quinta-feira, 6 de junho de 2019

O sol nosso de cada dia



Sol a pino
inundando a terra
entre formigas e minhocas,
prismática bênção do dia,
estrugido de abandono
banhando a vida enraizada
nas matas de musgos
em que o olho matreiro
dilata-se.

E dilata-se 

pela terra prometida
como se pudéssemos
erguer um alento
pelo que não somos
crescendo para esta luz
que se move 
como todo o ar
pelas coisas inenarráveis.

Dilata-se descaindo sobre a terra
sobre a mão que se alarga
no poema que principia
no limite de cada dia. 

(José Carlos Sant Anna)

6 comentários:

  1. Sensibilidade, meu amigo! Na verdade somos tão pouco, ou quase nada diante da imensidão e da maravilha desse planeta que só pensamos em tirar-lhe, sugar o que aflora. Na verdade, ao ver documentários fico comovida diante de tamanha grandeza e beleza. Mas nós, somos pequenos demais. Isso que digo foi o que teu belo poema inspirou-me.
    Beijo, meu amigo! Um fim de semana lindo.

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  2. Dois poemas muito expressivos, porém, muito diferentes,
    o primeiro romântico e o segundo realista.
    Gostei do seu poema, de facto, a poesia ajuda a suportar
    a vida caótica que os homens criaram neste pobre planeta.

    Sophia de Mello B Andresen escreveu: «A poesia é uma das
    raras atividades humanas que, no tempo actual, tenta
    salvar uma certa espiritualidade.»
    Tenho mais uma homenagem no meu blogue, inserida na
    comemoração o seu centenário.

    Dias inspirados e poéticos.
    Um fim e Outono aconchegante com felizes festas juninas.
    O meu abraço, estimado Amigo.
    ~~~~

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  3. o olho matreiro não tem descanso, caro amigo José Carlos
    e onde tiver espaço ele "dilata-se" e ocupa, sem deixar nada por ocupar...

    salva-nos o "poema que principia/
    no limite de cada dia"

    pela poesia vamos!

    grande abraço, meu amigo

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  4. o olhar do poeta dilata-se "pela terra prometida como se pudéssemos
    erguer um alento pelo que não somos crescendo para esta luz que se move como todo o ar pelas coisas inenarráveis…" Tão belo"! Erguer um alento pelo que não somos, como se acreditássemos em alguma coisa que salve este barro que somos…
    Um beijo, meu Amigo.

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  5. E às vê-se só o olhar de um poeta, descobre o sol... onde às vezes, ele nem existe...
    Que o nosso alento, permita sempre encontrar o sol, tantas vezes ensombrado, debaixo das falsas promessas da vida...
    Um poético e sereno olhar sobre a vida, mas ainda assim sempre orientado para a esperança dos dias luminosos... Gostei imenso, José Carlos!
    Beijinho!
    Ana

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  6. Temos a graça de o ter a Leste
    de cada manhã.
    Na impossibilidade de o manipulármos pecamos
    à medida da nossa ganância:
    "ter mais olhos que barriga".
    Bom trabalho.
    Abraço.

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