segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Ao pé do ouvido



Como um pássaro voando, voando, que chega subitamente, o tempo não dá mostras de limpar. Ou mesmo como um girassol que floresce no escuro. Nunca pareceu bom, sempre pareceu mau! Só apreensão pelo tanto que poderia ser mau. É o que sempre suscitou. Na mesa ao lado, o dominó, pedras negras e brancas, rudes e delicadas. Quatro homens, serenos em seus cabelos, jogavam-no em silêncio absoluto. Outro lia o jornal com olhos vulcânicos. Nada ali era estranho. Nem mesmo o trio que acabara de chegar. Um moço, outro no meio da vida e uma negra soprando uma flauta, como alguém que come pão, perdida nos vãos escuros do país. Humildes, todos, na roda do mundo, na roda do tempo da espera. Têm medo? Parece que sim. Ainda não me descobri nascido para o medo mas para o encontro. E o país opaco, não se indaga mas se sabe malogrado, também espera a tempestade ou coisa que o valha. 

(José Carlos Sant Anna)


6 comentários:

  1. A escrita é uma forma de lucidez. Neste seu belíssimo, mas inquietante texto há uma tensão a roçar as palavras com óbvias preocupações sociopolíticas. Realmente os homens são cúmplices daquilo que os deixa indiferentes. Gostei muito, meu Amigo José Carlos. Um beijo.

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  2. há como que um ávido perscrutar de sinais neste teu humanissimo olhar sobre os rostos humildes e a cor do medo, como quem bem sabe que "o sonho comanda a vida" e nada detém as tempestades, quando as tempestades amadurecem.

    assim, os grandes Poetas!

    forte e solidário abraço, caro José Carlos

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  3. Confesso ter me comovido com o cenário e os
    personagens, é como que tivesse eu ali também
    a espera... Apreensivamente a espera da tempestade.

    Gostei muito de ter vindo aqui e ler.

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  4. Gostei do canto... quase um hino.
    O problema socio-económico do Brasil deve ser
    realmente, muito preocupante e problemático.
    Estou consigo... totalmente cúmplice com o
    que transmitiu em intimidade...
    Terno abraço, Amigo.
    ~~~

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  5. Tempos de expectativa... que as suas eloquentes e reflexivas palavras, tão bem nos transmitiram... todos aguardando a tempestade... uns aguardando que chegue... uma grande maioria, ansiando que passe... sem causar dano... enquanto isso... joga-se o dominó da vida... para dar sentido à passagem do tempo...
    Como sempre, um pedaço de escrita absolutamente brilhante... onde um país inteiro, cabe dentro... Parabéns, José Carlos!
    Beijinho!
    Ana

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  6. quase que se vê o cenário.
    melhor assim viver sem apresentar preocupaçao.
    depois logo se vê.
    e nao antecipar aquilo que ninguem quer que venha acontecer
    beijinhos

    :)

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