quarta-feira, 22 de maio de 2019

O menino viu tudo


Outono. Eu sei que todos o viram com alguma estranheza. No outono é assim mesmo, os dias são mais curtos. E no final da tarde sempre esfria um pouco. O menino não foi o único a ouvir os seus passos. O pássaro de verão passeava nos olhos da moça que passava pelas avenidas centrais da cidade. Tão bonitos aqueles olhos! Ela não se resguardava dos ventos do outono que teciam um cântico de aconchego em seu corpo, levando-a pela mão, com um largo sorriso. Mulher bonita, uma diva, com um vestido branco, sapatos combinando, que deixava os homens, grandes e fortes, uma vida inteira, carentes de aurora. E como se não bastasse, ela ainda carregava, como uma prenda, o cheiro do mar em seu corpo, que exalava um aroma de maresia na roda do mundo. Aquela festa duraria a tarde inteira? E lá vai o menino atrás da moça, que também não era o único, que lavava os corações dos homens, que entortavam a cabeça para vê-la passar com o pássaro de verão nos olhos. Tão bonitos aqueles olhos. Transparente, o céu se derramava sobre os prédios das avenidas por onde ela passava dentro de um envelope azul, envolta em rosas, anjos, anéis, cirandas, com a certeza de que o mundo, de norte ao sul, de leste a oeste, de morro a mar, nunca se acabaria na última ceia. A todos que não a viram, contarei. "Cada um na sua vez, cada qual em seu lugar, que nenhuma ponte se estende em vão", disse-me o menino chamando outros meninos que também testemunharam aquela epifania. 

(José Carlos Sant Anna)

10 comentários:

  1. "Ela não se resguardava dos ventos do outono que teciam um cântico de aconchego em seu corpo, levando-a pela mão"

    a poesia saíu à rua numa tarde de Outono, caro José Carlos.
    como eu invejo essa tarde, meu amigo!

    belíssimo texto.

    caloroso abraço

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  2. Deliciei-me meu amigo. Li e reli. Amei demais. Beijinhos

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  3. Nossa!! Isso se chama, meu amigo, Poesia com classe, com elegância com charme!
    Uma delícia ler!
    Um ótimo fim de semana, merece descansar... rss
    Beijo

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  4. Uma moça com um pássaro de verão a passear-lhe nos olhos e que carregava em seu corpo o cheiro do mar. Uma epifania testemunhada por um menino que nos diz "que nenhuma ponte se estende em vão"...
    Sim, no outono uma mulher pode mudar a paisagem e fazer nascer um poema…
    Maravilhada com o seu texto, meu Amigo.
    Um beijo.

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  5. Há aparições, visões, procissões, efusões que fazem o dia parecer mais belo!

    Abraços.

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  6. Que poesia linda!
    Excelência nas palavras que soam aveludadas e nos fazem ver a menina-mulher passando 'envolta em rosas,anjos, anéis,cirandas...'
    Saudade de ti JCarlos. Muita,sempre!
    meu carinho e abraço

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  7. Muito bela a composição.
    A mim contou o menino: foi o Poeta que deixou o encanto da poesia num passeio que passou numa tarde de Outono, que podia ser agora, ou noutra hora, noutra estação, que o homem tem olhos sedentos de beleza no coração. Toda a vida o pássaro...
    Muito Obrigado, JCS, pela disponibilidade e generosidade expressas nestas epifania.
    Abraço.

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  8. Adorei este Outono... com um aroma de tropicalidade no ar... no rasto da moça... passando... também por aqui, neste texto delicioso... com salpicos de mar e Verão!... E epifanias... que nos vêm recordar... que tudo vale a pena quando a alma não é pequena... bem como a necessidade de apreciar e não abrir mão, de todas as pontes, que vão surgindo em nossos caminhos... a cada instante!
    Um beijinho! E depois de uns dias mais ausente... estou de volta... :-) Feliz e inspirada semana, José Carlos!
    Ana

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  9. Muitos são os que viram a cabeça
    Mas trocam a cabeça pelos pés
    Não sonham nem tocam a moça que passa
    Nem suspeitam da transparência
    Porque vêem só a pressa do fogo:
    Queimam-se, consomem-se, pavios estéreis...

    Excelente, caro José Carlos Sant'Anna.
    Abraço.

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