segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Quase triste




Como se eu ainda tivesse o alaúde. São outros os tempos. E rubro ou incolor são os pingos da memória, sem pés ou asas para sustentá-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum escândalo pode safar o véu da boca de Madalena. Melhor é que não o faça. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metrô, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das begônias no meio da clorofila dos executivos da classe média, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E estão perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da infância? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: "O que é que houve, Madalena?" "O que é  meu não se divide". É o olfato que irriga meus países baixos, por isso me falta talento, incenso e girassóis para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos pés em botão nas míseras cadernetas do armazém da esquina. O filho da mãe, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou então durma! O desamparo é uma traição das marés, e o teu médico, cubano, não fala bem o português. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fumaça do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa. 

(José Carlos Sant Anna)

4 comentários:

  1. O seu texto, meu Amigo José Carlos é escrita de qualidade. E a grande ficção passa o tempo a dizer-nos que aquilo que acontece dentro dela é também o que acontece dentro de nós. Eu li-o com "olhos que pensam", como disse Klee… Os bons leitores não raramente permanecem em silêncio, digo eu…
    Um beijo, meu Amigo.

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  2. Olá, José Carlos!
    Que saudades!
    Como eu ainda me espanto com tanta maestria na escrita de um texto? Ler o que voce escreve é como me deliciar num manjar dos deuses!
    Beijos

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  3. Que lindo. Não tenho podido aqui vir,mas sempre que o faco meu coração palpita de alegria com a beleza das suas palavras. Que lindo. Um abraço Carlos.

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  4. Este jeito de dizer tem o efeito de estimular, de fazer insuspeitadas sinápses nas meninges que tocam depois a fibra que se agita sob o lençol da pele, da cabeça aos pés. Ler é preciso dizer que o som dilata a compreensão.
    Excelente, caro José Carlos Sant'Ana.
    Abraço.

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