sábado, 10 de novembro de 2018

Desamparados





Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas mãos, mergulhado nas águas fundas da antiga convivência, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cadência do mundo por entre as árvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma incidental canção inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardança e da solidão, sem que Joaquim saiba o motivo das aparências das coisas porque não consegue desprender-se dos ferrões feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um incêndio num açude em noite de tempestade. A cantoria das crianças, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperança, uma aurora, que coubesse no céu daquele homem no colo do dia, mas, ao contrário, provoca náuseas, um tremor nas mãos que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas águas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se vê mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa. E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu. Para as sobras da infância. Joaquim molda os músculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as calças, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manhã e os cães desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo contínuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras. 

(José Carlos Sant Anna)

13 comentários:

  1. "E nenhum pormenor da boca da manhã escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras." Tão belo! O seu texto é magnífico. Apetece saborear cada palavra, cada imagem…
    Uma boa semana, meu Amigo.
    Um beijo.

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  2. Concordo com Joaquim, tudo é uma questão de tempo, até com as coisas mais sórdidas nos acostumamos, tudo vai se banalizando, ganhando contornos aceitáveis, infelizmente. E pelo que vejo e sinto, pobre Joaquim, 'ferrado' desse jeito, parece-me um tanto complicado. Só vai. Belo conto, professor. Gostei do vídeo, não conhecia.
    Beijo, uma boa semana nesse calor dos trópicos!

    "Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragmático pensador"

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  3. José Carlos,

    A minha sensibilidade no contato com a tua narrativa
    que desaba em mim, as lágrimas neste desamparo, em
    que a "solidão não consegue desprender-se dos ferrões
    feitos do nada que sangram" na pele da realidade...

    Todo poeta carrega dentro si, este silêncio que se
    movimenta nos olhos com a vontade em assimilar
    toda a beleza: "E nenhum por menor da boca da manhã
    escapa aos olhos que virgulam os matizes azulados
    do horizonte que não se escrevem com palavras."

    A escolha musical fica nesta imensidão dos olhos que
    captam a beleza da arte, adorei!!

    Um privilégio seguir o teu espaço e captar tanta
    beleza com este ato da leitura aqui, ainda em
    outro momento voltarei para o comentário do
    outro post...

    Beijos e votos de uma semana feliz e na paz!

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  4. "cadela de vida" a do Joaquim a acomodar-se à sua dose de amargas desistências (ou impotências) ...

    e a ganir gemebundas "intempéries que amanhecem sob os túneis da escuridão completa"

    excelente naco de prosa, meu caro amigo, a dar testemunho do teu enorme talento como escritor e a provocar, porventura, delicadas e animosas solicitudes perante solidão dorida do teu personagem...

    forte abraço, caro José Carlos

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    1. Essa parte também chamou-me muita tenção...bem intrigante.
      Abraços Manuel.

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  5. E assim a vida escorre pelas nossas mãos...se não a vivermos plenamente.
    Adorei o conto e todas as suas entre linhas.
    Abraços bem carinhosos a ti querido.

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  6. Boa noite, José Carlos, um conto excelente, que prendeu-me a atenção do início ao fim. Não sei dizer por que lembrei-me do contista Ricardo Ramos (claro que tu deves conhecer bem o filho de Graciliano Ramos).
    Parabéns pelo seu criativo conto que diz bem do seu talento de contista.
    Um bom fim de semana.
    Abraço
    Pedro

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  7. Gosto de passar nas "Dobras do Dia". Hoje "um inseto tecia no espelho uma incidental canção inspirada num poema de Drummond". E Joaquim supera o desencanto da vida com "os matizes azulados do horizonte que não se escrevem com palavras"
    Assim ... a espaços ... a poesia imiscui-se. É sempre imprevisível.

    Beijos.

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  8. Um daqueles dias, em que nos sentimos desamparados... e se levam as insatisfações da vida, a desaguarem no mar... e se volta de peito cheio... depois da linha do horizonte, nos acalmar... mostrando que ainda há mais por vir, ver, e viver... do que a vista consegue alcançar...
    Mais um maravilhoso pedaço de escrita... onde cada palavra, revela uma sensação... uma cor... um aroma... ou uma emoção... ou um daqueles dias, mais difíceis de suportar... que dificilmente, conseguimos deixar em palavras...
    Beijinho! Continuação de uma excelente e inspiradora semana, José Carlos!...
    Ana

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  9. "...E chama a cadela para a vida que ainda não viveu, para as estrelas que não se cansaram de riscar o céu..."

    Sempre tão belo.

    Tenho perdido muitas 'pérolas' daqui.

    Um beijo a Tão Preto e outro para o José Carlos.

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  10. De facto, o homem tem a capacidade de adaptar-se
    às situações mais estranhas e até, extremas, mas
    a diferença está na velocidade de adaptação...
    Há quem avalie a inteligência pelo grau de
    adaptabilidade...
    Não me parece que este Sr Joaquim ficasse com
    um QI digno de registo.
    Salvava-o a paisagem de mar e surfistas...

    Porém, o seu conto ficou excelente.
    Dias de contentamento, com tudo a seu contento.
    Abraço
    ~~~

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