sexta-feira, 27 de maio de 2022

Para David Coimbra

 

Outro dia, postei um trecho de uma crônica do jornalista David Coimbra. E três leitoras disseram de viva voz que gostariam de ler uma crônica completa dele. E eu atendi a vontade das três. Hoje ele nos deixou e faço-lhe uma pequena homenagem. 


O jornalista David Coimbra, que batalhava contra um câncer no rim desde 2013, faleceu aos 60 anos em Porto Alegre, nesta sexta-feira (27). O colunista deixa esposa e um filho de 14 anos.

David já havia viajado para Boston, nos Estados Unidos, na tentativa de tratar o câncer com um procedimento experimental. Logo após o diagnóstico, o jornalista começou a escrever um livro sobre suas vivências, dores e experiências com o câncer.

“Hoje eu venci o câncer” foi lançado em 2018 e conta desde a descoberta até os tratamentos que David realizou.

Durante sua carreira, Coimbra trabalhou em jornais como Correio do Povo, Diário Catarinense, Jornal da Manhã, Jornal NH e Jornal de Santa Catarina. Além disso, já fez trabalhos nas rádios Eldorado e Guaíba e da RCE TV. Em sua trajetória, ficou famoso pelas suas crônicas esportivas e escrevia, atualmente, para o jornal Zero Hora, GZH e participava dos programas Timeline e Sala de Redação, na Rádio Gaúcha.

Além de jornalista, David escreveu livros de crônicas, romances e ensaios históricos.

Confira alguns trechos de suas crônicas

"Eu quis morrer. Não se trata de figura de linguagem, estou falando sério: queria não existir mais. Refiro-me a esse tempo em que passei sofrendo (...). Foi exatamente essa reunião da fraqueza com as dores e com o mal-estar, todos agindo de forma permanente, que me tirou a vontade de viver (...).

Não vou aborrecer o leitor detalhando todos os males por que passei. Conto apenas que houve um momento em que fechei a porta do quarto, me encolhi na cama e de lá não saí por dois dias e duas noites. Não comia, não tomava banho, não olhava o celular, não fazia nada além de dormir em posição fetal. No final da tarde do terceiro dia é que me levantei e tentei comer algo.

Mas agora estou melhor. Cheio de traumas de guerra, todo lanhado e escalavrado, com algumas dores ainda, mas melhor. (...) Estou de pé, enfim. Meio esfarrapado, mas de pé. Vamos em frente de cabeça erguida. Com um leve tremor ao pensar no futuro. Mas o futuro não é coisa para se pensar. O que existe é o presente e, se o presente pode ser sorvido integralmente, a vida passa a ser boa. E ela é. A vida é boa."

(Quando Quis Morrer, publicada em 16/5)

"Quando você está encerrado em casa por causa de uma doença, os piores dias são os mais bonitos. Aquela tarde de sol gloriosa, os passarinhos cantando a alegria de estar vivo, o céu azul convidando a sentir as amenidades do clima, e eu não posso.  

Imagino que todos os meus amigos agora estejam celebrando. Estão rindo, fazendo brindes, atirando-se nas ondas do mar. E eu aqui. Eles me esqueceram. Maldita solidão. Maldita doença, que me torna incapaz de sorver o bom da vida.

Mas aí, no dia seguinte, o céu enfeia, tudo fica escuro e até chove um pouco. Os amigos ligam e suspiram:

— Que vontade de estar em casa, comendo bolinho de chuva.

E eu me sinto bem, porque é o que estou fazendo. Quer dizer: quase é o que estou fazendo. Estou em casa, mas não tem bolinho de chuva porque minha vó e minha mãe não apareceram para cozinhar. 

O bolinho de chuva é um dos diamantes da minha infância. Esfriava um pouco e lá ia a minha avó fazer bolinho de chuva. Mas essa é uma graça que só cabe a quem tem menos de 14 anos de idade. Porque o bolinho de chuva serve para divertir, não para alimentar."

(Comida de gente séria, publicada em 17/5)

"Então, fiz 60 anos. Sessentão. Idoso. Mas, na minha cabeça, tenho outra idade. O corpo anda alquebrado de tanta luta, e na cabeça tenho entre 35 e 45 anos. O espelho confirma isso. Olho-me no espelho e vejo um cara bonitão, grisalho, experiente, com personalidade.

Quando me vejo em filmes ou fotos, estremeço. De onde vieram tantos cabelos brancos? E essas rugas? Credo.

Se você for escrever a biografia de alguém, qual é a foto que será publicada na capa do livro? Essa é a foto que representa a vida da pessoa, era ali que ela devia ter ficado para sempre. Por exemplo: Pelé é o da Copa de 70, Churchill, Roosevelt e Hitler são os da II Guerra, Marilyn é a do filme O Pecado Mora ao Lado. (...)

Os cientistas calculam que, até hoje, mais de cem bilhões de pessoas viveram debaixo do sol. Hoje, onde elas estão? E eu, onde estava quando Julio César atravessou o Rubicão, quando Maomé II derrubou as muralhas de Constantinopla, quando Rasputin comeu uma caixa inteira de bombons envenenados e sobreviveu? Eu não estava vivo. Eu não vivi por milhares de anos da civilização e por milhões de anos do nomadismo. E sei que não estarei vivo depois, por outros milhares e milhões de anos. Coube-me esse pedacinho e já consumi 60 anos do meu quinhão. Oh, amigos, resta-me pouco. Então, não vou me importar com o que não tem importância. Nem mesmo com a imagem falsa das fotos e filmes de agora. Sou um ser humano existindo, “sendo”, como são os bichos. Mais tarde, quando deixar de existir, vocês decidem que foto fui eu."

(Pulei fora dos 60, publicado em 23/5)

"É preciso envelhecer com dignidade, afinal, sem essas vaidades de pintar o cabelo e outros que tais. Você haverá de entender que não tem mais aquela elasticidade e que começará a se preocupar com coisas nas quais antes nem pensava, como as articulações.

Você terá de mudar.  

Dormir mais cedo. Beber menos. Comer menos também. Nas atividades físicas e também nas amorosas, nada de acrobacias. Pensando bem, nada de acrobacias em nenhuma atividade. Esporte? O xadrez. Emoções? As literárias. O que nós queremos, nós que nos aproximamos da idade provecta, é paz e um plano de saúde confiável.  

Sei que, falando assim, tudo parece sombrio, mas há uma vantagem. Uma só. E não é essa tolice de “melhor idade”. Também não é a experiência. Nada disso. É a vantagem da madureza passa por algo que citei acima: as críticas. O homem mais velho, se sorveu com sabedoria o tempo que lhe coube, pouco se importa com elas. Ele sabe que tem de ser quem é, a despeito do que querem que ele seja."

(O que o sapato diz sobre quem você é, de 19/5)

"Se eu fosse um condor, eu não voaria para os Andes, eu ficaria por aqui mesmo, nas cidades tumultuadas do Brasil. No entanto, voaria alto, bem alto e, lá em cima, ficaria planando preguiçosamente. Ficaria olhando o movimento dos carros que rodam entre as artérias de cimento da cidade e as pessoas atarefadas, indo a algum lugar — as pessoas sempre estão indo a algum lugar.  

Mas eu, estando tão alto, não me importaria para onde fossem, nem com o que estavam pensando ou debatendo. Elas seriam apenas pessoas, para mim. Todas iguais. Elas não teriam mais problemas ou preocupações. Não teriam opinião, nem teses a defender. Só estavam ali para existir. Mas se, de repente, dois ou três humanos se desentendessem por alguma razão trivial, como o trânsito, e começassem a brigar, eu bateria as asas e subiria um pouco mais. Olharia para aqueles pontinhos lá em baixo e sorriria de prazer. A vida aqui em cima é tão pacífica..."

(Gosto das pessoas que se transformam em bichos em Pantanal, de 16/5)


PELA TRANSCRIÇÃO (como nos velhos tempos do jornal O PASQUIM, mas nunca escrevi para este jornaleco que a minha geração "curtiu de montão"), 

José Carlos Sant Anna

 

 


terça-feira, 17 de maio de 2022

Despedindo-se

 



a vida é o que a gente faz da vida.

vou aproveitar que a fronteira não está fechada e passarei para o outro lado da blogosfera. agradeço a todos os meus amigos que me acompanharam durante tantos anos.  

sou gratíssimo pela companhia.

um abraço para cada um em particular

e para todos  em conjunto

   

 


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Na bolha

 


Quinta-feira, 28 de abril. A onda ainda anda na junção da alegria e do prazer para fechar a tarde. E quão deserta está a rua com as gaivotas perdidas em cima do mar. Ir a Baden só depois que eu terminar de ler a série napolitana de Elena Ferrante, mas não estou esbanjando certezas por conta dos meus afazeres. E ainda que me digas que há um cisne negro no lago de Baden, fico a pensar se não há um anjo torto de beijos tímidos em Lisboa. Mas, nos intervalos, me aposso de uma gleba de versos de Sylvia Plath como um leitor solitário e saio com a cara para cima sem preocupar-me com os carros pelas ruas e avenidas a dizer-me que a poesia dela é impressionante, e que os motoristas têm olhos e boas maneiras. E para não se dizer depois, como sempre se faz em manchete na CNN: ele foi sem se despedir, sem bilhete ou um último beijo, antecipo que já aprendi a vigiar as horas, por isso nada detém minhas mãos na irradiante travessia quando a febre se anuncia e me acompanha desde as esquinas da infância. Enfim, confesso a qualquer japonesinha que apareça na minha frente durante as minhas andanças que são meras pontuações os medos e desejos ocultos. E, antes de degolar os risos de escárnio, antecipo que, por aqui, embora seja outono, parece que se está em pleno deserto, no Saara! E como faz falta nas telas do cinema um beijo em preto e branco.

José Carlos Sant Anna


terça-feira, 19 de abril de 2022

Escreve-me

 


Escreve-me uma história, dizes-me sentada na sala, no escuro, comendo uma salada, obcecada, por  sentir saudade da tua cidade, ou, então, tens medo de cair numa cilada. Conte-me uma história sadia dos seus dias vadios, que não me deixe vazia, dizes-me. Qualquer coisa sobre você em minha sede de quase nada! Ou quase tudo? Sei não, respondo-lhe. Sei não... Chove há quatro dias, chove, aqui, na Bahia, há quatro dias, águas turvas feito burcas. Então, dizes-me sentada no escuro, já degustada a salada em  prato raso, que não viu, mas sabia que não havia nada por dentro da chuva, e me perguntas se eu reparei nas crianças, que são água clara, ou que são um riso de fonte alva. E me perguntas o que eu fazia enquanto chovia. Coreografava? O que fazias? O quê? Coreografava o jeito que a videira dormia, pois sei que tu nunca reparastes que as videiras guardam no espelho das sombras os ecos da noite quando entoam festivas canções... – Coreografava? para mim, dizes apenas para massagear o meu ego. Para mim, responda? Danças em lago sem  fundo, sem enchente, onde tantas coisas amadas dão sinal de vida, quando teu sangue harmonioso navega nos veleiros dos livros, dos lagos e mares, livre, quando... as videiras, sim, as videiras...  Ah, é isso, eu seria o seu par enquanto os caminhos guardam os timbres dos nossos passos... Tu ainda não cansastes desse jogo estranho que inventei para tantas histórias com outro nome? Ah, conte-me outra e mais outra, pois achei essa muito sem graça, dizes-me, desencantada, como se eu te pedisse que a lesse em voz alta.! 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 12 de abril de 2022

romantismo audaz


 

para stella bastos, minha mãe,

que faria aniversário hoje


que legal! sapatos amarelos combinam com hilário? claro, combinam se não estiverem apertados nos pés (ou ainda que estejam, combinam, quase certeza de que combinam), ou se não forem, os sapatos, uma comédia em dois atos amarrada pelos cadarços, como se todos os humanos fossem humor da cabeça aos pés e estivessem no topo da estante, o que seria a única verdade do mundo, se estiver abarrotada de sapatos pequenos demais, mesmo que sejam amarelos sob o sol sociável do outono ou da carne viva da ficção iminente. é só uma palavra, hilário, só uma palavra, e carros, e ônibus, e motos, por todos os lados, é só uma palavra, hilário, algemada aos sapatos amarelos, sem fim, em delírio itinerante; são os cascos velhos aos pés, e a estonteante sensação de nunca tê-los abandonado, mesmo quando sentiu que a sua hora tinha chegado. e apertados, sobre os cascos velhos, os pés são só tremor e, confesso, sou um profano no altar do castelo de marfim, prisioneiro só de mim. que legal! hilário! 


(José Carlos Sant Anna)