sábado, 14 de janeiro de 2017

Pétala



No fundo dos teus olhos
procuro a melodia das estrelas
abrindo a noite. Parecem sinceros,
teus olhos, um ao lado do outro,
sem saltos, conversa discreta.
Um concerto em lá menor para
flores de rendas a denunciar
os rastros de uma dama furtiva
em que ninguém repara no fruto
ou na delicadeza da viola de bolso 
do seu canto, cansada do dia a dia,
depois que uma chuva, fria, alagou
o desenho das bocas amadas
no último beijo em uníssono.

             (José Carlos Sant Anna)

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sob o peso das horas



No meio do cigarro o mundo desanda:
névoas de um querer desorganizado
impõem-se ao meu furtivo coração

E metáforas pesadas acenam
mórbidas – um mar dentro do corpo –
marés sem porto que borbulham

(Nelas creio porque nada me impede
de acreditar em alguma coisa)

E fragmentam-se. 
São ínfimos os escombros.

Por inútil não mordo a maçã.
E recolho resíduos do improvável
às margens da minha escrita,

Inapelável, indiferente ao risco. 


                                (José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O neon do presídio de Manaus

Familiares de detentos do Presídio de Manaus se aglomeram
 em frente ao Instituto Médico Legal - Foto O Globo



A ânsia, a falta de oxigênio, o sol esquivo 
e o napalm correndo à solta em Manaus.
Dizem que são mais de 60 presuntos.
Relâmpagos súbitos dos berros escondidos
e das bicudas cravadas nos corpos nus.
Foram muitos os que não tiveram tempo 
de pular fora do trem e fugir por alguma tereza.
E agora nada existe além desse Vietnam
roendo as paredes do corpo do secretário
da segurança pública que sucumbe 
pleno de gestos vazios antes de gastar 
o seu latim, oprimido nos seus lençóis 
por ter perdido a hora do tim-tim do réveillon,
e sabendo como é duro ficar frio nessa hora. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Realidade

Imagem da Internet

Inimaginável,
um milagre entre o céu e a terra,
a oliva, fora do seu pomar,
onde não há outra tão assemelhada,
sem subtrair-se ao tamanho alcançado
e mesmo na penumbra sob a pele,
ao levantar a cabeça para espiar a vida
em torno dos seus ramos compridos,
me espreita guardada por um cão
invisível. 

(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Borboletas azuis

                                           

No rastro...
Por mais que se diga o que se vê
é sempre festa
o nascimento de estrelas

Porque ninguém pensou
em mística ainda que houvesse 
roupa estendida no varal do orvalho 
e nas rosas empertigadas

E nos olhos verticais desabitados,
e no brilho do chão

E na imagem dos homens
olhando o ímpeto das borboletas
em cada voo lúdico
como se lhes apetecessem as nuvens

E no perfume das flores por dentro
dos meus passos etéreos

E nas feições do sol
para fabricar sonhos 
sem tropeçar na sombra das pedras. 

(José Carlos Sant Anna)