quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Tardes com Anões (evocação)



Você já pensou passar uma Tarde com Anões? É rara esta oportunidade. Aconteceu comigo. E pode acontecer com você também, basta que você o queira. Os anões estão juntos, porém espalhados pelas livrarias da cidade. São anões de livrarias, urbanos, de algum modo periféricos, sem que isso os ofenda. 
Eu os conheci por meio de Mayrant Gallo. Um deles, por coincidência. Após a apresentação, eles saltaram para minha mochila e fizeram ruidosa festa pelo caminho. O que me interessou, confesso, a partir da apresentação, era o universo que se descortinava à minha frente, sem que eu pudesse controlar o meu entusiasmo. E o deles. Tudo pelo gozo antecipado, ao se manifestarem, quando Dênisson Padilha fez, em voz alta, a leitura de Interpretação dos Sonhos, de Eliezer César, ao compulsar o livro à frente de todos. Deixou Freud inquieto, por ter de repensar àquela altura suas teorias. E a mim também, pelo desejo lacaniano de cortejar a cada um deles na sua inteireza e pequenez.
Para quem ainda está tateando nesta linguagem cifrada, aviso que estou falando do livro TARDES Com anões – 7 minicontistas, editora Vento Leste, organizado por Gal Meirelles.
São anões, é verdade, mas tão somente na extensão de cada texto, pois o que há de densidade em cada uma delas é suficiente para torná-los gigantes. Digo-lhes com a consciência tranquila porque passei o resto da tarde com os anões sem perdê-los de vista. Mas sem pressa, pois a sugestão implícita não é a de que deveríamos passar Tardes com anões, fazendo festa com eles?
Assim, segui a cronologia dos textos. Quase me afogo nas cortantes ironias em Para dizer que te amo (I) e (II), de Carlos Barbosa. E levei em conta a observação da ex-aluna ao dizer-me que em A Análise "a ironia e o tratamento tragicômico são de absurdo sucesso". Endosso tais observações.  E sem acordar Freud, voltei à Interpretação dos Sonhos, afinal tinha ouvido uma leitura dramática. E fiquei pensando na coleção de vinil que enche o quarto de hóspede lá do meu apartamento ao ler Discos Voadores, ambos de Eliezer César.
Recentemente me deliciei com a prosa poética de Igor Rossoni, em Exercício para Clarineta. Agora, ao ler a breve narrativa Asseio, fiquei a pensar na empregada que se dependurou também no peitoril do 8º andar, quase no mesmo instante em que eu fazia a leitura -  haja angústia - para limpar os vidros da janela do apartamento e o tempo que levei esperando para dizer-lhe que não precisava mais limpá-los, pelo menos do modo como o fazia. Ficava com uma tarefa a menos, mas não escondeu o olhar contrafeito. Apaguei o olhar e joguei fora a cara feia, não tinha serventia aquele rancor.  
Dramas mais doces. E bendito seja o toque feminino, Lidiane. Ainda que a toada mantenha a mesma tonalidade, a voz é mais doce. Quase naufrago junto com o noivo em Naufrágio; e em Menina e o Pássaro, há um acento poético no drama ali exposto, que apanha o leitor segurando a garganta. Mas Lidi sabe manejar os cordéis. E nada se altera no ritmo das outras narrativas.
Singulares os textos de Mayrant Gallo. Aquela Primavera é um primor de narrativa que me reconduziu à adolescência perdida quando o li pela primeira vez no Verbo 21. E a Borboleta, que pousou na cabeça do marinheiro, me fez lembrar a outra achada no cinema no anedotário popular. Será que alguém se lembra dela?
 Também Rafael Rodrigues, em De uma vez, me trouxe a doce recordação da barba cultivada por quase três dezenas de anos. No dia em que a tirei, minha filha olhou bem dentro dos meus olhos e disse: “você não é mais o meu pai”. Também Os versos que dei sorrindo são evocativos de outras memórias.
Fiquei inquieto com A fome de um homem e O início, de Thiago Lins. E, por enquanto, “Não volto a escutar mais ninguém” como ele escreve em Vilela. Mastigo cada uma das narrativas de TARDES com anões, como recomendava o filólogo Antonio Houaiss, ruminando-as.
Só um pequeno detalhe no arremate que não me satisfez. É que “Nunca esteve ausente ao prelo” a Branca de Neve, como ali consignado nas páginas finais, pois não só esteve presente como brindou os leitores com uma apresentação impecável, com todas as letras, não é mesmo Gal?

          (José Carlos Sant Anna)

Publicado no Jornal A Tarde, Caderno 2, p. 5, de 5/11/2011. 



    


9 comentários:

  1. Olá, José Carlos!
    Tudo bem com você? me traga um pouco de calor porque eu aqui tremo de frio! rsrs

    Anões são um tema misterioso e enigmático. Aliás, como tudo o que foge ao convencional, é.

    Beijos

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  2. José Carlos, muito divertida a maneira que você apresenta essa coletânea com seus minicontos e seus 7 anões escritores.
    Na verdade você fala de ótimos contistas e de seus pequenos grandes contos. Nossas Feiras do Livro e Bienais trazem projetos maravilhosos os quais apresentam muito essa reunião de escritores contando ‘das suas’ em coletâneas bem editadas.
    Nada tão prazeroso como passear pelas livrarias, Bienais, Feiras e pegar, manusear e sentir o aconchego dos livros. Pra mim é o maior passeio do mundo. E os Sebos?? É de enlouquecer! Descobre-se um mundo maravilhoso. Mas cada ida aos shoppings é uma tarde inteira nas livrarias, e não fazemos mais nada!!
    Bela tua postagem regada ao ‘choro’ de Heitor Villa-Lobos.
    Beijo, amigo!

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  3. Adorei o título, a capa com a simbologia implícita,
    todos sinais de se tratar de Arte e a resenha desta
    tua apresentação contagiante ao "estilo José Carlos",
    só poderemos ter a certeza de minicontos de
    literatura de alto nível e originalidade.
    Grata pela partilha, meu amigo.
    Sim, o vídeo com a interpretação do nosso
    orgulho Heitor Villa-Lobos, preciosidade,
    meu amigo!...
    Beijos e um final de semana feliz para ti!

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  4. Pelo que posso perceber foi uma festa para si ler esta antologia, pois a forma como a apresenta é muito interessante.
    Magnífico o "choro" de Heitor Villa-Lobos!
    Um bom fim de semana, meu Amigo.

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  5. José Carlos, meu amigo

    bem sabemos que os homens não se medem aos palmos
    nem os contos pelo tamanho
    nem os livros pelo número de páginas
    e até mesmo, eventualmente, nem os autores pelo volume de livros publicados

    por isso te digo com total à vontade qe não sei que mais admirar neste teu poli-facetado texto:

    se a destreza do verbo
    se a erudição do autor
    se a "alegria" das palavras e conceitos, engendrando-se uns nos outros
    se até a pulsão "pedagógica" que teimo em ler no latejar do texto.

    verdadeiro prazer estético desfrutar da sua leitura. grato

    caloroso abraço

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  6. JCarlos
    a maneira como nos traz esta crónica...e pela sua escrita divertida, só pode ter sido uma deliciosa leitura

    boa semana.

    beijinhos

    :)

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  7. É muito bom quando lemos um livro e ele nos agrada sobremaneira. Já faz tempo em que não consigo levar um livro até ao fim, tal o desapontamento que me causa devido a factores vários, uns de uma maneira outros de outra. O que ando a ver se consigo ler até ao fim foi escrito com o acordo ortográfico (AO90), coisa com que embirro veementemente.

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  8. Uma deliciosa e original forma de apresentar estes 7 autores... de cuja obra, lamento não estar a par... mas de que não duvido, em momento algum, do valor e lugar conquistados por cada um, no panorama da literatura brasileira...
    Beijinho!
    Ana

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