quinta-feira, 4 de abril de 2019

Pequena luz


eu não sei, foucault, tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, choro frágil, sem alarde, como um não quer nada e vem sóbrio e simples. acontece por acaso e eu ali, sob a luz amassada da lua minguante, com o último cigarro custando a acender, encostado na mureta da casa vizinha, pasmo, paranoico, com o fósforo à mão, ao vivo, em sua vida, de costas para o vento. vento tão forte, um zéfiro caipira. e os jornais velhos o protegendo. seu corpo magro estremece quando as luzes piscam sobre o palco montado à sua revelia. epidérmica é a minha ajuda no pequeno latifúndio, mas se lê em minha testa, miséria muito próxima. digo por conhecê-la de cor e salteado. e a minha vocação para santo, que não passa de um redemoinho, logo se desfaz. tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, e a primeira coisa que ele aprende é mentir sobre si mesmo. 

(José Carlos Sant Anna)

15 comentários:

  1. Sim, "tem gente que nasce assim, sobre um meio fio, sob uma marquise, em frente à sua janela, choro frágil, sem alarde, como um não quer nada e vem sóbrio e simples."
    E quem dá conta disso espera poder fugir da noite, "de costas para o vento" como se fosse um equívoco fazer um gesto ou partilhar "uma pequena luz"…
    Mais um texto fantástico, meu Amigo José Carlos. Dá gosto lê-lo.
    Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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  2. Achei muito interessante este diálogo com Foucault,
    o que traduz um bom conhecimento do seu interlocutor...
    Destaco: «mas se lê na minha testa, miséria muito
    próxima, digo por conhecê-la... ... »
    «Tem gente que nasce assim»... «Pequena luz»...

    Esta 'fantasia' é de uma sonoridade maravilhosa.

    Grata pelas suas deliciosas partilhas.
    O meu abraço cordial.
    ~~~

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  3. "... seu corpo magro estremece quando as luzes piscam sobre o palco montado à sua revelia. epidérmica..."

    ... e cada imagem se faz presente .

    Gosto da peça inteira.

    Beijo.

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  4. Mais um texto formidável, José Carlos!
    É a tarefa de uma vida... cada um, conformar-se com a sua própria história... e ainda assim, não desistir de um happy end...
    Beijinho! Votos de um bom final de domingo, e uma excelente semana!
    Ana

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  5. quem sabe se "Santo Foulcault", em sua meticulosa obsessão de "vigiar e punir", o pobre caipira "que vem assim como quem não quer nada", afinal não se revela mero "arquivista" das vivências que se realizam noutro lugar? e o caipira, "vivendo embora por metade", não vive com mais autenticidade a pequena "verdade" da metade da sua vida?

    o texto é fabuloso, muito bem estruturado
    de que gostei muito.

    caloroso abraço, caro amigo José Carlos

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  6. Voltei para reler...
    Tenho mais uma homenagem a Sophia.
    Dias de paz, sucesso e contentamento.
    Beijo, Amigo.
    ~~~

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  7. Como eu vejo isso, José Carlos, aliás como vemos! E um constrangimento também surge, estendem a mão, e mais uns metros a mesma coisa. Aliás nossas andanças atuais, nosso andar, por onde quer que vá, se depara com cenas desse diálogo que tão bem criaste e que minha lembrança guarda todas essas mazelas desgraçadas de uma vida que ninguém pediu, mas que estão de baixo de várias marquises. E como não mentir, talvez seja a única maneira de viver.
    Triste, né professor? mas muito real.
    Beijo, meu amigo! Muito belo.

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  8. Uma bela crônica, amigo José Carlos, narrando um momento de miséria sob uma pequena luz, miséria que é nossa conhecida há décadas e décadas. Parabéns!
    Um grande abraço José Carlos.
    Pedro

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  9. Bom dia poeta, vi vc no blog da Majo e vim conhecer seu trabalho.
    Menino "tem gente que nasce assim" e não faz o menor esfoço paa ser difeente, parece que a miséria lhe faaz bem.
    Receba meus aplausos, belo e portento trabalho.

    Abraço!

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  10. pois há gente que nasce assim
    e há vidas que são uma mentira
    e de mentiraem mentira
    onde anda a verdade?
    ou tão somente a realidade.
    gostei muito de ler-te Poeta
    Boa Páscoa
    beijinhos
    :)

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  11. Boa noite José Carlos,
    Vim agradecer sua preciosa visita bem como o instigante comentário, fiquei feliz por suas palavras.

    Vasto e fraterno abraço!

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  12. Passei para cumprimentar e desejar
    dias de paz e harmonia.
    O meu abraço cordial.
    ~~~

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  13. Não consegui chegar aqui a tempo da Páscoa... mas que espero tenha sido passada de uma forma muito feliz, na companhia dos seus, José Carlos!
    Deixo um beijinho e os meus votos de uma feliz semana!
    Ana

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  14. ¡Hola José-Carlos!
    Nos dejas una bonita prosa en una reflexión totalmente cierta que además lo estamos viendo en todas partes las del mundo, los ricos son cada vez más ricos y aumenta la pobreza a paso de gigante y duele, duele el alma puesto que uno se siente indefenso, ayudamos con nuestro granito de arena y no sabemos siquiera si le llegara. Este mundo está loco lleno de egoísmo y corrupción.
    Me ha gustado mucho esta lectura, mi enhorabuena.
    Tardo en pasar porque voy con mucha calma y me van quedando atrás muchos blogs amigo con lectura muy amena y lo siento de verdad.
    Hasta otro momento, amigo.
    Te dejo un besito y se muy, muy feliz.

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  15. Muito belo e texto. Convidativo à introspecção.
    Irremediávelmente, o homem está, permanece, dependurado no pêndulo que oscila a ilusão de eternidade até que cumpre o seu destino: a terra.
    Abraço, Amigo.

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