, com bonomia e o corpo ereto, cumprimentando a todos, e vasculho uma revista na mesa de centro e sento-me escolhendo uma posição que não somente eu veja a todos, clientes e barbeiros, mas, sobretudo, possa escutá-los, sem perder-lhes uma palavra. O que me apraz na barbearia são as histórias. As muitas histórias que ali são ouvidas. E não há cerimônia para contá-las. É um espaço masculino, sem censura.
Já ouvi mais de uma vez o meu barbeiro perguntar-me com sorriso maroto:
 Você não tem uma história para contar, não, doutor?
Respondo-lhe com um sorriso enigmático, deixando-o na expectativa de que, em algum momento, vou revelar algum segredo, vou contar-lhe alguma história. E depois de uma pausa, serena, digo-lhe que prefiro ouvi-las, como o velho Guimarães, com a reserva dos gerais, o fazia. Arregala-me os olhos perguntando-me através deles quem é esse tal de Guimarães, e acrescenta de viva voz:
- Não me lembro dele. Vinha sempre com o senhor cortar o cabelo também, não é, doutor?
Desvio o olhar para que ele não se distraia com essa conversa abstrata e não comece a alimentar a sua imaginação. Então, volto a fingir que leio uma das revistas à disposição da clientela e  fico torcendo para que o barbeiro se demore ou apareça uma pessoa mais velha para que eu possa ceder-lhe o meu lugar, respeitando a prioridade.
Ah! Quase me esquecia de dizer que o Hatoun também gosta de ouvir histórias na barbearia, no centro velho de São Paulo, ou por aí afora, está sempre de ouvidos bem abertos para não perder os detalhes.
Como não sei mentir, confesso que vou seguindo o belo exemplo dele e do velho Guimarães, entre outros. 

(José Carlos Sant Anna)





sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Página 8



Vem, minha aurora madura,
ouvir o rumor do meu mar
e da fonte 
que lateja sob a minha pele.

Vem morder este fruto
sonâmbulo 
que arfa sob o orvalho
e sorri com as pálpebras
ao imaginar suas travessuras
na grama do meu jardim.

Ergo a minha taça à sombra 
do teu olhar e da placidez 
infinita, que se espraia
com a tua presença. 

                  (José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Rito de passagem


Últimos sinais na janela indiscreta
milhares testemunham à beira-mar
                              o rito de passagem
simbolicamente do velho para o novo

Despe-se inteiramente o velho?
Despojam-se dos galhos e ramos
as folhas secas abortando 
o derradeiro espinho das suas vestes?

Já não sangra a sua pele
já não sangra, e o caule verga,
entre tantas outras coisas,
sob o peso da lava-jato et caterva
faltando-lhe o oxigênio para as insolvências
que transbordam na secura do Cantareira

Ochampagne passado de mão em mão
evapora-se antes de beijar os meus lábios,
Finco as primeiras raízes do renascimento

Como saber o que cabe na esperança
dessa pátria pálida, envergonhada,
no fundo do seu nervo ótico?

Quanto deste sal estará evaporado
quando tiver passado a ressaca do réveillon?


                        José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

D. Maria


 OI, MULHER, POR ONDE você andava? Estava sentindo a sua falta, sabia? Você está tão bonita!...
    Lua recuou ligeiramente quando aquela senhora lhe dirigiu a palavra com um sorriso que ia de um canto ao outro da boca, dizendo-lhe palavras amáveis, carinhosas. Em seguida, ela recobrou a fidalguia e o domínio da situação e lhe respondeu também com um largo sorriso, que se espalhou por todo seu rosto.
    A verdade é que se não ela reagisse dessa maneira não seria a Lua, que todos nós conhecemos. Assim, ela retribuiu a candura das palavras, sim senhor, a candura das palavras da sua interlocutora:
    – Estou por aí, mulher, você é que anda sumida. Volta e meia, eu passo pela tua praça. Sempre vejo você por lá, distraída, tricotando a vida e as suas roupas...
    Ainda enigmáticas, entreolharam-se por alguns instantes e cada uma seguiu para onde a vida as levava naquele instante.
    Lua iria comprar umas frutas no mercadinho mais próximo. E, pelo jeito, D. Maria estava indo para o seu território, munida das suas inseparáveis sacolas, pois ali também estava o seu manual de sobrevivência. Nelas carregava uns paninhos de crochê que ela saía vendendo aos transeuntes pelas redondezas antes que a esquizofrenia, de súbito, pela falta dos remédios, a atacasse, deixando-a aparentemente como se não tivesse o juízo perfeito.
    Portanto, eu dizia que Lua estava indo às compras, para a sobrevivência da semana, pois morava sozinha. Desde que perdeu os pais, mora sozinha num amplo apartamento, sob as bênçãos da praça de D. Maria.
    Pois é isso mesmo que acabaram de me ouvir dizer. As duas são vizinhas, separadas apenas por uma rua, entre o prédio em que Lua mora e a praça, arborizada, fresquinha, que amanhece com as secretárias do lar e, por vezes, as próprias madames, com os seus cães, cumprindo o ritual das matinais necessidades deles.
    Nesta hora, é bom que todos saibam, D. Maria ainda não ocupou o seu território. Ela mora na Praça, mas não dorme na Praça. Ela tem uma família também, é o que todos supõem ou imaginam.
    E, além disso, porque são vizinhas é natural que se conheçam, que nos cumprimentos que trocam entre si não faltem calor humano, intimidade e bonomia, inata aos vizinhos que se acolhem e se respeitam. E se amam, por que não?
    Por certo, Lua estranhou num primeiro momento o modo tão amigável, tão íntimo, tão familiar do cumprimento de D. Maria. E tanto estranhou que se apressou a contar para o grupo família do WhatsApp, como algo incomum.
    – Ei, gente, vocês não sabem o que me aconteceu agora?
    Escreveu esta mensagem e aguardou a curiosidade de sua turma, pois, como os conhecia, e bem, sabia que viria uma pá de perguntas querendo saber o que houve. E imaginava o que cada um diria da situação inopinada para ela. Claro que não era assim que D. Maria encarava a situação. Inopinada, ora vejam só, é cada coisa que se ouve. Para ela, não havia nada de extraordinário. Anormais são os outros que não passam o dia inteiro recolhida numa praça, olhando o vazio ou contando estrelas à luz do sol. Anormais são os que se banham todos os dias. 
    Não seria isto o que pensa D. Maria?
    – Oi, tia, conte logo... (uma das sobrinhas).
    – Lua, não me diga que você encontrou o Brad Pitt boiando e ele te chamou para jantar, foi, sortuda? Conte logo... (outra sobrinha, de língua mais afiada, mais descontraída).
    – Diga, minha irmã, não temos poderes divinatórios, conte logo, a mulher das “histórias” para a família é você... (uma das irmãs, cheia de verve, de ironia).
    – Vai, minha irmã, conte logo, a gente não pode ficar a tarde inteira esperando por essa notícia... (a outra irmã, fingindo formalidade).
    E ela contou o modo amistoso com que D. Maria a cumprimentou revelando o tom de intimidade que ela imprimiu às suas palavras, como se ambas, lídimas vizinhas de um bairro chique da zona sul da cidade, tivessem os mesmos anseios, as mesmas preocupações e até mesmo a perspectiva de amores semelhantes. 
    Retomaram o diálogo no WhatsApp com um naipe de gracinhas, pipocando os risos de um lado e do outro, enquanto D. Maria já ocupava o seu lugar na praça, discursando como em geral ela ficava na praça.
    Quando tal acontecia, dizia-se que ela estava "atacada".
    Ela nunca saberia que, longe da ali, era objeto de tantas especulações e gracejos. Todos bem humorados, é verdade, pois não se pode esconder a boa formação da galera, ainda assim zombeteiros e discriminatórios, por que não dizer? 
    Ainda que soubesse que a espontaneidade de minutos antes  estava sendo motivo de tanta graça entre eles, ela não compreenderia as razões. Por certo, manifestaria a mesma estranheza de quando é surpreendida por um carro à sua frente, assustando-a. Quando tal acontece, ela reage fulminando com o olhar o motorista que a tirou das suas elucubrações.
    Quantas vezes eu ouvi seus impropérios ao entrar na garagem do prédio onde moro, quando ela queria passar pelo passeio em frente ao portão?

(José Carlos Sant Anna)