quinta-feira, 31 de março de 2016

Águas de março II



Antes que
ou como se ele já não estivesse
                                    em seu ofício
por não ser mais 
uma realidade em evidência
março se desassossega na parede

E os dias despencam sem cerimônia 
pela janela absorta de gerânios

Súbito 
ainda há um tempo
respira entre nuvens planas
sem me trair, sem subtrair-me 
o último dia 
que caminha para a água.

Da água em seu remanso
e não sendo ar no ar 
me pergunta da terra úmida,

ao perceber 
a menina Sofia na varanda,
que idade tem esse homem?

                                
                            (José Carlos Sant Anna)


quarta-feira, 23 de março de 2016

Engasgado

Nicoletta Tomas - Tutt'Art (24)

O que há de mais oculto
no poema engasgado:

se nele acho
a água
do teu corpo
das minhas
mãos
ainda intacto?


Ou se nele cavo e escavo
entre o silêncio
e o grito 
um jeito de domá-lo?

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Águas de março

Imagem Tomas Nicoletta
I.
só,
enraizado no chão pedregoso,
não viu as chamas
do céu noturno
incendiando
seu amor
tão maior que a morte. 

II.
Se for por mim 
lhe inundarei de uma água tão pura 
e, depois, tilintaremos as taças 
e os corpos, translúcidos, 
num súbito milagre 
sob uma chuva
curinga.

(José Carlos Sant Anna)





sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sabedoria infantil



Era um pouco depois das nove horas da manhã do segundo dia do carnaval, quando o menino, João Pedro, de quatro anos de idade, abandonou a folha de papel na qual fazia uns rabiscos, deixou o seu quarto, vestido de super-homem, em direção à sala de jantar, onde, modorrentamente, se encontrava o seu pai assistindo pela televisão os melhores momentos do primeiro dia do carnaval do país. Aboletou-se de mansinho ao lado dele e ficou imóvel por alguns minutos olhando para o infinito como estivesse à caça de um algum inimigo. 

Depois de alguns minutos, assim paralisado, sem que o seu pai lhe desse a mínima atenção, puxou a manga da camisa dele e perguntou:
- Papai, o que vem depois de um dia?
- Outro dia, meu filho.
- E depois do outro dia?
- Vem outro.
- E depois do outro?
- Vem outro
- É sempre assim?
- Sim, meu filho, é sempre assim
- Não tem nada diferente?
- Não, meu filho, nada diferente. Depois de um dia, vem outro; depois, vem outro, outro, outro. É assim a vida, meu filho! 

O menino respirou fundo. Em seguida, olhando bem dentro dos olhos do seu pai, disse:

- Ah! Que tédio! Tudo sempre igual na vida da gente. 


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Abolição



Ele só ficou sabendo que hoje é o dia do sexo ao entrar em casa e encontrar as lingeries provocantes, e como eram, não se fazia ideia, juntamente com outros objetos eróticos espalhados sobre a cama do casal, insinuando, sugerindo... Dizendo mais do que qualquer palavra. Um gesto vale mais que mil palavras, como se dizia antigamente. Era o que estava ao seu alcance fazer naquele momento para fisgá-lo novamente, ainda que não fosse um peixe, mas ainda se sentia uma sereia.

E ela só ficou sabendo que hoje é o dia do sexo ao entrar num sex shop com uma amiga e encontrar o luminoso com o slogan "todo dia é dia de sexo", na entrada da loja, despertando ainda mais a vontade de saciar o seu desejo. 

O que ela fez sem que a amiga lhe dissesse qualquer coisa? Levou para casa as lingeries provocantes, agora encontradas sobre a cama, além de outros fetiches amorosos em busca de uma relação sexual mais prazerosa, dizendo para si mesma que sentia falta disso. Assim, ela apimentaria, da melhor forma possível, a relação do casal, que vivia congelada, fazia muito tempo. 

Mais tarde depois do vinho e um jantar, preparado caprichosamente com alguns afrodisíacos, à luz de velas, os corpos riram de prazer, como não faziam, havia muito tempo, com a porta do quarto aberta e a luz do abajur acesa. 

Enquanto os corpos ainda se tocavam um olhar cúmplice decidiu abolir a agenda onde estavam marcadas no calendário as datas das sessões de sexo do casal. 


(José Carlos Sant Anna)