quarta-feira, 2 de maio de 2018

Laura




                        Todos os dias, ao voltar para casa, enquanto come morango com leite como Laura ensinou a fazê-lo, Chico Bobina vasculha a casa, procurando-a, depois entra no quarto, apanha o envelope, olha-o demoradamente, e põe no mesmo lugar de onde o tirou, dizendo para si mesmo que ainda não está preparado para saber o segredo ali guardado ou por intuir que o melhor é não o saber. Assim não precisará de nenhum esforço para esquecê-lo depois.

Enquanto a guerra dos sexos, diante dos seus olhos, parece nunca ter fim, a tarde, cansada dos ardores do sol, antes de recolher-se aos seus aposentos, respinga os últimos suspiros sobre os transeuntes, pegajosos, porque transpiram amontoados pelas ruas. E parecendo estar em outro mundo, Chico, adernado na lata de sardinha, também empapado em suor, pensa no cheiro de café coado, na hora, por Laura, sua fiel escudeira, desde que ela voltara de Paris. E pensa também nos dentes alvos que ela mostra, ao sorrir, encostando a testa na vidraça, que separa a área de serviço da cozinha, olhando-o do seu pedestal.

Ela chegara de mansinho, como quem não queria nada. Enumera, sem muita pressa, o que eles tinham em comum e faz mil e uma considerações supérfluas sobre o amor, sem que Chico no primeiro momento tirasse os olhos dela. Mede-lhe pernas, busto, cintura e imagina a rigidez do bum-bum em suas mãos. Embora Laura, no princípio, agisse com alguma reserva, como se escondesse alguma coisa de si mesma e dos outros, pouco a pouco, ela se libera, se encosta nos ombros dele, amolece-o. E irremediavelmente, fica ao seu lado até que...

Por sua vez, Chico nunca entendera direito a história que ela contara em pedaços para explicar o porquê, sem mais nem menos, da sua volta à terra natal. Resignadamente, Chico enchia os pulmões de ar e dizia que isso pouco importava, importante era tê-la inteira. E afirmava, para os que semeavam dúvidas, que ele não precisava de provas para o que ela revelasse, sem o seu pedido... Mas quem o conhecia sabia que ele não aprendera a disfarçar direito o que se passava no seu íntimo. Assim...

Agora, olhando para o seu relógio estragado e para as folhas murchas desse relacionamento, o que ele queria mesmo era voltar para casa e ficar ao lado dela, vislumbrando os braços brancos sob a blusa de manga comprida. "Como seria bom se ela tivesse voltado para casa", diz para si mesmo, curvando o seu tronco para a frente, pois queria observar melhor um gato que se esgueirava à frente do ônibus, em sentido oposto, para não ser atropelado. 

            Chico Bobina, na última sexta-feira, "dia de maldade", como dizia aquele amigo irreverente, ao chegar à casa, encontrara apenas um espesso envelope pardo deixado por um mensageiro desconhecido na portaria do prédio onde moravam. E com coração sobressaltado subiu para o décimo quarto andar, segurando-o firmemente. O que ele mais temia, poderia estar no envelope pardo. Era quase certo que, naquele momento, o envelope, o que menos lhe trazia, era uma felicidade nova. 

           Lá em cima, no apartamento, descobrira que Laura desaparecera. Sem largar o envelope, Chico perdeu horas pensando no que poderia ter acontecido porque era a primeira vez que não a encontrava em casa. Religiosamente, ela o esperava no final da tarde, quase despida, mexendo na gaveta do guarda-roupa. Quando Chico lhe perguntava com um ar fingido o que ela estava fazendo, respondia-lhe que estava procurando as meias que ele tanto gostava. Era a senha. Ele murmurava alguma coisa e corria para o banho... Agora, sem forças e já com a sensibilidade bem deteriorada, disse com ironia para si mesmo: "Pois sim, agora minha felicidade será completa porque já não terei ninguém para reclamar comigo". Assim, mentia cinicamente porque mais uma vez ele não entendia o que estava acontecendo. A vida era de uma tal complexidade que ele não seria capaz de absorver...

           Que a história de Matilde sempre repicara na sua cabeça, mexendo com os seus neurônios, isto ele não podia negar. Depois, Chico se lembra muito bem. Quando ela o encontrou, ele vivia largado no sofá porque estava numa quebradeira, de talos alongados, como nunca se vira antes. Era um trapo. Ajudou-o, e muito, a sair do buraco em que se encontrava e, além disso, suspira demoradamente dizendo "ela era uma locomotiva na cama, por isso ele sempre teve pressa em voltar para casa", àquele interlocutor imaginado, a quem supõe estar contando essa história no banco da lata de sardinha.

            O ônibus passava pelo terminal rodoviário. Da janela, Chico tinha a impressão de que os pombos perdiam um pouco da sua alma nos cegos mergulhos que faziam sobre a praça, que margeava o terminal, à caça de migalhas pelo chão. Farelos. Fome. "A fome", sentenciou Chico. Por isso, tão amorfos, olhando-os resignadamente, como ele o fazia para dentro de si. Chico não podia estender-lhe as mãos e oferecer-lhes o milho, como fazia na Praça Municipal, aos domingos, com as duas filhas quando elas ainda eram pequenas. Levavam o milho e despejavam aos borbotões na praça e ficavam esperando que eles descessem do alto do antigo Palácio do governo, planando antes sobre suas cabeças, como se agradecessem o alimento. 

            A mãe as vestia como se fossem gêmeas. Havia sempre alguém que perguntava: "São gêmeas?". Depois iam degustar um bolinho delicioso na sorveteria da esquina. E perambulavam pelos arredores porque, nos tempos idos, não fazia medo andar pelo centro da cidade, as ruas eram movimentadas. Era uma festa o centro da cidade aos domingos. E Chico não perdia tempo, aproveitava para comprar na banca do Careca os jornais do Sul do país, que chegavam cedo no aeroporto e depois na banca do Careca. 

            Todos diziam que o dono da banca de revista era do partidão. Sabe-se que ele esteve desaparecido quando os militares apearam os civis do poder em 1964, mas Careca, como todos o chamavam, não era o mesmo quando voltou a tomar conta do negócio; a clientela, antes cativa, fiel, sumira, assustada, com as notícias espalhadas entre os clientes da banca. Chico também se lembra de Dultra. Fora ele que lhe indicara a livraria no centro, que abastecia com jornais e revistas à esquerda mais radical, e a banca do Careca, para seu engajamento na luta por uma nação livre.

            Faz tempo que Chico não tem notícias de Dultra, porém ele ainda se lembra da alegria estampada no rosto dele, ao se deparar, no foyer do Teatro Castro Alves, com a crítica que ele assinara sobre os sonetos da Bahia antiga, da sua lavra, publicados na Revista da Bahia. 

          Chico deixa que os seus olhos marejados se percam outra vez no que se passa do lado de fora ainda se perguntando: como estender-lhe as mãos se estava enlatado no ônibus voltando para casa e a grana curta. Curtíssima. Mas aquela imagem deixava-o ainda mais despalavrado na viagem da volta para casa. E lhe fraquejavam as pernas à medida que o dia sucumbia. E ele continuava a procurar a explicação que não encontrava perguntando-se o que o amor tem a ver com a culpa? Como é estranho o ser humano! Se pudéssemos ser normais...

            Nada acontece por acaso. O caminhão de cerveja colou na lateral do ônibus. Ele conferiu duas vezes o espelho retrovisor do motorista antes do gesto audacioso e, percebendo que a visão dele não o alcançava, estendeu a mão e apanhou três latas de cerveja, dando graças a Deus por não ser um caminhão baú, o que não deixaria sequer saber a carga que levava, menos ainda enfiar a mão para surrupiar três latinhas de cerveja. O adolescente ao seu lado abandonou o livro de Machado, fechando-o sem pressa, e o censurou com um olhar grave. Chico fez de conta que não percebeu a censura, abriu a sacola e guardou as três loiras. No freezer ficariam geladas bem depressa, foi o que pensou. Depois do banho não se separaria delas. Era o que lhe bastava para enganar a sede e a fome de Laura, depois de mais um dia de trabalho!

            
            (José Carlos Sant Anna)


         



9 comentários:

  1. "A fome e a sede de Laura"... A ausência a doer no peito como uma inexplicável angústia que fere o pensamento...
    Excelente texto, meu Amigo, ao som do trompete magnífico de Chet Baker...
    Um beijo.

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  2. JCarlos
    Um texto que se lê rapidamente pois prende o leitor logo no início.
    Esta frase que cito :
    "Assim não precisará de nenhum esforço para esquecê-lo depois."
    aumenta a nossa avidez em ler o que se segue, mas se esta frase mereceu a minha atenção, há outras também muito boas.
    Um excelente texto que gostei imenso de ler e reler.
    Beijinhos
    :)

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  3. José Carlos, é um texto, um conto que vamos lendo ávidos, para ver o que vai dar, onde levará essa angústia. E por quê.E a carta?

    "Como é estranho o ser humano! Se pudéssemos ser normais..."

    Pois é, como somos estranhos e misteriosos. Porque não falar, dizer, contar! Por que não explicar o que se tem em mente, tornaria a vida a dois bem mais fácil. Como vês, fiquei 'por aqui' com essa mulher. rss Parece até verdade.
    Você construiu muito bem o 'cenário' da história!
    Beijo, meu amigo!

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  4. Amigo José Carlos, gostei muito dessa história do Chico, que se envolveu com Laura, de forma definitiva, ao que parece, mesmo não a tendo mais ao seu lado. Chico é um personagem criado com a força indispensável para dar sustentação a esse excelente conto tendo Laura como coadjuvante. A carta, que integra o conto, me fez lembrar de um dos meus contistas prediletos, Edgar Allan Poe, já que, a carta, foi um mistério que mais me chamou a atenção no conto. Excelente, amigo.
    Um ótimo fim de semana.
    Abraços,
    Pedro

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  5. Caro José Carlos,
    apaixonante a "perversidade" do teu "jogo de escrita", abrindo e fechando pistas leitura, para logo abrires outras, como ilusionista que perante os olhos do leitor se compraz no prazer da sua arte.

    fantástica a tua capacidade de em poucas linhas definires ambiências e personagens - o roubo, melhor dito, o "desvio" das cervejas do camião, a partir do onibus é um "must"! tal gesto, no quadro descrito, definiria por si um personagem.

    um excelente conto, como aqui sempre acontece.

    forte abraço, meu caro amigo

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  6. Gostei muito do conto, José Carlos.
    Sentires masculinos que são sempre surpresas
    para o sexo oposto.
    Abraço amigo.
    ~~~~

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  7. Confesso que o Chico me absorveu completamente. Ele é os cenários em que se movimenta. Uma criação versátil e dinâmica, caro José Carlos. O surripanço das latas de cerveja é de mestre. E o "suspense" do envelope também.

    Beijo.

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  8. Haja talento, o dom do ofício da escrita, José Carlos.
    Não percebemos nenhuma trilha dos recursos e técnicas
    literárias no teu texto (conto). A sensação é como se as
    personagens se jogassem no espaço em branco e dissessem:
    "Deixe conosco, nós sabemos o caminho da revelação, do
    envolvimento e da hipnose sobre os leitores!".
    A mágica da literatura acontece e sobre nós, leitores,
    nos deixamos ser guiado pela trilha (bobina) do destino
    do Chico Bobina. Presinto que o Chico Bobina não colocou
    o ponto final, quer nos revelar sobre a carta, continuar
    com a "bobina" da vida, a desenrolar na caixa mágica das
    emoções humanas (da fragilidade à exuberância dos
    prazeres...) e o escritor- narrador onipresente oferece
    o espaço em branco novamente, para a mágica da
    literatura acontecer.
    Beijos.

    Ps: Fiquei tão tocada com teu comentário-poema para
    tua mãe...

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  9. Um texto de leitura imparável... em que conseguimos visualizar tão bem, o cenário da acção... e o interior da personagem principal...
    Um belíssimo e abrangente texto, José Carlos! Um fantástico retrato psicológico de um... dos muitos Chicos, pelo mundo, recuperando como podem, cada um à sua maneira... da perda de uma Laura...
    Magnifico trabalho, José Carlos! Parabéns!
    Beijinho
    Ana

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