quarta-feira, 21 de julho de 2021

Da arte de brincar



Por vezes, brincar é um jogo de sedução tão obsceno

que um simples guarda-chuva não cobre as peças 

como seria desejável que o fizesse. E, por vezes,

os vestígios do jogo ultrapassam as fronteiras

do inimaginável. Por vezes, me dizes que achas

uma bobagem esse jogo em que a poesia é

um corpo maleável de palavras cheio de nós; 

e me dizes, dispersa, que a chuva não para

e o sol não entra pela janela; digo-lhe que se chove,

o sol não pode entrar pela janela porque o céu

está coberto de nuvens carregadas que impedem

a passagem do sol; tu ris, e me dizes 

que o chocolate quente está cheio de charme

te devorando na xícara, e que não é exagero

dizer-me que o meu lirismo tem o gosto do chocolate

que a devora; e, sequiosa, dizes depois de sorver

o chocolate quente, com a respiração difícil,

que a cama também está ansiosa para devorar-te

e a mim. Pergunto-lhe se ainda é um jogo

o que me dizes no calor da hora uma vez que 

não seria para sempre tanta ebulição nas entranhas 

como dissera a ti mesma antes que o carnaval,

atípico para um inverno, se prolongasse.

E, então,  o teu caderno azul se fechou 

depois de registrar outra súbita revelação.

 

                                            (José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Exercícios breves para alongar

 



I
por detrás

da meia lua do seu rosto

uma menina perspicaz,

que sabe o que diz,

e sabe o que faz.

II

Quando as cotovias festivas
cantam ao entardecer
as arcadas 
são mais claras em sua beleza
no encanto da paisagem 

e no pulsar do anoitecer.

III

Um tesouro,

é o que tens para hoje?

 

É tempo, de resguardá-lo 
de olhos sequiosos

em destras acrobacias

a querer alcançá-lo despudoradamente

por caminhos tortuosos. 


                         (José Carlos Sant Anna)


quinta-feira, 8 de julho de 2021

A mancha

 


Em meio a um tormentoso frio e em engasgada ânsia, ela me diz "és de mim que nasces", imberbe, vens mais perto, vens, e beija-me, e beija-me, e suplica-me no teu silêncio e no sorriso que leva brilho aos teus olhos. E toca-me, e beija-me, e toma a minha caneta em suas mãos, massageando-a delicadamente à beira de extravasar o precioso líquido enquanto a minha língua se expande pelo teu corpo, onde me perco, onde me acho, desenhando sílabas que se enroscam vorazes, impelindo-me para dentro da tua mancha branca quando sangram às margens do teu cântaro outras sílabas e palavras e suspiros. E transpiro. E saboreio o canto, o ritmo, a musicalidade no teu corpo, do teu corpo, pelo meu corpo. Trêfegas, volto a desenhá-las na página em fogo mais brando e antevejo o longo fio costurando a face ainda oculta do poema que revela seus dentes ao se fazer e se refazer em minha medula e no desejo que me impele à salivação no vagar e nos afagos.


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 29 de junho de 2021

Tantas linhas para dizer só isto

 


Ficaram meus olhos enfumaçados quando o dono da casa abriu a porta do apartamento e Chico Buarque de Holanda, de carne e osso, sorridente, depois de “ter atravessado a rua no seu passo tímido”, entrou e cumprimentou os que estavam na sala de visitas.

Eram cinco professores da área de arquitetura. Fariam uma homenagem ao cantor, compositor e escritor que, à luz da lógica, eu não saberia dizer-lhe as razões de tal honraria. Eu estava lá também entre os convivas. Embora eu não fosse da área de arquitetura, com os olhos semicerrados, guardava algo raramente provado de tão original e catatônico que eu não saberia dar-lhe um nome.

Até então eu era uma criatura invisível no olho da noite no meio da sala de jantar dos discretos senhores. Intruso. Anônimo. Substantivo que traduz bem a minha presença no fundo da sala. O que eu fazia? Embrulhava um livro, aleatoriamente, com dedicatória, escrita do meu próprio punho, dedicatória que tinha brotado da toalha da mesa como uma receita de pudim sem ovos. 

"Eu já sabia", como diria um fanático torcedor depois do apito final do árbitro da partida de futebol e a consequente vitória do clube do seu coração. Era como estava consignada a dedicatória para o artista da palavra e da música.

 E pasmem! Aquela homenagem era a propósito de um livro sobre arquitetura que ele nunca cogitou porque a arquitetura não passou de uma esquina aberta em sua vida para a qual ele não voltou, sequer para um chope gelado, bebido em pé, mesmo que fosse só para refrescar a memória.

Como visto e à luz da lógica, das borras desse café sairão apenas algumas sombras inexplicáveis, como se a vida fosse um barato de comida caseira. Foi tudo muito rápido, como um sopro, como um sonho, sem divã para esmiuçá-lo. Talvez por isso Chico não se tenha demorado na face oculta desta sala.

Não sei se ficaram cigarros pela metade na sala, se beberam cerveja, se houve a magia de abraços entre os presentes. Eu só sei que Chico, depois de despedir-se dos presentes, saiu “pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair” e, quase no mesmo rastro, estava de volta à sala. A porta do apartamento não chegou a se fechar. Aí, ele entrou e foi direto ao meu encontro.

Com um gesto solene me abraçou e depois de algumas palavras ao sabor do vento, o que não é comum em Chico, sempre muito gentil, foi saindo em definitivo.

Uau! Vejam, o cara voltou só para falar comigo. Imaginem! Quanta honra! Com um aceno largo, eu o chamei para dar-lhe o livro de presente, o que eu acabara de embrulhar com um papel amarfanhado e uma tinta qualquer usada para escrever a dedicatória, no livro, o que ele nunca escrevera ou imaginara. Na página de abertura da obra, uma  incompreensível dedicatória, e agora cabe ao leitor, à luz da arte de fingir, explicar essa utopia na noite.

José Carlos Sant Anna.


terça-feira, 22 de junho de 2021

Ela voltou

 

– Alguma notícia de Maricotinha?

O garçom olhou Tão Preto sem entender o que ele queria saber e deu quatro ou cinco passos adiante até uma mesa de canto do Meia Légua. Vazio, o bar estava sem aquela energia visceral e os garçons bocejavam pelo meio do salão.

Tão Preto, que o seguia rindo, se sentou e pediu um chope bem gelado, como se não tivesse lhe perguntado nadica de nada.

– O senhor perguntou o que doutor?

Tão Preto o olhou sério e disse:

– Eu lhe pedi um chope bem gelado, cheio de ânsia e vontade.

– Já comandei o pedido. Quer mais alguma coisa, doutor? – Perguntou-lhe gentil. 

– Não, obrigado. Um dedo de colarinho no chope, por favor!

– Mas o senhor queria saber alguma coisa quando entrou? Ou me enganei?

Tão Preto deu de ombros à insinuação do garçom, mas ele insistiu:

– Me perguntou se eu tinha notícias da senhora Maricotinha, não foi?

– E o senhor conhece D. Maricota das Neves Rocha? – Perguntou-lhe com um ar sério, como se dissesse quem lhe deu tanta intimidade.

Confuso, o garçom respondeu:

– Não, não conheço essa senhora! Foi o senhor que falou esse nome quando entrou.

– Fala sério, cara! Perguntei-lhe o quê?

O garçom se atrapalhou nas palavras para responder-lhe. E por não saber o que dizer, se afastou para pegar o chope no balcão, pensando “porra, lidamos com tantas esquisitices na vida. Aqui, no Meia Légua, não é diferente. Às vezes, elas parecem maiores. É o nome do bar. Pudera! Meia Légua”. E não se grilou com aquilo. “Toca a boiada, vaqueiro! O doutor tem cara de boa gente”, disse cheio de garra! Seus colegas no balcão da choperia o olharam desconfiados! Ele riu. E falou ainda alto para que eles o ouvissem: 

– A noite promete!

 

 

Maricotinha vai ficar furiosa ao saber que Tão Preto não segurou a língua e saiu pelo mundo afora e redes sociais – como viver sem elas hoje? – como se fosse o pôster do amigo Che Guevara, perguntando se alguém a tinha visto por aí, se alguém tinha notícias do paradeiro da sua companheira, como ele fazia agora com o garçom. Ou da sua fiel escudeira, como ele preferia chamá-la.

O garçom voltou com a tulipa de chope.

Tão Preto estava com a língua coçando e estava conta não conta a sua história, ali, no Meia Légua, que guardava outras histórias nas paredes e mobiliário da casa.  

– Senta aí que vou lhe contar uma história.

O garçom reagiu.

– Não posso sentar não doutor. Meu trabalho é em pé e não posso ficar de conversinha mole com cliente não, senão eu danço. As crianças estão em casa me esperando com o leite – respondeu meio na bronca o garçom.

Tão Preto riu da resposta torta e embicou a tulipa, deixando-a pela metade.

– Humm! O senhor estava seco? – disse conciliador o garçom.

– É a falta de Maricotinha – disse-lhe com um ar bem-humorado, observando sua reação ao ouvir pela segunda vez o nome de Maricotinha.

O garçom não se afastou. Ficou esperando o que estava por vir porque garçom é igual a barbeiro, gosta duma resenha.  

– Como é mesmo o seu nome?

– Daniel. Pode me chamar pelo meu nome, doutor.

– Pois, Daniel, quando menos se espera, furtivo, um mote arranha a porta – e Maricotinha some no mundo com o gostinho de torta na boca e os dentes brancos em excesso à mostra a quantos queiram admirar o seu riso sedutor e a desafiar a natureza dos galanteadores de plantão e a sua resistência, (no caso a dela, que fique claro). Certa vez, numa dessas fugas, brejeira, ela me disse: “Eu gosto mesmo é da solidão a sós e não a dois. Pode relaxar, meu bem! Sua testa estará sempre despojada de galhos. Eu sei que ela não é floresta”. E riu gostosamente.

Daniel foi pegar outro chope. Trouxe a tulipa na bandeja, colocou-a na mesa e se encostou na parede, curioso.  

– Maricotinha, nunca passou mais de uma semana longe da nossa alcova, ela é meu ioiô, vai e volta. Mas desta vez, ela já tem quinze dias ausente das correntezas do nosso rio.

– Quinze dias? Não errou nas contas, doutor? 

Tão Preto não deu bola para a observação do garçom e continuou:

 – Quando ela sumiu era uma manhã mais clara que qualquer outra manhã da minha vida. Depois de passarmos a noite em festa, rio abaixo, rio acima, como gostamos de fazer quando estamos juntos, em posição fetal, ela me pediu para aconchegar-me ao seu corpo para ela dormir mais depressa. Ao acordar, ela me encontrou de pé preparando o café da manhã. Ela chegou de tênis e malha para o jogging. Ela não falava que ia correr na orla. Ela caprichava na pronúncia. E dizia: “Se moderniza, cara! Diga jogging, é mais chique”, e ria do seu humor em alta como se estivesse aplicando na Bolsa de Valores.

No meio da segunda tulipa de chope, o telefone trincou. Tão Preto olhou o bicho e lá estava a mensagem: “Tá aonde, meu bem? Já tenho habeas corpus.  Meu amor é igual ao amor de malandro, ele vai e volta. Estou aquecendo a água do rio à tua espera, beijo!”

Revirado ao avesso com o combustível dialético da mulher, pelo sabor original que ela tem, efêmero e transgressor, Tão Preto já sentia o beijo de Maricotinha pelo seu corpo inteiro e disse para o seu duplo: "Dane-se o garçom! O resto da história, ele poderá ouvi-la qualquer outro dia. Mesmo porque agora o final poderá ser outro", e correu para os braços de Maricotinha.


(José Carlos Sant Anna)