terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Passaporte


Vestiu-se de anti-insônia dentro dos cílios e quis com ímpeto atravessar o oceano para fazer companhia à moça durante o tríduo momesco. Ao sabê-lo, estranhamente, ela gargalhou tão alto que o fez acordar do outro lado do continente, desiludindo-o.

"Colombina eu te amei
Mas você não quis
Eu fui para você
Um pierrot feliz".

E assim vestido nesta fantasia, ele saiu pela sua sala de visitas cantarolando a antiga marchinha, enquanto os pés ensaiavam os primeiros passos do Carnaval solo que acontecia ali mesmo com o coração em pedaços.

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Estudo para flauta e violão III


é preciso dizer: uma coisa clara crescia em silêncio. nada lembrava no tabuleiro de xadrez à mesa alguém que se repetisse. nos passos apressados, no rosto pensativo, nos gestos, nas palavras, nos olhos altivos, no leve amanhã, ao chamá-lo peregrino como se ainda não soubesse o seu nome ou não conhecesse o leve rumor das avencas com o vento ou fosse incapaz de cuidados pequeninos, se, em algum momento, o peregrino tivesse algum anseio. Até mesmo ao oferecer-lhe beijos pelos caminhos, bem longe de qualquer tempo, roçando-lhe a pele num apelo de braços e corpos suados, mesmo depois de ter ouvido que seria perigoso aproximar-se de um peregrino, ela teve algum medo. Agora que ele está em suas mãos, ela hesita! E pergunta, "com que olhos me fitastes"? 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Estudo para flauta e violão II


nas palavras, as raízes. nelas convergem os ventos da esperança em labaredas que, depois de tudo e, nos vestígios das ausências, se esvaem numa lágrima bruta do peregrino em escrutínio secreto, quando ele abandona os roteiros cansados, as miragens, as perguntas ainda obscuras em céu aberto. não há urgência de tempo entre os bichinhos da mata em frutas e entre o gesto e a sombra. e adensa o tempo de espera na exígua morada dos dias, mas o peregrino, entre as pedras do caminho e o rio, agradece o coaxar dos sapos mostrando, sem esquecer as palavras, que o verbo se mantém vivo no horizonte curvo ou na chama das cores de um arco-íris. essa guerra já dura anos na memória de sangue do transeunte de inumeráveis caminhos, nas ressonâncias de um gesto, nos zumbidos das abelhas nas tardes quentes, na dor outra vez apunhalada na réstia de sol. 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Estudo para flauta e violão


as palavras antigas, além do perfume em hebraico, em luz velada, cantam as horas no casarão vazio; uma ratazana emparedada viaja nos olhos adocicados do peregrino a fabricar a vida em seus calejados pés de um Jeca. e deitado sob a sombra e um verde, parecia num mundo de estampas atirado no sorvedouro da torrente, a se esbater, reagir e afundar; e o perfil de outros animais, tão próximos, hóspedes de longa permanência do coro de outras catedrais, também faziam ruído; e junto aos teus muros e ao teu corpo, um tufão apagou o soluçar de um saxofone límpido. louvações e nuvens de incenso enchiam os aposentos. e seguiam cantando os guizos pela estrada, enquanto o peregrino, quase nulo, à luz de um sol maquiavélico, respira e se enriquece de seiva e mais doçura antes que o rio se integre ao mar. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Recesso



Já se aquieta a primavera
Nas últimas pegadas da sua luz

Vertiginoso, cheiro fresco,
o verão se apressa...

***************
Ainda não sei como lavrar os dias futuros,
mas estou içando as velas para aproveitar 
o verão que está chegando....

Aproveito para dizer aos meus queridos amigos
que estarei de volta depois do Carnaval.

Fraternal abraço para todos, 

José Carlos Sant Anna