domingo, 26 de novembro de 2017

Lúdico III







Parece que tudo conspira na plenitude da penumbra, mas ainda não há história. E haverá? As pretéritas não se apagaram. E não morrerão. Agora só um ardor na pele a perseguir um grande sonho, esquecendo as folhas murchas e os prédios antigos, que nos corrói a alma em segredo. De que são feitos os homens? O que você ainda não sabe, é que esperei por este momento durante muitos anos. Pode se aproximar mais um pouco, assim não preciso levantar a voz para lhe contar essa história. É bem curta. E, por favor, não me julgue. Pode recusar também as minhas mãos vazias, fique à vontade. Embora curta, se estiver maçante, pode pedir licença e retirar-se. “Aceita uma taça de vinho? Trouxe essa garrafa de uma bodega lá dos pampas”. Comprei-a ao deus dará, depois de dois aperitivos para o jantar. Agora, para ser exato e não perder o fio da meada, em nenhum momento tive a noção do peso e das medidas do tronco mais silencioso do apartamento dela porque foi tudo tão rápido. Eu tinha saído para comprar um par de meias. Imagine! Por algum motivo quis sair de casa para arejar os pensamentos, levado por um vento cheio de fantasia. Assim, fui pelo caminho pensando nas minhas vivências, mas quase sempre se intrometiam outras estórias, que demandavam um tempo maior de deambulação. E eu as deixava no incessante retorno. E quando caminho à toa, pareço um planador pairando no ar, traçando grandes círculos no azul do firmamento. É o que mais eu gosto de fazer nessas horas numa pulsação serena, aparentemente intangível, enquanto caminho pelas ruas. Aí me pego lembrando ou inventando estórias que ficam sempre inconclusas. Só pego o carro quando é impensável a caminhada. Ah! tenho um arraigado hábito de recomeçar onde interrompera os pensamentos sobre as minhas vivências. Ainda que pachorrentas, são águas que nunca se cansaram de mim porque sempre soube que tudo volta. É assim que escrevo diariamente a minha história, com palavras silenciosas apenas roídas pelo vento. Misturando o perto e o longínquo, enquanto as pernas se alongam sobre as pedras portuguesas que abundam também na minha cidade. Como os caquis em São Paulo. Abundam. Tudo que eu buscara era um par de meias, era o que lhe dizia. De repente, eu ouvi um leve marulho às minhas costas. “Por que não leva o par de meias? Elas combinam com a sua meia idade? Da última vez que o vi, você usava uma bengala, eu o conheço bem, sei que não tem idade para isso! Puro charme, não é mesmo?” “Você anda me seguindo?” “Me observando?” Então, só então, levanto os olhos para saber quem é a pessoa que fala comigo com tanta intimidade! Nina! Já não esperava encontrá-la. Faz tanto tempo. Marina alcovitou e lá fomos para o cinema juntos. Foi a última vez? Saímos da loja. E lá vou eu caminhando ao lado dela pela calçada, dizendo-lhe que a bengala ficou à margem de um lago, esquecida. Nunca precisei dela, era um arrimo fictício, um fingimento poético, metafórico. Aquele amigo sacou a história da bengala, disse-lhe, como se ela o conhecesse, como se fosse um amigo comum da idade da emoção, como foi a nossa alcoviteira na época. Atravesso agora uma passagem subterrânea, e as cortinas se abrem em par pela avenida novamente. E uma torrente passando. Quem não entendia nada àquela altura, era eu, com a voz da noite me dizendo baixinho: "esquece... esquece". Passei outra vez pelas carroças, e não encontrei Nina. A dança das quadrilhas, o forró, a canjica, o bolo de aipim. O licor. Minha avó cheirando minha boca, eu me afastando, rindo e ela me dizendo "você bebeu, não foi, sem-vergonha!". E Nina não vinha. Os paralelepípedos exorbitando pelo caminho de areia, e o par de meias, ah! o par de meias nas mãos. Puxando a gaveta da cabeceira da cama, ela pega uma barrinha de chocolate, gira o tronco na minha direção e, com os lábios sangrando cacau, oferece-me um pedaço do chocolate, me lambuzando. Eu esperei por este momento durante anos. 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 19 de novembro de 2017

Lúdico II



Escrevo a palavra "não" e, imediatamente, me lembro que, alisando os bancos escolares, aprendi que não se começa a escrever um texto com a partícula "não". E todos nós sabemos que uma vez aprendida a lição, ela estará sempre solícita, guardada no silêncio dos escaninhos da memória e, quando dela se precisa, abre-se a gaveta e de lá se extrai o que interessa... Daí por que não comecei esta crônica assim... "Não muito longe daqui...". Agora, para situar um pato fora da curva, eu posso fazê-lo! Não muito longe daqui – é uma mentirinha, sem asas para voar, o que acabo de lhes dizer, pois o pato está muito mais longe daqui do que você imagina, mas achei que com este arranjo se tornariam mais críveis as minhas palavras – um pato atravessou uma ponte estreita desceu a margem e se embrenhou, feliz, no lago nas redondezas da minha casa. Ali, absorto, eu via suas penas coloridas brilhando à luz do sol enquanto suas patinhas, submersas, se mexiam fazendo a água girar em círculos à sua volta. Vou para o alpendre da casa e fico na minha rede de nordestino convicto admirando alegria do pato e, ao mesmo tempo, com um olhar movediço, acompanho um bando de andorinhas levantando voo de uma árvore próxima, cruzando a lagoa, para depois de um rasante alegórico sobre a minha cabeça sumir no horizonte. E, pela mesma ponte, logo atrás, atravessava uma moça, atenta, aos passos, por enquanto, enigmáticos, do pato na manhã ensolarada naquele recanto das minhas manhãs ensolaradas. Não escolho as palavras, por isso tropeço, mas esses tropeços serão compreendidos mais adiante. Enigmáticos para a moça, é o que creio! Porque ela pensava assim, eu não sei...  porque, como se via,  o pato andava solto atrás do vento, serelepe, com as patas nas costas, para capturar a liberdade nas águas da lagoa... Era o que parecia quando cantava essa canção sem letra: "Quá... Quá... Quá... Quá!...". Agora se ouvia esse refrão em vários tons na água e o click da moça flagrando as nadadeiras do pato. Sem o saber, o pato deu o que falar depois deste passeio porque ele foi parar nas procelas da fama, depois que o portão se fechou. Mas, desde o primeiro instante, eu compreendi as razões para que o portão se fechasse. E não vou mentir que suspirei ao ver que, pouco tempo depois, o pato estava de volta sem guardar nenhuma distância para mim, dançando alegremente como fizera antes no lago ou para minha imaginação. Parece que o pato quer se libertar dos grilhões do tempo. É um ser em libertação nas águas do lago. Há um sol invisível dentro dele, que só eu vejo. E um cheiro de folhas verdes em volta do lago que me anestesia. De repente aquele lago ficou maior que os outros do mundo que eu conhecia e era ele que levava silenciosamente os devaneios da minha lavoura. Como seria bonito se eu pudesse ver aquele pato de óculos escuros, sob o sol inclemente, nadando sobre aquelas águas antes tranquilas. Passei a mão pela minha fronte nua e me perguntei se aquilo que escorria era um chuvisco, só podia ser, ou meus nervos estavam à flor da pele, e eu não sabia. Não consigo entender porque a história do pato me deixou tão inquieto, na outra margem do lago ao ponto de não saber onde deixei a minha venerável bengala, que me dava amparo, embora eu precise mais de vento e seiva. Para ser mais exato, agora somos dois desamparados: eu, porque perdi a minha bengala, e o pato, porque já não pode voltar ao lago. Como não tinha pensado nisso. Tudo se move. Porque a porta do lago não tem chave é que o pato vai e volta, entra e sai, para a alegria dos olhos sensíveis, que não perde a volta triunfal do pato no lago. Ele voltou. E, no fundo do lago, o pato parece uma criança chafurdando na água do seu banho. Ninguém se dá conta do que se passa, apenas vê o pato que, "na sua vidinha besta", de nadador de águas escuras ou transparentes, nada oculta, no meio da água, indiferente a qualquer nostalgia, enquanto os olhos da fotógrafa, fixos, bem no fundo, seguem o rumo das patas sob as águas, ditando o ritmo, a cadência dos círculos quebrando o silêncio dessa hora. Desconfio que agora esse pato estará sempre diante de mim como uma chama branda que a alma emana ou como uma voz interior que ecoa quando menos a gente espera. 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 11 de novembro de 2017

Lúdico



Por onde andei?
Perdi o pato,
perdeu a moça!

Perderam-se também as palavras,
e o poema ficou entalado
na garganta.

Aí veio a moça e disse:
“Não faz mal
esse pato passou, virá outro”

Talvez a moça tenha razão!

Um pato que passa é como o amor
depois que o primeiro passa,
virão outros. É só esperar...

"Mas cada perda
tem o seu significado na vida",
diz para os seus botões!

E assim ele sobrevive ao luto
e a espera que outro pato passe!

José Carlos Sant Anna

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bricolagem II



a esponja não apaga:
o filão de brancura
o fardo dos olhos,
a dor animal

sem a pomba de volta
a esponja não apaga:

a hora diluviana
o órfão maltrapilho
a mata de musgos
o peso do fogo

onde tudo é carência,
não se apagam os vários acontecimentos
perdidos nas minhas retinas
onde nada morre

signos amorfos, 
anti-mofo de um minuto atrás,
renegando este testemunho

nada escapa
agora
aos dedos vorazes,

e o lápis traz o imaginário
tecido por fios de raio laser,
cópia blasé de uma sintaxe enfurecida
que um gramático em férias
engendrou no cafè au printemps. 

Talvez nem isso,

mas,
quando o meu ego
em piração fenomenal
do vazio da noite
no bazar do meu inconsciente,
descobriu
um empedernido ator chinês
investindo ações em enredos
para uma escola de samba
dos arredores de paris
tudo mudou

ou o mundo desabava no solar do unhão
em pânico,

que é como eu me sentiria
ao escrever
as pequenas histórias dos heróis,
que não seriam senão clichês do bas-fond 
de enredos medíocres,
se a tpm de alzirinha, prá lá de esquisita,
não se embarafustasse
pelos meus sentidos nos happy hours,
quando não há outro lugar
aonde ir
depois de um carrilhão de nuvens.

à sombra da fina flor,
escuro desenho,
o meu desejo soletrava
as rasuras da voz de adriana calcanhoto
pelas avenidas e pelos tiranos becos
de feitio romântico da velha salvador. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O colecionador

                                                                      
                                        Para Ingrid Azevedo
A chuva veio com o amanhecer na minha cidade de verão. Chuva forte, aguaceiro pipocando no telhado da casa, o que me fez permanecer na cama por mais um tempo. Depois, como ela não veio mesmo para ficar, foi-se devagarinho amainando. Só ficou a garoa. Chuva miúda, como se diz por aqui, porque garoa é coisa de paulista. Ontem choveu também. Agora, porém, está um dia morno, o calor voltando com força de levantar defunto. Não sei por que lhe digo estas coisas, ah, eu já sei, é porque estou com um guarda-chuva para o dia de hoje, mesmo sabendo que não choverá, é o que li nas folhas, pela internet. É um guarda-chuva de uma moça elegante; ela mo emprestou no bairro dos Bairris, um bairro antigo no centro da cidade, e foi embora antes que eu voltasse para devolver-lhe aquela preciosidade, vinda de Paris, como, sem rodeios, o confessou, rindo. É, todavia, um guarda-chuva pequeno, mal cobria minha cabeça, por isso molhei as pernas, de cima abaixo. Ainda bem que eu estava de bermuda, depois foi só passar papel toalha, para enxugá-las. Não, eu sei, menina, que se chama de sombrinha, exatamente porque cobre pouco o corpo. Também não sei se lhe disse que fui para o Bairris na hora do jantar e carregava três sacolas. Em cada sacola eu carregava três pares de sapato. Quando ela me emprestou o guarda-chuva, pensei que, ao voltar, eu lhe daria um par de sapatos de presente, seria uma forma de agradecer-lhe o empréstimo daquele objeto que não estava me sendo muito útil por ser pequeno para o meu tamanho, que só protegia minha cabeça e os ombros, mas ela desapareceu. Fiquei pensando que ela poderia ter ido chamar um soldado ou procurar um carro da polícia, para denunciar-me pelo roubo do seu guarda-chuva. Herdei essa presunção de minha mãe de ficar pensando coisas, mas tinha certeza de que ela não faria isto comigo, minha conversa com ela foi tão amena, razoável, me fiz acreditar com a história de ter deixado um pacote no carro e precisava ir pegá-lo, e a chuva não me deixava fazê-lo. Você acha que eu seria capaz de desaparecer com o guarda-chuva da moça elegante? Sabia, agora estou falando com você da borda da minha cama, mas preocupado, ô molesta, com a moça que pode ter tomado muita chuva por minha causa, embora eu não tivesse desaparecido. Nunca faria isto. Foi ela que desapareceu, de repente. Levantei da borda da cama e estou caminhando pelo carpete com os pés descalços e pensando na moça. Seria tão bom se ela me telefonasse, não sei se ela aceitaria o meu pedido de desculpas, mas seria um bom pretexto. Como minhas ideias estão desarrumadas porque é a primeira vez que me acontece uma coisa destas, fui eu abrir a porta do armário achando que ela poderia estar escondida lá dentro, mas, ao abrir a porta do armário, tomei um susto porque as roupas despencaram em cima de mim, parecia um tsunami em pequenas proporções. Essa falta de vontade de resolver este problema, fez-me lembrar que não é primeira vez que carrego um guarda-chuva que não é meu. Acho que sou um cleptomaníaco de guarda-chuvas. Vou olhar a minha coleção, ah, que bela surpresa, há dezenas deles, na parte de cima do armário, que batizamos de maleiro, puxa, tudo tem um nome, a moça também tem um nome, mas não me lembrei de perguntar-lhe, de pedir-lhe o telefone. Olho um por um.  Este é um deles, de Campos do Jordão, sim, do Jordão, é assim que se chama. De lá tem mais de um, são dois ou três, não sei explicar o porquê de tantos. Do Jordão, homenagem a Emerenciano Jordão, o dono das terras antes que se tornasse a estação de águas que é hoje; este, da Casa da Música, na cidade do Porto, este de Munique, já sei está achando que é pura bazófia, não é?. Pois então você que ache... Esquece...  Agora é tarde, mas sinto falta da moça por alguma razão obscura. Espere um pouco, não, espere, não freie o meu sonho, agora, minha divagação. Vou à janela porque ouço um barulho nas telhas. É a chuva, está fininha ainda, mas ela está voltando com garra. Na primavera é assim, sempre chove. Talvez a chuva traga a moça de volta. Espero que o vizinho de porta, de frente, não veja a moça entrar na minha casa ou pense que estou ficando maluco por estar abrindo a porta para uma moça de galochas, invisível, na minha cidade de verão, entrar. 

(José Carlos Sant Anna)