terça-feira, 7 de maio de 2019

Anafilático



O táxi andava rápido pela avenida, e eu fingia ignorar o olhar selvagem do motorista pelo retrovisor. Um gosto ácido me subia à boca; absorto, sazonado de desejo, eu ia beijando-a assim mesmo na claridade do sonho que me visita todas as noites. Despertei-me angustiado, cego e por inteiro com as cartas que me meteu em nuvens, como se corresse um rio entre pedras. Estou falando sério. Eu parei de te escrever? E você? Volumosos teus cabelos, tingidos? Também não me escreveu porque suspeitasse de Einstein entre nozes? Acreditei em tudo. Manchas avermelhadas em diversos pontos do meu corpo me deixaram em pânico, aliás, eu não esperava outra coisa depois das cartas. Posso abrir o paletó do meu pijama e você confere se sonho com o etéreo aroma da flor do campo em cada gota que jorra dos seios e dedos desta caliente hora, porque é tudo como se eu pusesse na boca uma rosa em chamas.


(José Carlos Sant Anna).

8 comentários:

  1. Como se"pusesse na boca uma rosa em chama". Às vezes o amor é como um veneno que se entranha no sangue de quem ama e traça sobre o desejo a "claridade do sonho" e de todas as emoções…
    A sua prosa é sempre excelente. E foi maravilhoso ouvir o som de Liszt.
    Um beijo, meu Amigo.

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  2. "Humano, demasiado humano...", caro José Carlos
    que Einstein não é para aqui chamado, mas os insólitos cabelos (pintados)

    ou a ardência das "manchas avermelhadas pelo corpo" - ferrão do desejo a arder como reinventada "rosa em chamas"...

    o texto que te define, (como tantos outros), como enorme escritor
    mas isso tu sabes.

    forte abraço, meu amigo

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  3. Bah, José Carlos... (como diz a gauchada), ouvindo essa belíssima música e lendo sua excelente prosa, e imaginando na boca uma rosa em chama só posso deixar meus parabéns, professor! Você custa a postar, mas vê-se que o texto é pensado, elaborado...
    O piano e Liszt são sensacionais. Estudei piano alguns bons anos, um dos sons mais belos juntamente com o violino.
    Um beijo e uma ótima semana.

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  4. Suas emoções deambulam de forma cativante e nada vulgar nesta caliente hora. E o acompanhamento musical é tão especial!

    Um beijo, José Carlos.

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  5. a rosa em chamas
    ou o desejo feito rosa
    feito chamas a arder na carne viva
    e deixar cicatrizes
    como se tatuagens fossem....

    adorei!

    beijo e bom fim de semana.

    :)

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  6. Não quis manifestar-me...
    Para mim, a serenata é de Schubert...
    Litz apenas fez um arranjo para piano solo.
    Não vejo nenhum drama nesta composição musical.

    Como sempre, um texto, algo enigmático, algo misterioso,
    que obriga a ler nas entrelinhas, cativante por isso.

    Muito preocupada com tão longa ausência, receio muito a
    possibilidade de se encontrar doente.
    Se assim acontecer,
    os meus votos de boa e segura recuperação.
    Abraço cordial.
    ~~~~

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  7. Uma explosão de sensações, num texto, onde a história... não fica toda contada... como a própria vida!... Tal como dizia Pessoa... Who knows what tomorrow brings?...
    Adorei o contraste... entre a calma do vídeo... e o arrebatamento das suas inspiradas palavras, José Carlos! E a vida, também é isso... uma permanente sucessão... de emoções, esperanças, desilusões... ninguém sabe o fim da história... mas ainda assim... sempre se procura, o tal happy end... a cada dia... a cada hora... a cada vida...
    Gostei imenso do conto... que não nos conta tudo!... :-)
    Deixo um beijinho e votos de uma boa semana! Daqui a uns diazitos, estarei de volta!
    Ana

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  8. Não há corticoide que elida a impressão deixada, em poucas linhas. Um impacto agudíssimo na pele. E é deixada imensa margem para a imaginação.
    Uma composição de mestre.
    Muito bom.
    Abraço.

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