sábado, 11 de novembro de 2017

Lúdico



Por onde andei?
Perdi o pato,
perdeu a moça!

Perderam-se também as palavras,
e o poema ficou entalado
na garganta.

Aí veio a moça e disse:
“Não faz mal
esse pato passou, virá outro”

Talvez a moça tenha razão!

Um pato que passa é como o amor
depois que o primeiro passa,
virão outros. É só esperar...

"Mas cada perda
tem o seu significado na vida",
diz para os seus botões!

E assim ele sobrevive ao luto
e a espera que outro pato passe!

José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bricolagem II



a esponja não apaga:
o filão de brancura
o fardo dos olhos,
a dor animal

sem a pomba de volta
a esponja não apaga:

a hora diluviana
o órfão maltrapilho
a mata de musgos
o peso do fogo

onde tudo é carência,
não se apagam os vários acontecimentos
perdidos nas minhas retinas
onde nada morre

signos amorfos, 
anti-mofo de um minuto atrás,
renegando este testemunho

nada escapa
agora
aos dedos vorazes,

e o lápis traz o imaginário
tecido por fios de raio laser,
cópia blasé de uma sintaxe enfurecida
que um gramático em férias
engendrou no cafè au printemps. 

Talvez nem isso,

mas,
quando o meu ego
em piração fenomenal
do vazio da noite
no bazar do meu inconsciente,
descobriu
um empedernido ator chinês
investindo ações em enredos
para uma escola de samba
dos arredores de paris
tudo mudou

ou o mundo desabava no solar do unhão
em pânico,

que é como eu me sentiria
ao escrever
as pequenas histórias dos heróis,
que não seriam senão clichês do bas-fond 
de enredos medíocres,
se a tpm de alzirinha, prá lá de esquisita,
não se embarafustasse
pelos meus sentidos nos happy hours,
quando não há outro lugar
aonde ir
depois de um carrilhão de nuvens.

à sombra da fina flor,
escuro desenho,
o meu desejo soletrava
as rasuras da voz de adriana calcanhoto
pelas avenidas e pelos tiranos becos
de feitio romântico da velha salvador. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O colecionador

                                                                      
                                        Para Ingrid Azevedo
A chuva veio com o amanhecer na minha cidade de verão. Chuva forte, aguaceiro pipocando no telhado da casa, o que me fez permanecer na cama por mais um tempo. Depois, como ela não veio mesmo para ficar, foi-se devagarinho amainando. Só ficou a garoa. Chuva miúda, como se diz por aqui, porque garoa é coisa de paulista. Ontem choveu também. Agora, porém, está um dia morno, o calor voltando com força de levantar defunto. Não sei por que lhe digo estas coisas, ah, eu já sei, é porque estou com um guarda-chuva para o dia de hoje, mesmo sabendo que não choverá, é o que li nas folhas, pela internet. É um guarda-chuva de uma moça elegante; ela mo emprestou no bairro dos Bairris, um bairro antigo no centro da cidade, e foi embora antes que eu voltasse para devolver-lhe aquela preciosidade, vinda de Paris, como, sem rodeios, o confessou, rindo. É, todavia, um guarda-chuva pequeno, mal cobria minha cabeça, por isso molhei as pernas, de cima abaixo. Ainda bem que eu estava de bermuda, depois foi só passar papel toalha, para enxugá-las. Não, eu sei, menina, que se chama de sombrinha, exatamente porque cobre pouco o corpo. Também não sei se lhe disse que fui para o Bairris na hora do jantar e carregava três sacolas. Em cada sacola eu carregava três pares de sapato. Quando ela me emprestou o guarda-chuva, pensei que, ao voltar, eu lhe daria um par de sapatos de presente, seria uma forma de agradecer-lhe o empréstimo daquele objeto que não estava me sendo muito útil por ser pequeno para o meu tamanho, que só protegia minha cabeça e os ombros, mas ela desapareceu. Fiquei pensando que ela poderia ter ido chamar um soldado ou procurar um carro da polícia, para denunciar-me pelo roubo do seu guarda-chuva. Herdei essa presunção de minha mãe de ficar pensando coisas, mas tinha certeza de que ela não faria isto comigo, minha conversa com ela foi tão amena, razoável, me fiz acreditar com a história de ter deixado um pacote no carro e precisava ir pegá-lo, e a chuva não me deixava fazê-lo. Você acha que eu seria capaz de desaparecer com o guarda-chuva da moça elegante? Sabia, agora estou falando com você da borda da minha cama, mas preocupado, ô molesta, com a moça que pode ter tomado muita chuva por minha causa, embora eu não tivesse desaparecido. Nunca faria isto. Foi ela que desapareceu, de repente. Levantei da borda da cama e estou caminhando pelo carpete com os pés descalços e pensando na moça. Seria tão bom se ela me telefonasse, não sei se ela aceitaria o meu pedido de desculpas, mas seria um bom pretexto. Como minhas ideias estão desarrumadas porque é a primeira vez que me acontece uma coisa destas, fui eu abrir a porta do armário achando que ela poderia estar escondida lá dentro, mas, ao abrir a porta do armário, tomei um susto porque as roupas despencaram em cima de mim, parecia um tsunami em pequenas proporções. Essa falta de vontade de resolver este problema, fez-me lembrar que não é primeira vez que carrego um guarda-chuva que não é meu. Acho que sou um cleptomaníaco de guarda-chuvas. Vou olhar a minha coleção, ah, que bela surpresa, há dezenas deles, na parte de cima do armário, que batizamos de maleiro, puxa, tudo tem um nome, a moça também tem um nome, mas não me lembrei de perguntar-lhe, de pedir-lhe o telefone. Olho um por um.  Este é um deles, de Campos do Jordão, sim, do Jordão, é assim que se chama. De lá tem mais de um, são dois ou três, não sei explicar o porquê de tantos. Do Jordão, homenagem a Emerenciano Jordão, o dono das terras antes que se tornasse a estação de águas que é hoje; este, da Casa da Música, na cidade do Porto, este de Munique, já sei está achando que é pura bazófia, não é?. Pois então você que ache... Esquece...  Agora é tarde, mas sinto falta da moça por alguma razão obscura. Espere um pouco, não, espere, não freie o meu sonho, agora, minha divagação. Vou à janela porque ouço um barulho nas telhas. É a chuva, está fininha ainda, mas ela está voltando com garra. Na primavera é assim, sempre chove. Talvez a chuva traga a moça de volta. Espero que o vizinho de porta, de frente, não veja a moça entrar na minha casa ou pense que estou ficando maluco por estar abrindo a porta para uma moça de galochas, invisível, na minha cidade de verão, entrar. 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bricolagem



tudo o que ela queria
era um flash,
um instantâneo
nada, nada mais que isto,
ou talvez, quem sabe,
tudo isto.
epígrafes nas páginas ímpares,
escritas ao léu,
filmes
gibis
baralhos
tarôs
bricolagens

o caralho
ou imagens bruscas do Aleph de Borges
ou um bouquet de Simone de Beauvoir
no café da manhã
e o coração bumerangue
não estaria nem aí
para a histeria de Freud com pane
no seu imaginário
ou para as linhas tortas do império romano
sem as agruras de César
e, mesmo assim, com um Balzac caricato
o que ela faria do seu diploma
de anjos radioativos,

conspurcando o retrato da sociedade da época
se o levassem a um cruzeiro
em mar constelado
cheio de metáforas de incertezas?
o que seria da maquete
de frutas agônicas,  

adornando um salão de arte?

o desvario do seu idioleto é
a estupefação da sua poesia
Ah! e como ela oscila nos lapsos
da reinvenção da palavra. 


(José Carlos Sant Anna)




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Definição



o poema
é cabeça torta de menino
que ainda não aprendeu
a enfiar o botão na casa


(José Carlos Sant Anna)