quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O casaco de Natal




Meu Deus do céu! Será um sonho diurno ou noturno?
De repente, vejo como o ônibus estaca na beira da calçada. Olho para um lado, depois para o outro e descubro que somente eu desço naquela paragem. Decido entrar num quiosque de batatas fritas quando o telefone móvel toca. São oito horas da noite. Mal tenho tempo de fazer o meu pedido ao balconista porque já me enternecia com uma mãe puxando duas crianças por uma das mãos, enquanto a outra era estendida à caridade naquela hora da noite. Ajeitei a mochila nos ombros, abri o zíper, enfiei a mão lá dentro e puxei o telefone, acompanhando o olhar súplice da mãe que esperava que eu tirasse uma cédula da carteira para ajudá-la. Pelo visor identifiquei a chamada, enquanto o ônibus permanecia estacionado no mesmo lugar. 
— E aí, Tio, tudo bem? Está resistindo bem ao inverno que não cessa a essa altura do ano? — disse-lhe com um ar sério porque ele acreditava no sobrinho e piamente que ainda se encontrava do outro lado do Atlântico.
— Filho, ainda está bem frio, aqui! A neve não para de cair, e os alemães também não resistem às nossas baionetas...
Era o queridíssimo Tio Hermógenes, também conhecido pela alcunha de Tio Rapadura, membro nato da família, e mais respeitado ainda porque pertenceu à FEB, Força expedicionária Brasileira. Estava ligando para desejar-me Boas Festas, em meio ao calor que nos atormenta no final do ano, quando começa o verão oficialmente aqui nos trópicos. 
Hermógenes era o nome de batismo. Era um bom moço, sedutor. Elegante, no vestir e no falar. Logo as meninas descobriam que ali estava um homem e ficavam olhando para dentro dele, sem saberem o que lhe dizer. Uma de suas namoradas, a Teca, a eleita, por ele e pela família, disse que Rapadura faria muito sucesso lá fora. 
Diante do estranhamento dos familiares ao ouvir aquela expressão, Rapadura, inabitual para apelidar alguém, ela saiu com essa explicação bizarra, mas que fazia muito sentido:
— Já repararam que ele tem a cor da rapadura e se derrete com facilidade na boca de cada uma de nós! 
Rimos todos antes que o ônibus voltasse a andar. O certo é que o apelido pegou. Ninguém o chama de outro modo. Assim Tio Hermógenes conquistou esse carinhoso nome de guerra como se logra um lugar no ônibus para sentar. E roda a sua vida com este nome desde que foi recrutado para o front pelo Exército brasileiro. Para os que não o conhecem ainda, é um sobrevivente...  
Bem, não vou lhes dizer que não sabia que estávamos às vésperas do Natal, estaria mentindo se o fizesse, porque os reclames dos festejos natalinos nos consomem com tanta antecedência que não há a menor possibilidade de qualquer pessoa se mostrar indiferente a tais apelos, que circulam pelo mundo afora, anunciando o nascimento de Jesus, mas que eu ando meio desligado, ah, isso é verdade. Eu tinha acabado de perder o meu emprego e ninguém sabia na família, portanto, estou me resguardando das intempéries, que não são poucas no país em que vivemos hoje, de tão poucas oportunidades.
Mas isso eu não contei logo para o Tio Rapadura porque não sabia como ele reagiria à notícia. E dos seus sobrinhos, é bom que você saiba, sou o seu xodó. 
Com a voz roufenha, desejou-me “Boas Festas” e me perguntou o que eu andava fazendo, como se adivinhasse o que tinha acontecido. Tomei um susto e dei-lhe uma resposta evasiva. Ele percebeu e me disse que eu não precisava fingir com ele porque eu sabia o que ele tinha enfrentado em Monte Castelo, tinha lutado contra os alemães, bem mais difíceis de lidar, além do frio, do que qualquer adversidade que eu estivesse enfrentando.
         — Que ele estava me vendo através da vidraça nua da vida — filosofou.  
Disse-me ainda que, embora estivesse muito cansado, de modo razoavelmente decente suspeitava que eu estivesse mentindo para ele, seu tio. Disse-lhe então de modo eloquente que parasse de suspeitar da minha vida, que não havia razão para duvidar de mim. 
— Por que eu mentiria para o senhor, Tio?
Redarguiu dizendo-me que tinha alguma coisa errada comigo pelo tom da minha voz, porque ele estava me vendo muito fechado, ele percebia. Disse-lhe que estava era muito cansado, que não estava fingindo, que estava tudo bem, tinha acabado de descer do ônibus e estava parado num quiosque de batatas fritas, feliz da vida. Que me desse um tempo, para pegar minha porção de fritas e uma cerveja. Ele perguntou se eu iria para o jantar da família, no domingo. Disse-lhe que nunca tinha faltado e que se eu pudesse levaria um casaco de couro novinho em folha para ele. 
Deu um sorriso bonachão do outro lado, dizendo-me que não precisava se preocupar, porque ele sabia que eu não podia fazê-lo...
— Meu sobrinho, um passarinho me contou... — E interrompeu a frase no meio.
Olhando fixamente para a mãe puxando os dois filhos pela mão, eu, desta vez, não tive coragem de retrucar nada ao Tio. E sem deixar de me lembrar de Joracy Camargo, o dramaturgo da peça Deus lhe pague, aproveito e estendo-lhe uma cédula de dez reais. Para agradecer-me, aquela senhora quase beijou a minha mão.
Tio Rapadura sofreu muito na guerra e tinha uns surtos. Vivia metido num casaco de couro qualquer que fosse a estação do ano. E eu não preciso dizer-lhe que só temos uma estação, o verão. É o calor o ano inteiro e, nessa época do ano, não há quem suporte 35à sombra. 
Domingo natalino. Tio Rapadura já acorda com o megafone na mão esquerda, vestido no seu casaco de couro, e a baioneta. Chega à varanda e, depois de abri-la em par, leva o megafone à boca, quando o telefone toca. Somente ele está acordado àquela hora da manhã. Ele sabe que não pode voltar atrás, mas recua. Porque ele também sabe que de vez em quando são necessárias provas para o fato de não conseguir suportar o mundo que o rodeia. E depois de tanta festa parece ficar mais insuportável ainda, por isso Tio Rapadura acordou mal-humorado na manhã do domingo, parecia ainda no front em Monte Castelo. O que será desta vez? Inquieto, rodava pela casa com o megafone na mão quando, surpreso com a estridência do ruído do aparelho telefônico e, contrafeito, correu, esquivando-se entre os móveis, para atendê-lo. Mas foi amistoso, até mesmo cordial, ao saber que a voz do outro lado era a minha. Como assim? oh, Deus! O que há com ela? Por que não ligou mais cedo? Por que essa história? O que você está fazendo? Tantas perguntas ecoavam do lado de cá que logo percebi que ele encetava propositalmente uma conversa sem pé nem cabeça, indiferente ao que eu lhe tinha a dizer. Murmurei alguma coisa, depois fiquei em silêncio para confundi-lo. E só depois de alguns minutos é que consegui expor a motivo da minha ligação, embora, num curso da conversa, a meia voz, porque todos ainda dormiam, eu percebesse que ele fingia que esperava a minha ligação há algum tempo, como se soubesse que eu tinha aquele compromisso, como se soubesse do que se tratava para que eu ligasse tão cedo. Chegou mesmo a me dizer que gostaria de pular o domingo e, como não pudesse fazê-lo, talvez o fizesse se Teca estivesse por perto. Se eu não iria buscá-la... 
Em seguida, com o corpo curvado, caminha em direção à sua cadeira que está onde sempre esteve. Ninguém se atreve a ocupá-la ainda que ele não esteja em casa. Sentado, tranquilo, entre duas mulheres, que ofuscam o seu olhar, ele diz com uma sabedoria ancestral que a vida das pessoas são como as histórias que acontecem na tela grande do cinema, o diretor se encarrega de consumá-las de tal modo que já vem tudo decidido de antemão, e é o expectador quem decide se leva ou não leva aquela história para casa. É dele a escolha. E deixou que os seus olhos viajassem pela estrada de ferro da memória até que o meio-dia se aproximasse, perdendo-se em miudezas antes de sentar-se para o almoço dominical.
Em casa, ligo a televisão e me deito no chão para ver o tempo passar, eu não tive coragem de contar-lhe que tinha perdido o meu emprego. Na tela, vejo o ônibus atravessando uma velha ponte que liga um bairro ao outro e, lá dentro, uma Vênus dança para dois passageiros solitários. 

(José Carlos Sant Anna)




quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fantasia para um violão distante





TALVEZ A NOITE NÃO SE APAGUE, mas os olhos das estrelas hão de se apagar para a intimidade que se anuncia na boca cúmplice de maçã que ela traz e na luz lancinante que emerge do seu corpo. É assim que começa o outono, à beira deste amor nascente. E ela chega com um cheiro indescritível do seu reino sem fronteiras ou de um ameno verão. Inesperadamente. Cálida flor. 

Uno mas extasiado porque sabe que está perto do juízo final nas teias da fantasia da carne e no cume dos seus dentes, Tão Preto, cuja espera se contrai na intensidade dos afetos e de murmúrios afáveis, e também com o coração inundado e saindo pela boca, imagina ejaculações líricas no suor que escorre do seu corpo e na sua vontade de amá-la, juntando suas águas às dela. E antes que o mundo às margens percebesse aquele perfume, que se espraiava como uma eterna fulguração, entre o dia e a noite, dança e vida dos seus corpos, Tão Preto sente, sorrateira, a música dos músculos. Ascensão perfeita, pensa. Mas tudo parecia indizível. Mas se toda história tem um fim, o melhor é começar do começo antes de fazer a cama parecer pequena para membros, ventre, ancas e seios da rapariga, despertando a curiosidade do leitor. Embora não queira baixar as armas, ele procura acalmar-se para recebê-la porque sabe que é somente no amor que não se faz cavaleiro sem espada. É a musa da sua escrita que diz que vem. Mas não será um encontro poético como se não houvesse fumaça do fogo que se alastrava navegando palmo a palmo entre buganvílias. Tão Preto ouve seus passos no seu quarto. Vira-se na sua direção e diz-lhe "chegou mais cedo que eu esperava". Fecha os olhos e a vê com os cabelos molhados como na foto antiga, na imóvel espessura do seu biquíni. O seu hálito invade o ambiente. Percebe os seus olhos famintos. Que música é esta que se desprende do seu corpo? Também gosta do jeito que ela fecha as cortinas de cetim. Sem nenhuma palavra. E da fúria contida de desejo no seu rosto. O seu cheiro contrasta com o ar morno do dia. Gosta do verso do seu andar no salto do sapato meneando as ancas, da caligrafia apressada dos seus gestos, do animal que tem fome e que se revela pouco a pouco. O quarto está inundado com a sua presença. E do equilíbrio musical da respiração no seu pescoço. Dos suores mais densos. Gosta da estampa do seu vestido, da sua transparência, dos joelhos à mostra, dos pulsos avermelhados. O seu olhar queima a sua pele. Ela sabe, por isso não tem pressa. As molas da cama estalam ruidosamente quando ele se vira. O vento parece brincar por uma fresta da janela aberta, trazendo uma mistura de frio e êxtase. Sente o corpo frágil, e um arrepio. Ela se aproxima abrindo os botões da blusa... Espera um puxão para que os corpos se toquem... A ponto de explodir, coração acelerado, garganta seca, o calor de um corpo ao outro, a língua atrevida avança, deixa que a febre o consuma e se bebem mutuamente... no esplendor da luz dos seus corpos e da entrega, ela diz: "Promessa cumprida, sou tua". 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 26 de novembro de 2017

Lúdico III







Parece que tudo conspira na plenitude da penumbra, mas ainda não há história. E haverá? As pretéritas não se apagaram. E não morrerão. Agora só um ardor na pele a perseguir um grande sonho, esquecendo as folhas murchas e os prédios antigos, que nos corrói a alma em segredo. De que são feitos os homens? O que você ainda não sabe, é que esperei por este momento durante muitos anos. Pode se aproximar mais um pouco, assim não preciso levantar a voz para lhe contar essa história. É bem curta. E, por favor, não me julgue. Pode recusar também as minhas mãos vazias, fique à vontade. Embora curta, se estiver maçante, pode pedir licença e retirar-se. “Aceita uma taça de vinho? Trouxe essa garrafa de uma bodega lá dos pampas”. Comprei-a ao deus dará, depois de dois aperitivos para o jantar. Agora, para ser exato e não perder o fio da meada, em nenhum momento tive a noção do peso e das medidas do tronco mais silencioso do apartamento dela porque foi tudo tão rápido. Eu tinha saído para comprar um par de meias. Imagine! Por algum motivo quis sair de casa para arejar os pensamentos, levado por um vento cheio de fantasia. Assim, fui pelo caminho pensando nas minhas vivências, mas quase sempre se intrometiam outras estórias, que demandavam um tempo maior de deambulação. E eu as deixava no incessante retorno. E quando caminho à toa, pareço um planador pairando no ar, traçando grandes círculos no azul do firmamento. É o que mais eu gosto de fazer nessas horas numa pulsação serena, aparentemente intangível, enquanto caminho pelas ruas. Aí me pego lembrando ou inventando estórias que ficam sempre inconclusas. Só pego o carro quando é impensável a caminhada. Ah! tenho um arraigado hábito de recomeçar onde interrompera os pensamentos sobre as minhas vivências. Ainda que pachorrentas, são águas que nunca se cansaram de mim porque sempre soube que tudo volta. É assim que escrevo diariamente a minha história, com palavras silenciosas apenas roídas pelo vento. Misturando o perto e o longínquo, enquanto as pernas se alongam sobre as pedras portuguesas que abundam também na minha cidade. Como os caquis em São Paulo. Abundam. Tudo que eu buscara era um par de meias, era o que lhe dizia. De repente, eu ouvi um leve marulho às minhas costas. “Por que não leva o par de meias? Elas combinam com a sua meia idade? Da última vez que o vi, você usava uma bengala, eu o conheço bem, sei que não tem idade para isso! Puro charme, não é mesmo?” “Você anda me seguindo?” “Me observando?” Então, só então, levanto os olhos para saber quem é a pessoa que fala comigo com tanta intimidade! Nina! Já não esperava encontrá-la. Faz tanto tempo. Marina alcovitou e lá fomos para o cinema juntos. Foi a última vez? Saímos da loja. E lá vou eu caminhando ao lado dela pela calçada, dizendo-lhe que a bengala ficou à margem de um lago, esquecida. Nunca precisei dela, era um arrimo fictício, um fingimento poético, metafórico. Aquele amigo sacou a história da bengala, disse-lhe, como se ela o conhecesse, como se fosse um amigo comum da idade da emoção, como foi a nossa alcoviteira na época. Atravesso agora uma passagem subterrânea, e as cortinas se abrem em par pela avenida novamente. E uma torrente passando. Quem não entendia nada àquela altura, era eu, com a voz da noite me dizendo baixinho: "esquece... esquece". Passei outra vez pelas carroças, e não encontrei Nina. A dança das quadrilhas, o forró, a canjica, o bolo de aipim. O licor. Minha avó cheirando minha boca, eu me afastando, rindo e ela me dizendo "você bebeu, não foi, sem-vergonha!". E Nina não vinha. Os paralelepípedos exorbitando pelo caminho de areia, e o par de meias, ah! o par de meias nas mãos. Puxando a gaveta da cabeceira da cama, ela pega uma barrinha de chocolate, gira o tronco na minha direção e, com os lábios sangrando cacau, oferece-me um pedaço do chocolate, me lambuzando. Eu esperei por este momento durante anos. 

(José Carlos Sant Anna)


domingo, 19 de novembro de 2017

Lúdico II



Escrevo a palavra "não" e, imediatamente, me lembro que, alisando os bancos escolares, aprendi que não se começa a escrever um texto com a partícula "não". E todos nós sabemos que uma vez aprendida a lição, ela estará sempre solícita, guardada no silêncio dos escaninhos da memória e, quando dela se precisa, abre-se a gaveta e de lá se extrai o que interessa... Daí por que não comecei esta crônica assim... "Não muito longe daqui...". Agora, para situar um pato fora da curva, eu posso fazê-lo! Não muito longe daqui – é uma mentirinha, sem asas para voar, o que acabo de lhes dizer, pois o pato está muito mais longe daqui do que você imagina, mas achei que com este arranjo se tornariam mais críveis as minhas palavras – um pato atravessou uma ponte estreita desceu a margem e se embrenhou, feliz, no lago nas redondezas da minha casa. Ali, absorto, eu via suas penas coloridas brilhando à luz do sol enquanto suas patinhas, submersas, se mexiam fazendo a água girar em círculos à sua volta. Vou para o alpendre da casa e fico na minha rede de nordestino convicto admirando alegria do pato e, ao mesmo tempo, com um olhar movediço, acompanho um bando de andorinhas levantando voo de uma árvore próxima, cruzando a lagoa, para depois de um rasante alegórico sobre a minha cabeça sumir no horizonte. E, pela mesma ponte, logo atrás, atravessava uma moça, atenta, aos passos, por enquanto, enigmáticos, do pato na manhã ensolarada naquele recanto das minhas manhãs ensolaradas. Não escolho as palavras, por isso tropeço, mas esses tropeços serão compreendidos mais adiante. Enigmáticos para a moça, é o que creio! Porque ela pensava assim, eu não sei...  porque, como se via,  o pato andava solto atrás do vento, serelepe, com as patas nas costas, para capturar a liberdade nas águas da lagoa... Era o que parecia quando cantava essa canção sem letra: "Quá... Quá... Quá... Quá!...". Agora se ouvia esse refrão em vários tons na água e o click da moça flagrando as nadadeiras do pato. Sem o saber, o pato deu o que falar depois deste passeio porque ele foi parar nas procelas da fama, depois que o portão se fechou. Mas, desde o primeiro instante, eu compreendi as razões para que o portão se fechasse. E não vou mentir que suspirei ao ver que, pouco tempo depois, o pato estava de volta sem guardar nenhuma distância para mim, dançando alegremente como fizera antes no lago ou para minha imaginação. Parece que o pato quer se libertar dos grilhões do tempo. É um ser em libertação nas águas do lago. Há um sol invisível dentro dele, que só eu vejo. E um cheiro de folhas verdes em volta do lago que me anestesia. De repente aquele lago ficou maior que os outros do mundo que eu conhecia e era ele que levava silenciosamente os devaneios da minha lavoura. Como seria bonito se eu pudesse ver aquele pato de óculos escuros, sob o sol inclemente, nadando sobre aquelas águas antes tranquilas. Passei a mão pela minha fronte nua e me perguntei se aquilo que escorria era um chuvisco, só podia ser, ou meus nervos estavam à flor da pele, e eu não sabia. Não consigo entender porque a história do pato me deixou tão inquieto, na outra margem do lago ao ponto de não saber onde deixei a minha venerável bengala, que me dava amparo, embora eu precise mais de vento e seiva. Para ser mais exato, agora somos dois desamparados: eu, porque perdi a minha bengala, e o pato, porque já não pode voltar ao lago. Como não tinha pensado nisso. Tudo se move. Porque a porta do lago não tem chave é que o pato vai e volta, entra e sai, para a alegria dos olhos sensíveis, que não perde a volta triunfal do pato no lago. Ele voltou. E, no fundo do lago, o pato parece uma criança chafurdando na água do seu banho. Ninguém se dá conta do que se passa, apenas vê o pato que, "na sua vidinha besta", de nadador de águas escuras ou transparentes, nada oculta, no meio da água, indiferente a qualquer nostalgia, enquanto os olhos da fotógrafa, fixos, bem no fundo, seguem o rumo das patas sob as águas, ditando o ritmo, a cadência dos círculos quebrando o silêncio dessa hora. Desconfio que agora esse pato estará sempre diante de mim como uma chama branda que a alma emana ou como uma voz interior que ecoa quando menos a gente espera. 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 11 de novembro de 2017

Lúdico



Por onde andei?
Perdi o pato,
perdeu a moça!

Perderam-se também as palavras,
e o poema ficou entalado
na garganta.

Aí veio a moça e disse:
“Não faz mal
esse pato passou, virá outro”

Talvez a moça tenha razão!

Um pato que passa é como o amor
depois que o primeiro passa,
virão outros. É só esperar...

"Mas cada perda
tem o seu significado na vida",
diz para os seus botões!

E assim ele sobrevive ao luto
e a espera que outro pato passe!

José Carlos Sant Anna