terça-feira, 26 de junho de 2018

Chet Baker




Bárbara nunca soube delimitar a fronteira para saber o grau de instabilidade emocional de Tão Preto, mas o importante é que ela o aceitava com os surtos e as febres, olhando-o sempre de modo indiferente nas pequenas ou grandes loucuras que ele fazia, quando a crise se instalava. Os medicamentos atenuavam as oscilações de humor, mas nem sempre o uso era contínuo como recomendado. E assim, com altos e baixos, ele ia levando a vida de caniço e samburá, como dizia a música, sem querer saber se a maré estava cheia.
Ela sempre se surpreendia pensando nessas coisas enquanto tomava uma xícara de café na ampla cozinha de sua casa, achando que não era assim tão preocupante o que ele aprontava, depois relaxava porque ela também tinha suas idiossincrasias, e não eram poucas. E, então, deixava que a natureza a seu bel-prazer cumprisse o delicado papel que lhe cabia na seara de cada dia.
Tão Preto desceu do ônibus na tarde quente do verão soteropolitano, lembrando-se de que ainda não visitou as notas musicais esta semana e não sabe se ainda vai fazê-lo porque chovia canivetes na sua horta.
Mas o que Tão gostaria mesmo era que chovesse sonhos de valsa, afogando-o, assim ele se lembraria do quanto eles fazem falta — os chocolates musicais —, nos seus bolsos, mesmo sabendo que esses impolutos doces derretem rapidamente com o calor do seu corpo, mas sabe também o quanto aquecem uma vez digeridos.
Bem que poderia ser um chocolate mais refinado, mas sonhava sempre porque ele era um otimista, e como gostava de ser um otimista, por isso se viu logo dizendo para si mesmo que o sonho de valsa bastava. Não importa o tipo de chocolate que estivesse mastigando, mas não poderia esquecer de forma nenhuma que essa iguaria remonta às civilizações pré-colombianas, e todos trazem o gosto das amêndoas fermentadas e das torradas de cacau, de sabor inigualável, variedades de formas, alto valor nutritivo e energético, sem falar das propriedades antioxidantes que guardam em cada barrinha. Pra que querer mais do que isto!?
Tão Preto sabe que é cedo para mudar de ideia porque da última vez que procurou seu psiquiatra — embora ele soubesse, fazia muito tempo, que ele não passava de um vigarista —, dessa vez Josias, o psiquiatra, lhe pareceu muito sensato na conversa. Didático na prescrição que fizera, recomendou que Tão visitasse as notas musicais regularmente.
— Faça-o uma vez por semana! Depois vá aumentando a dose.
— Hum! Uma vez por semana, doutor?
— O melhor seria fazê-lo pelo menos três vezes por semana, como se fosse uma terapia e, como tal, o ideal seria repeti-la duas ou três vezes por semana — ressalvou Josias.
— Doutor, o senhor acha mesmo que isso vai me ajudar? E se vai ajudar até quando isso acontece?
— Sim, sim, vai melhorar, Tão! Você vai ver! Faça como se fossem exercícios físicos, seguindo a minha prescrição.
Tão Preto ficou o observando, enquanto fazia piruetas com o lápis sobre a mesa como se fosse uma lança, que o atingiria mortalmente, se usada como tal.
Percebendo o jogo de Tão Preto, Josias afastou a cadeira da mesa para distanciar-se dele e bateu a mão sobre o tampo da mesa, olhando-o fixamente e disse:
— Mens sano in corpore sano — duas ou três vezes por semana.
Tão Preto mantém a receita, sem rasuras, guardada em uma pasta de elástico, na cor verde — faz questão de dizer-me — porque se for imprescindível aviá-la outras vezes, o balconista da drogaria, por certo, não criará nenhum obstáculo, vendo-a conservada.
— Protegida desta maneira, a receita não ficará com cara de papel amarelado, nem amarrotado — sentencia para mim.
Pronto. Aviada, o que ele faz agora é seguir a recomendação médica, sem falhas, ainda que Tão soubesse que vigarice é o que não faltava ao seu psiquiatra.
Ocorre, porém, que esta semana a porca torceu o rabo lá na casa de Tão Preto. É por isso que ainda não visitou as notas musicais esta semana. De surpresa, aterrissou assim do nada Chet Baker na sua porta.
Entrou sem tocar a campainha. Com intimidade, mas sem o trompete. Trazia um pack com doze latas de cerveja.  Olhou-o com a tranquilidade de um músico e disse-lhe:
— É só pra começar.
E ainda basbaque perguntou Tão Preto a Chet Baker:
— O que o traz você aqui, Chet, à minha choupana assim de surpresa? Chegou quando?
Fingindo não ouvir a pergunta que Tão fazia, Chet Baker como se estivesse na mesa de sinuca disparou:
— Esse negócio de visitar as notas musicais a qualquer hora é uma roubada, cara! Saia dessa! Vim salvar sua pele, não quero vê-lo escalpelado como um homem branco por um índio pele-vermelha!
Falava como se tivesse ouvido a conversa entre o psiquiatra e o paciente no consultório.
A qualquer hora, dizia Chet Baker, com sangue nos olhos, o que se deve visitar é uma bela mulher como aquela loira que está passando ali agora, do outro lado da rua, puxando-o, sem largar o copo, para a janela.
Ela, com um minivestido azul, purpúreo, faixas amarelas e pretas na cabeça, gingando como se tivesse um bambolê na cintura, "arregaçava" pela calçada oposta à da sua casa. 
Arregaçar é uma expressão típica que Tuca usava e abusava, nas reuniões que fazia na beira da piscina de sua mansão, com uma música imprestável, que incomodava ouvidos sensíveis, e muitas periguetes, em duplo sentido.
Mas não quero perder o foco, deixem-me falar tão somente de Chet Baker que adora um improviso. Foi assim que ele chegou, como ele gosta de fazê-lo no seu trompete. Depois falo do Tuca, gente boa quando fica calado.
Quando a mulher de Tão Preto deu de cara com Chet Baker na sala, perna cruzada, com jeito de que não sairia tão cedo dali, ele já tinha emborcado três cervejas e mostrava muita animação.
Ela fechou a cara porque sabia que aquele lero-lero não tinha hora para acabar e os dois acabariam esticando o dia e logo o trocariam pela noite. Ela entrou no quarto e não saiu mais. E quando ele disse que ia ali — fazendo o sinal com o beiço, para mostrar que iria perto — com Chet Baker, ela reapareceu na sala com a mala pronta para despachá-lo para onde ele quisesse ir, mas se era para sair que o fosse em definitivo.
E para não ter dúvidas disse-lhe com o jeitão de bárbara porque sempre fora Bárbara, a deusa dos raios, ventos e tempestades, a Iansã — também a protetora contra raios, tempestades e trovões:
— Não precisa voltar   disse-lhe sem meias palavras.
E empurrou a mala de rodinhas em sua direção, dando-lhe em seguida as costas.
Nunca saberemos se Bárbara sentiu falta de Tão, mas ele voltou uma semana depois todo estropiado, com cara de santo. E muito cabreiro. Ela o recebeu sem uma palavra. Trazia nas mãos uma faca e um cesto com centenas de quiabos. Devota de Santa Bárbara, cumpria obrigação todos os anos. E era véspera do dia dela. Seria também o da redenção de Tão Preto, depois que ela lhe entregou aquela encomenda: a faca e o cesto. Mãos à obra, era o que tinha a fazer. O caruru tinha que estar pronto para ser servido antes das quatro da tarde do dia seguinte, consagrado a Santa Bárbara. 

(José Carlos Sant Anna)






11 comentários:

  1. Li e reli o seu texto, meu Amigo. Não me canso de admirar a estética da sua escrita. Qualquer análise, qualquer comentário me são estranhos perante a leitura que acabei de fazer…
    Um beijo, José Carlos.

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  2. Bom dia. Excelente texto:))


    Bjos
    Votos de uma óptima Quinta - Feira.

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  3. Há muitos adjetivos que poderia distribuir pelo texto a cada mudança de cena. Direi apenas que o ritmo, a estética e a expressividade são fascinantes. Parece um guião de filme. Muito bom!

    Parabéns, amigo Sant Anna.
    Beijinho.

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  4. de mestre o pormenor "purpúreo" do "minivestido azul" qual nota fora de escala de Chet Baker no seu cornetim, em revisitação de Woody Allen.

    que Santa Bárbara me acuda, meu amigo! como eu invejo aquela semana de Tão Preto e Chet Baker, apesar de não apreciar chocolate e minha visita a notas musicais seja muito mais espaçada!

    és um excelente criador de ambientes, "tipos" e personagens, caro amigo José Carlos. em suma, um grande escritor

    forte abraço

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  5. no segundo parágrafo, em vez de "seja" deve ler-se "ser".

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  6. Mas esse 'tão Preto' era bipolar ou depressivo? rss
    Adorei o momento psiquiátrico da questão, é conhecido esse embrulho nas sessões, de ficar analisando os velhos e sabidos psiquiatras...
    Mas tudo ficou mais ou menos dentro do previsto...rs
    Acho que Bárbara não sentiu falta de Tão, não, mas já que o estropício voltou, o que fazer? E com uma faca na mão? Eu fora.

    rss, Grife 'José Carlos'...
    Um beijo, amigo, bom final de semana!

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  7. Li e reli.
    Esse Tão Preto faz uma boa parceria com o psquiatra que deve ser tão ou mais vigarista do que ele.
    Acho que Tão Preto é um misto de lunático e desequilibrado mas equilibrado quando quer.
    Gostei da Bárbara e do fim tão inusitado mas expectavel.
    beijinhos
    :)

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  8. O Carlos é um grande contador de histórias. Adorei esta. Um grande abraço.

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  9. Boa tarde José Carlos!
    Sempre muito criativo os seus textos. Esse Tão Pedro é uma figuraça, bela construção da imagem desse cara. Será que a Bárbara sentiu falta desse doido? Acho que não. Adoro suas histórias.
    Beijos e boa semana!
    Que o mês de julho seja de muitas bênçãos em sua vida.

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  10. Estive por aqui a ler, para retribuir as suas simpáticas visitas. Gostei de ler embora alguns termos brasileiros, me escapem. Gostei das músicas escolhidas:)

    Bom fim-de-semana:)

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  11. E nos seus delírios... mesmo entre idas e vindas... Tão Preto, sempre voltava... pois só ele sabia, onde e com quem era feliz... apenas Bárbara o ligava a uma ténue linha de normalidade... a partir da qual, se iniciaria novo delírio...
    Mais um texto fascinante... com uma riqueza de conteúdo e pormenores sem fim!... Muitos parabéns, pelo talento e inspiração, José Carlos!
    Beijinho! Bom final de domingo e uma excelente e inspirada semana!
    Ana

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