quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas




Longe disso. Pedem-me para esquecer o pau de arara, ainda que, como um dos filhos redimidos da tortura, deite-me em chama agarrado ao visco pelo corpo inteiro. Nada. Nada de pipa entre os túmulos esquecidos. Sempre represo a lágrima ardida. E nunca, nunca, diga a essa gente, confessarei, mas admitamos, do modo como vai o pássaro contido em sua recusa, tudo leva às cinzas. E por mais estranho que pareça uma casca não basta se tudo isso apequena o ninho. É como louvar o seu nome no deserto onde arde em meu sangue uma escola de samba. É preciso dizer-lhe ainda nunca será doce a morte dos seus volumosos cabelos no chão desta cidade inumada de mentiras torpes. E pouco importam os castelos orientais, a bandeira branca ou a engrenagem do rolar macio da bicicleta no seu escambo com o vento, eu quero é descer pela via cega deste solo, pátria amada, mãe gentil, ainda que o seu corpo seja um fardo medido! 

(José Carlos Sant Anna)

11 comentários:

  1. Palavras fortes que me perpassaram inúmeros
    sentimentos, desde a revolta, a incredulidade,
    a tristeza, a entrega mas também a esperança
    de voltar um dia a sonhar e acreditar.

    ResponderExcluir
  2. Vim retribuir a visita e me deparo com a força das suas palavras!
    Gratidão por me trazer aqui e me permitir apreciar o seu blog e dom!
    Momento especial em que desfruto também a voz da saudosa Nara Leão!
    Um abraço carinhoso

    ResponderExcluir
  3. Não sei comentar este texto, caro José Carlos

    sei apenas que me doem as palavras fundas em que derramas "lágrimas ardidas" e contigo vibro na dorida evocação "desse solo, pátria amada ..."

    forte abraço, meu amigo

    ResponderExcluir
  4. Voltou a publicar aqui um texto com uma estética exemplar e um imaginário muito singular. Chamou-lhe quarta-feira de cinzas e só me lembro de mim, criança assustada, a quebrar o cristal onde me serviam o medo…
    Uma boa semana, meu Amigo José Carlos.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  5. Imensa é a dor aparentemente contida do que é
    camafulado até Quarta-feira de cinzas...
    Carnaval, para mim, é Brasil... Por solidariedade
    no ano transato não o assinalei, este ano fi-lo do
    modo mais triste possível.
    Aplaudo a intenção do seu brilhante texto, Amigo.
    Abraço grande.
    ~~~~

    ResponderExcluir
  6. já o titulo é forte.
    e as palavras são gritos presos que se soltam para a escrita
    um texto forte além de brilhante
    deixo um abraço

    beijinhos

    :)

    ResponderExcluir
  7. Caro José Carlos no carnaval do nosso dia a dia, entre luxo de muitas Escolas de Samba (Noel Rosa aprovaria?), que sempre lembra Joãozinho 30, que dizia que quem gosta de pobreza é o intelectual, seguimos nossa caminhada na ilusão que sabemos aonde vamos chegar. Sempre o texto instigante, estímulo para pensarmos.
    Ótimo final de semana.
    Grande abraço.
    Pedro

    ResponderExcluir
  8. Olá, professor!
    Pois é lendo seu triste, mas bonito e comovente texto, um tanto sofrido, mas sentimentos posicionados de uma maneira crescente, onde se nota um tico de esperança, que você almeja. Mas quem, amigo, nos disse que estamos aqui para festejarmos sempre a alegria? Sem essa; vivemos momentos, fases alternadas de esperança, de alegria, tristeza e de injustiças, muitas! E como seria diferente esse mundo se seus habitantes fossem normais! Mas o ser humano é assim mesmo, somos a doença do planeta. Onde colocamos a mão, pode sair coisa que preste ou uma demolição.
    Beijo, querido amigo. Escreveu algo triste, mas tudo é aprendizado.

    ResponderExcluir
  9. Texto profundamente dorido. Provoca a reflexão e tem implícita a necessidade de mudança.

    Escrita sempre bela e invulgar, caro amigo José Carlos.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  10. Quando o Carnaval... vira circo... para fazer esquecer realidades inconvenientes... um texto, que revela dor e tristeza, pelo rumo... que esse pássaro tem tomado... mas qual fénix... talvez um dia... renasça das suas próprias cinzas... e possa de novo, voar majestosamente, com brio e orgulho...
    Beijinho! Feliz fim de semana!
    Ana

    ResponderExcluir
  11. "Ainda que seu corpo seja um fardo medido". Basta esta expressão para nos apearmos antes do fim da linha. Se pudermos, se pudéssemos. A ilusão que se desfaz em cinzas no "fim" da cidade.
    Um texto exemplar formalmente, e em significado.
    Abraço.

    ResponderExcluir