sexta-feira, 1 de março de 2019

Estilhaços


Nada te obrigará a ler-me, é o que lhe digo, mas não posso, sem remorso, em qualquer parte do mundo, olhar triste, ver os porcos chafurdando no chiqueiro. Qualquer coisa que diga a um deles será tarde. Não me remediaria o silêncio de ontem. Mas ainda hoje me pergunto quantas vezes vi do meu refúgio o abate de um porco? Quantas e quantas vezes! Ainda ouço os gritos de desespero do animal quando a insônia invade minhas madrugadas e, também, ainda vejo a máscara áspera do carrasco. São gritos ouvidos em toda redondeza. E dentro do meu peito. Na garganta a boca seca de sede. E o sangue ainda quente. Sem cartórios, morríamos entre o furor e o porrete do carrasco em plena manhã de cada novo dia. Sem qualquer resíduo lírico, (ninguém lhes dá mais atenção), não posso inventar outra história para aquela dura realidade, embora eu sempre soubesse que a vida não passava de um cálculo aritmético para o bolso do abatedor a cada porco sacrificado (não vi um só absolvido, salvo do abate), chovesse ou fizesse sol na minha infância.

(José Carlos Sant Anna)


8 comentários:

  1. O seu texto lembrou-me a minha infância. Eu agarrada às calças do meu pai, por ouvir os guinchos do porco que estava a ser abatido. E havia festa ao redor deste acontecimento e eu não entendia a razão…
    Que bom ouvir o trompete de Chet Baker!
    Uma boa semana, meu Amigo José Carlos.
    Um beijo.

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  2. JOSÉ CARLOS,
    Que triste isso! Quando éramos crianças acontecia, sim, mas nunca conosco, e jamais presenciei, graças a Deus. Mas nunca esqueci, quando criança, nossa cozinheira pegou uma galinha viva e acabou com ela pelo pescoço, puxou, destroncando. Não como peru no Natal. Quanto à carne de porco não como, sei como eles são afetivos, muito parecidos com os cães. Na verdade de uns anos pra cá resolvi ser vegetariana, mas sei que precisamos de proteína animal.
    Tua maneira de contar comove muito, me alterou um pouco, pois consegui imaginar a cena...
    O vídeo é ótimo! Deu uma leveza.
    Beijo, meu amigo! Um bom restinho de carnaval por ai rss.

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  3. Felizmente, um acontecimento a que nunca assisti... mas cujos sons aflitivos, ainda recordo, nas minhas memórias de infância, na aldeia onde costumava passar as minhas férias de Verão... por ocasião das festas de Agosto... também o mês dos emigrantes, voltarem à sua terra, visitando os seus...
    Um texto de uma riqueza descritiva imensa... que nos permite, quase imaginar a cena...
    Beijinho! Desejando-lhe a continuação de uma excelente semana!...
    Ana

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  4. Caro José Carlos,

    uma orgia de violência essa de matar os coitados dos suínos "à paulada" como aqui se diz. um espectáculo marcante certamente para criança sensível.

    mas sempre te direi que prefiro porco sangrado, com faca, num golpe, direitinha ao coração, do que porco vivo, pois tal porco (matado) não mais pode alcançar o "Triunfo dos Porcos" e tem ainda vantagem suplementar de dar excelente febra grelhada.

    enfim, toma o meu descolorido comentário como um tentativa (mal sucedida) de te reconciliar com teu "Carná", preste a terminar...

    forte abraço

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  5. Voltei à infancia...quando havia isso lá em casa, sempre perto do Natal, eu e as minhas irmãs niguem ficava em casa. Era demasiado violento. Odiei sempre essa "festa" da matança do porco.

    beijinhos

    :(

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  6. A humanidade vai tentando se libertar de crueldades ancestrais...
    Por aqui, é proibido, mas ainda se faz - é tradição - dizem... A verdade é que a vida ainda não passa «de um cálculo aritmético para o bolso do abatedor».
    Vamos evoluindo a passo de caracol... consola pensar que um dia a barbaridade será derrotada e aniquilada.
    O som (exímio) de trompete acompanha bem este grito de revolta.
    Terno abraço, Amigo.
    ~~~

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  7. Em convalescença de infeção e consequente atividade reduzida...
    Beijo.
    ~~~

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  8. Não ha música que nos valha! Ainda hoje a matança do porco leva a grandes festins. E pelo ano fora vamos saboreando iguarias provenientes do referido animal.

    Belo texto, amigo!

    Beijo.

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