ESFREGO OS OLHOS PARA
ACOSTUMAR-ME à escuridão do quarto fechado pelo blackout e cortinas de
algodão; alongo o corpo como se eu fosse um atleta e aguardo um pouco, sem esfriar
o sangue, para levantar-me. É o tempo que eu preciso para que os meus olhos se
acostumem à escuridão e os meus músculos, nas águas que ignoram o céu aberto, obedeçam ao meu cérebro. Faço isso sem
remorso algum ou, então, porque não me resta outra alternativa, pois, naquele
momento, eu sou ali um corpo submetido às minhas necessidades fisiológicas. Agora, por favor, – porque sei o quanto o leitor é curioso –, não
me pergunte o que faço a essa hora da madrugada na varanda do meu apartamento
porque eu não saberia dar-lhe uma resposta convincente. Ou não desejaria fazê-lo. Se isto não lhe basta,
meu caro leitor, digo-lhe apenas que tenho os pés no chão. Ah! Me rendo diante da sua insistência! Eis
tudo. Não me sufoque! O que posso dizer-lhe é que me levanto voluntariamente, como um corpo que
nunca faltou à palavra dada. Parte de mim. Simplesmente um corpo. Não, é melhor que o diga
compulsoriamente. Por força da idade mais avançada. Faço isso habitualmente
para desobstruir a bexiga, depois, já mais leve, não quis voltar à cela como um
condenado, ou talvez levado por alguma premonição, desaguei, tão certo quanto a
morte, na varanda, com a mão em concha, no ouvido, como quem escuta. Embora não estivesse resolvido inteiramente o meu sono, ainda havia um naco dele perdido, decido, então, aguardar, embalado
por algum sentimento, a manhã, leve, pousar na minha varanda. Primeiro, fixo o olhar
nos fios tensos de metal encapados na esperança de encontrar as andorinhas
alinhadas e adormecidas como se estivessem numa clave de sol, mas não as
encontro. Estavam inteiramente desnudos os fios. Logo, imagino-as em outra pauta, mais longínqua, e penso, olhando para o céu, "quanto mundo
abissal nos confins do infinito se esconde dos nossos olhares", tendo como
testemunha esta lua cúmplice, sôfrega, brilhante, que recolhe tudo que foi de
ontem, enquanto outras pequenas luas iluminam a praça que circunda o prédio
onde eu moro. Não tenho dúvidas, diante daquela visitação pública, em acreditar
que, em cada um de nós, mora um sobrevivente, também não tenho dúvidas de que
por mais que a ciência quebre os vidros da janela, ela ainda tem um longo
caminho pela frente. E assim conciliado com os céus e o olhar fixo no solo
áspero da praça, começo a ouvir vozes distantes subindo a ladeira íngreme que
as leva à praça. São duas vozes femininas que se alternam em pequenos
intervalos. Uma, mais áspera; e a outra, mais modulada, mais conciliadora.
Esfrego os olhos novamente para ter a certeza de sabê-los abertos. Bem abertos,
pois, diga-se de passagem, sou capaz de apostar que há um sujeito encarapitado
numa árvore da praça. Fixo o olhar e cravo na mosca: “Pô, meu, aquele é o
Nelson! O Nelson Rodrigues, 'cuspido e escarrado'". O mesmo que disse que "cego
em futebol é o que só vê a bola". Não acredito. O velho Nelson, com ar bonachão, traja uma calça jeans, tênis e uma camisa fashion do Fluminense, o
que talvez não fosse usual no seu tempo de cronista de miudezas da vida e de
jornalista que, sob os ossos da palavra, impunha respeito. Mas lá está ele,
sim, eu dizia, bem acomodado no galho da árvore, revelando primeiro a sua
paixão clubística, o que nunca foi segredo para ninguém, que ele sempre foi um
fanático torcedor do "pó de arroz", depois me assaltou uma dúvida: o
que mais ele faria ali? Posso brincar com os meus leitores, pedindo que eles
escrevam cartas para a redação dizendo-me o que ele acha que Nelson Rodrigues
estaria fazendo ali, além de comodamente exibir o seu coração com as cores do
seu velho FLU. Ah! Não esqueçam – isto pode ajudar e muito – que
ele carregava em suas entranhas a alma do repórter. O excelente repórter que
sempre foi. Também não esqueçam da coluna, publicada às segundas-feiras, no
jornal O Globo, cujo mote era o personagem que emergia como herói na rodada do
final de semana. "Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira
das ruas/Eu também tenho algo a dizer.../... Não esqueça..." Aí, já é
o admirável Paulinho da Viola, de Sinal Fechado, e tantas canções e sambas
inesquecíveis, como são inesquecíveis as crônicas do Nelson. Mas eu volto para
contar-lhe o resto dessa história...
(José Carlos Sant Anna)


