segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Desatino


Outro dia, um coração confundido, com ligeireza nas sandálias para arrastar os pés, puxou o gatilho do revólver com rara habilidade, tudo por causa de uma imaginada traição, a corroer-lhe as entranhas, atitude que lhe rendeu, mais tarde, como se não houvesse um corpo estendido no chão, gargalhadas sonoras e divertidas, sobre a lisa florescência da calçada. Não tinha mulher no meio, como se possa imaginar. Tinha grana. Muita grana. A ser repartida ao meio. Coisa que não saía do miolo da sua cabeça, acabando num choro compulsivo e gritado pelas ruas sem saber o caminho a seguir. A cabeça girava, enquanto o revólver na loucura da espessura do dedo no gatilho mantinha a língua acesa.

(José Carlos Sant Anna)


7 comentários:

  1. Este seu conto (Desatino), amigo José Carlos, me agradou muito. Uma leitura agradável, pois para mim o conto não muito longo é a leitura que me dá mais prazer. Li contistas de reconhecido valor como Raquel de Queirós, Camus, Kafka, Hemingway, entre outros, mas mesmo com a inegável qualidade de suas obras, sentia-me incomodado pelos seus contos muito longos. Hemingway e Kafka escreveram também contos curtos. Tenho um livro de Kafka, publicado em Portugal com contos mais econômicos, que são extraordinários. Pulando do conto para a crônica, caro José Carlos, não posso deixar de mencionar Antônio Maria, com suas crônicas sintéticas, mas ótimas. Pois José Carlos Sant’Anna escreveu um conto de excelência (perdoem-me os críticos literários pela intromissão)
    Um grande abraço amigo José Carlos.
    Pedro

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  2. Bá, José Carlos, que belo conto, fui imaginando a cena, que coisa mais insana, na verdade estamos todos apavorados. O medo nos ronda, sei lá a que horas toparemos com uma cena dessas, tão trágica, e com gargalhadas. Qualquer cara feia, cruzando conosco,já imaginamos o pior, embora possa não acontecer.
    Parece-me que estamos fóbicos e neuróticos, mas temos motivos. Onde há grana a coisa piora 1000 vezes. Diminuí minhas excursões pelos noticiosos, conselho da Anvisa.
    Gostei muito, professor, gostoso de ler! E tão real que tomei um Rivotril, rss.
    Beijo, uma ótima semana!

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  3. A sua escrita é sempre de uma estética que apetece ler mais e mais. Mesmo quando o conto narra tiros e mortes e gente enlouquecida e desvairada pelo dinheiro. Coisas que acontecem a toda a hora neste tempo de ganância e desprezo pela vida humana.
    Um beijo, meu Amigo José Carlos

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  4. Tanto desatino neste mundo! Tanta confusão! Tanta ganância! Premiste o gatilho da clarividência.

    Um beijo, José Carlos.

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  5. caro José Carlos

    um texto corrosivo, de uma acidez libertadora, pois amarga que seja a vida. que sobre sempre a lucidez e a capacidade de soltar gostosa gargalhada no rosto das "lisas florescências" que por vezes se atravessam no caminho

    um grande texto e um enorme escritor
    chapeau!

    grande abraço

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  6. JC
    um conto curto e conciso...
    forte mas agradavel de ler...
    beijinhos
    :)

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  7. O mundo, com os seus dramas passionais... em versão concentrada... nesta verdadeira pérola, em forma de prosa!...
    Brilhante, como sempre, José Carlos!
    Beijinho
    Ana

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