quarta-feira, 24 de abril de 2019

Travessias I



I

Ofélia estende a mão para colher uma estrela no meio da tarde e esquecer o cansaço, antes de seguir o seu quotidiano no cais do porto, mesmo sabendo que há tardes em que os navios não atracam e as estrelas não ficam visíveis a olho nu. Hoje é uma dessas tardes. E o coração de Ofélia, incansável, no centro da vida, dá imensas voltas. Sandálias franciscanas nos pés, um leve sorriso, ao que vale a pena, pendurado no pescoço, Ofélia, esquiva, perambula, enquanto a noite não pousa sobre a cidade. Varada de solidão, perambula. Faz tempo que descerrou os punhos e descobriu o quanto o açúcar é reconfortante, mesmo fazendo mal à saúde. É o que a faz esquecer o pranto, o grito calado. Quando o céu começa a cobrir-se de um tom avermelhado anunciando o crepúsculo, é a hora em que a pele da noite começa a abrir pacientemente os olhos ejaculando promessas ao entardecer. E isso é tudo para Ofélia.

(José Carlos Sant Anna)

9 comentários:

  1. Oeste seu texto poético me sensibilizou pela beleza, meu Amigo José Carlos.
    E digo: quando a solidão se confunde com o desejo, o entardecer forma ilhas no centro da noite. Os sonhos são, então, um risco inquietante. E só pelo silêncio se conhece a posição das estrelas. Como quem nasce na hora de morrer…
    Obrigada pela sua escrita tão inspiradora.
    Um beijo.

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  2. Muito linda a narrativa, mas triste a história de Ofélia, você preparou o cenário perfeito para contar um pouco do sofrimento dessa mulher, e desse sofrimento, da solidão que ninguém escapa. Uma hora ou outra ele se apresenta...
    Pedacinhos do céu, que piano, meu Deus!
    Beijo, amigo, um ótimo fim de semana!

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  3. e quantas Ofélias existem por esse mundo meu caro e amigo POeta!?
    um texto belissímo e no entanto entoado com mescla de solidão e não só.
    como sempre, adorei
    bom fim de semana
    beijinhos
    :)

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  4. Ser ou não ser Ofélia, eis a questão!...

    a tua Ofélia, porém, meu caro amigo, poderia chamar-se simplesmente Amélia ... e ter olhos doces !...

    belíssimo texto. uma pontinha de amargura, que apenas abona a favor do talentoso escritor.

    grande abraço, caro José Carlos

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  5. Um fio de poesia desenrolado habilmente pelo Poeta num claro e simbólico retrato dma Ofélia que sonha, se abandona e, enfim, se oferece.
    Sem necessidade de retoque, a escrita, talvez a Ofélia no porto beneficiasse...
    Abraço, caro José Carlos Sant'Anna.

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  6. Seus textos perecem escritos em dias de cambraia. Deixam-se trespassar de encanto. E eu fico varada de surpresa.

    Beijos.

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  7. Maravilhosa esta travessia poética... que não me vai escapar!... :-)
    Já a recolhi, no meu caderninho de futuros destaques, por lá no meu canto... antes de prosseguir correndo, neste meu quotidiano diário...
    Passar por aqui... sim... é um tudo!!!
    Adorei este inspirador texto, José Carlos! Beijinho! Feliz semana!
    Ana

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  8. Boa noite José Carlos!
    Sem comentário, belissimo. Que inpiração meu caro.
    Visão linda e no meio a marcante solidão.
    Depois de um tempinho ausente cá estou de volta.
    Uma boa noite e uma excelente semana!
    Abração.

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