sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sabedoria infantil



Era um pouco depois das nove horas da manhã do segundo dia do carnaval, quando o menino, João Pedro, de quatro anos de idade, abandonou a folha de papel na qual fazia uns rabiscos, deixou o seu quarto, vestido de super-homem, em direção à sala de jantar, onde, modorrentamente, se encontrava o seu pai assistindo pela televisão os melhores momentos do primeiro dia do carnaval do país. Aboletou-se de mansinho ao lado dele e ficou imóvel por alguns minutos olhando para o infinito como estivesse à caça de um algum inimigo. 

Depois de alguns minutos, assim paralisado, sem que o seu pai lhe desse a mínima atenção, puxou a manga da camisa dele e perguntou:
- Papai, o que vem depois de um dia?
- Outro dia, meu filho.
- E depois do outro dia?
- Vem outro.
- E depois do outro?
- Vem outro
- É sempre assim?
- Sim, meu filho, é sempre assim
- Não tem nada diferente?
- Não, meu filho, nada diferente. Depois de um dia, vem outro; depois, vem outro, outro, outro. É assim a vida, meu filho! 

O menino respirou fundo. Em seguida, olhando bem dentro dos olhos do seu pai, disse:

- Ah! Que tédio! Tudo sempre igual na vida da gente. 


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Abolição



Ele só ficou sabendo que hoje é o dia do sexo ao entrar em casa e encontrar as lingeries provocantes, e como eram, não se fazia ideia, juntamente com outros objetos eróticos espalhados sobre a cama do casal, insinuando, sugerindo... Dizendo mais do que qualquer palavra. Um gesto vale mais que mil palavras, como se dizia antigamente. Era o que estava ao seu alcance fazer naquele momento para fisgá-lo novamente, ainda que não fosse um peixe, mas ainda se sentia uma sereia.

E ela só ficou sabendo que hoje é o dia do sexo ao entrar num sex shop com uma amiga e encontrar o luminoso com o slogan "todo dia é dia de sexo", na entrada da loja, despertando ainda mais a vontade de saciar o seu desejo. 

O que ela fez sem que a amiga lhe dissesse qualquer coisa? Levou para casa as lingeries provocantes, agora encontradas sobre a cama, além de outros fetiches amorosos em busca de uma relação sexual mais prazerosa, dizendo para si mesma que sentia falta disso. Assim, ela apimentaria, da melhor forma possível, a relação do casal, que vivia congelada, fazia muito tempo. 

Mais tarde depois do vinho e um jantar, preparado caprichosamente com alguns afrodisíacos, à luz de velas, os corpos riram de prazer, como não faziam, havia muito tempo, com a porta do quarto aberta e a luz do abajur acesa. 

Enquanto os corpos ainda se tocavam um olhar cúmplice decidiu abolir a agenda onde estavam marcadas no calendário as datas das sessões de sexo do casal. 


(José Carlos Sant Anna)



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Transfiguração

Tomas Nicolleta - imagem capturada na internet

Ela. Depois de um longo e delicado inverno, em vão, se interroga retirando um livro de uma das prateleiras da estante, quase vazia. Ele. Viaja pelo vão de uma rua estreita, nevoenta e sem estrelas. Ela. Estranhamente pela primeira e única vez usava um salto alto, bem alto, deixando-a mais sedutora, trajando um macaquinho preto. Ele. Crispa o olhar diante da garoa, do vento morno e da ausência de estrelas, devorando-a de longe. Ela. Mostra as mãos desatadas e as pernas, roliças, como nunca fizera antes. Ele. Pousa as mãos suavemente no seu decote. Ela. Parece que nada comove o seu coração, mas nos seus lábios se adivinham tábuas de música. Ele. Ainda que a nau pareça indiferente, avança sem bússola, descendo as mãos, sorrateiras, sentindo a arca em brasa. Ela. Os olhos cantam violinos do amanhã de desejos reprimidos. Ele. Move-se no universo dos enganos e das ruínas trêmulas que se desfazem. Ela. Simula uma conversa com o personagem do romance que sustinha nas mãos, entregando-se ao deleite. Ele. Feriu-se, sangrou, e cada gota de sangue ocultou fundos mistérios nos lenços de si mesmo. Ela. Tudo ainda estava por vir no vento que soprava os seus cabelos. Ele. Não se lembra, mas se abriu um céu límpido no seu umbigo quando as suas mãos desceram para o ventre pelo zíper entreaberto. Ela. Importa que estou aqui, à beira deste sonho. Ele. É tempo de voar pelas colinas frescas do teu corpo libertado. Ela. Deito-me na tua relva entre as tuas vagens. Ele. Talvez não merecesse este sonho e este lume da subida. Ela. Não me diz nada, nada, liga tão só a tua ignição. Ele. É tempo de exaltar. Ela. É tempo de sorver.  Ele. Ela. Corpos desnudos e avivados pelos fulgor das águas que escorrem pelas zonas mais vivas dos seus corpos dissolvidos.


(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Página 21



FAZ DEZ DIAS QUE NÃO passo na barbearia. Com o jeitinho característico do brasileiro sinalizei ao barbeiro, ao passar pela porta do estabelecimento, que ando muito ocupado, dando-lhe a entender que as festas do final de ano me desviariam do caminho da cadeira giratória do salão de beleza. Aliás, devo confessar que ir à barbearia é um lazer do qual não abro mão, se enraizou na minha vida de adulto. Eu adoro. Nessa época do ano, no entanto, o que não faltam são os almoços ou jantares de confraternização para todos os gostos. Haja festa. Logo, me afastei, para a alegria de alguns e tristeza de outros, porém contra a minha vontade, do santuário do cabelo.
Assim, ao meu sinal, o barbeiro procurou dissimular certa contrariedade com a minha ausência e fez um gesto vago anuindo com um sorriso amarelo. Afinal, o fim de ano é um momento de generosidade por parte de clientes e de amigos, portanto, ele esperava que não fosse diferente comigo. O que é certo é que achava o tempo inteiro que ele engordaria a sua caixinha de natal com os mais assíduos frequentadores, logo com a minha contribuição. Eram favas contadas para ele. Talvez esperasse uma garrafa de vinho ou outro mimo, quem sabe?
A verdade é que eu nunca levo tanto tempo sem bater o ponto, ainda que eu não precise aparar as pontas dos parcos cabelos que ainda mantenho, por algum milagre, na cabeça, ou seja, a minha ida àquele salão de beleza se faz com uma regularidade que bem poderia ser chamada de britânica. Como há sempre um porém na vida de toda gente, e como os há, todos nós o sabemos, eu não consigo evitar...
Assim, essa regularidade não agrada ao meu eleitorado em casa. São três mulheres e uma sentença. Ainda que a "dona da minha cabeça" (por onde você anda Geraldo Azevedo?) diga-me a toda hora que não sabe por que eu gosto tanto, mas tanto, de cortar o cabelo, "de boa", desconheço suas aporrinhações, e sigo em frente. Quando ela menos espera, digo-lhe à queima roupa:
Vou ali à barbearia aparar o cabelo.
E ouço dela na lata:
Já vai jogar dinheiro fora, não é, seu abestalhado?
Finjo que não ouço e saio indiferente aos outros impropérios proferidos com a máxima ironia, mas que se erguem sem destruir as "coisas belas" (Caetano a culpa é sua e de Sampa) que nos mantém unidos.
Por que reagir? Tudo vale a pena, com ou sem Pessoa, a repetir já sem voz este pedaço de verso gasto pelo uso indiscriminado. Às vezes, diante de tais constrangimentos, vergo sob a ação do vento de Santa Bárbara, mas não demora, e a haste volta a si, recompondo-se e, em seguida, recupera sua elasticidade, sua envergadura.
Jamais ela compreenderia as minhas razões para continuar seguindo em frente. O que ela não sabe, "nem nunca procurou saber" (alô, alô, Roberto Carlos, ainda censurando as biografias não autorizadas?) é que o que menos a mim interessa na barbearia são os cabelos. Sou indiferente ao tamanho dele ou às suas pontas. E lá vou eu radiante.
Chego de mansinho, com bonomia e o corpo ereto, cumprimentando a todos, e vasculho uma revista na mesa de centro e sento-me escolhendo uma posição que não somente eu veja a todos, clientes e barbeiros, mas, sobretudo, possa escutá-los, sem perder-lhes uma palavra. O que me apraz na barbearia são as histórias. As muitas histórias que ali são ouvidas. E não há cerimônia para contá-las. É um espaço masculino, sem censura.
Já ouvi mais de uma vez o meu barbeiro perguntar-me com sorriso maroto:
 Você não tem uma história para contar, não, doutor?
Respondo-lhe com um sorriso enigmático, deixando-o na expectativa de que, em algum momento, vou revelar algum segredo, vou contar-lhe alguma história. E depois de uma pausa, serena, digo-lhe que prefiro ouvi-las, como o velho Guimarães, com a reserva dos gerais, o fazia. Arregala-me os olhos perguntando-me através deles quem é esse tal de Guimarães, e acrescenta de viva voz:
- Não me lembro dele. Vinha sempre com o senhor cortar o cabelo também, não é, doutor?
Desvio o olhar para que ele não se distraia com essa conversa abstrata e não comece a alimentar a sua imaginação. Então, volto a fingir que leio uma das revistas à disposição da clientela e  fico torcendo para que o barbeiro se demore ou apareça uma pessoa mais velha para que eu possa ceder-lhe o meu lugar, respeitando a prioridade.
Ah! Quase me esquecia de dizer que o Hatoun também gosta de ouvir histórias na barbearia, no centro velho de São Paulo, ou por aí afora, está sempre de ouvidos bem abertos para não perder os detalhes.
Como não sei mentir, confesso que vou seguindo o belo exemplo dele e do velho Guimarães, entre outros. 

(José Carlos Sant Anna)





sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Página 8



Vem, minha aurora madura,
ouvir o rumor do meu mar
e da fonte 
que lateja sob a minha pele.

Vem morder este fruto
sonâmbulo 
que arfa sob o orvalho
e sorri com as pálpebras
ao imaginar suas travessuras
na grama do meu jardim.

Ergo a minha taça à sombra 
do teu olhar e da placidez 
infinita, que se espraia
com a tua presença. 

                  (José Carlos Sant Anna)