terça-feira, 12 de novembro de 2019

Infância



A pelota não rola. E não quica.
E empareda o grupo na terra seca
bucho de galinha enrolado
circularmente
em barbante de padaria

Redonda, provoca nos meninos
palpitação de encantamento
na fadiga depois de pelejar
em festa e dor
no tiro recurvo,
desferido de peito de pé,
de trivela, 
de calcanhar
de tudo quanto é jeito de chutar
para as malhas da rede 
ou pro mato, 
mesmo não sendo campeonato. 

E assim,
me lembro deslumbrado, 
despudoradamente,
que se há de fazer,
do peladeiro no chão de terra batida
da infância idolatrando folhas secas. 

(José Carlos Sant Anna)

9 comentários:

  1. Num poema, sem mais nem menos, surge o passado. E com ele a infância: o lugar de todas as inocências. E uma bola fazendo o encantamento dos meninos. Tantas vezes o único encantamento possível… Gostei muito do poema. E foi um gosto ouvir Gilberto Gil.
    Um grande beijo meu Amigo José Carlos.

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  2. Olá, José Carlos, teu belo poema nos reporta aos anos inocentes, felizes, protegidos e com uma vontade enorme que tínhamos de crescer, ficar adultos, como diziam na época, 'virar gente'! Mas, agora que somos adultos e viramos gente(?) é uma alegria voltarmos à infância! Era muito bom não ter nenhuma ideia como, de fato, eram os adultos, o que faziam, o que sofriam, o que sonhavam. E crescemos, viramos gente e as recordações vem em forma escrita, documentada e poética. Gostei do vídeo. Tudo perfeito!
    Beijo, meu amigo, uma ótima semana.

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  3. um poema que nos reporta à infancia e as memórias que o passado nos deixou.
    tão belo.
    a música muito boa também.
    beijinhos Poeta
    :)

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  4. O encanto e o entusiasmo da infância. Como se a vida se jogasse naquele momento. Há várias palavras que não conhecia e passei a conhecer.
    Lindo este peladeiro!

    Beijos, amigo José Carlos.

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  5. "humano, demasiado humano...", não é verdade, meu caro Poeta!

    e como eram bravas essas "peladinhas", que não contavam para o campeonato, mas que perduram no brilhozinho dos olhos

    e nas cálidas memórias que teu belíssimo poeta desata.

    grande abraço, meu distinto amigo, José Carlos Sant Anna

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  6. Fiquei maravilhado com este blogue e com os poemas que aqui estão expostos. Maravilhosos de ler.
    .
    Um dia feliz

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  7. Como sempre, fico absolutamente rendida à riqueza da sua forma de expressão literária, José Carlos... e à grandiosidade poética, que até os actos mais simples, aqui descritos, passam a confinar...
    Excepcional e admirável!...
    Futebol... um assunto que rola aí, e aqui... nos dias que correm... enquanto se acompanham as últimas proezas do treinador J. Jesus.
    Mais um momento de excelência poética, que por aqui, foi um gosto imenso, saborear!...
    Beijinho
    Ana

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  8. Meu caro amigo José Carlos Sant’Anna este seu excelente poema mexeu com os bons sentimentos, com as boas lembranças que trago comigo da infância e da adolescência, quando minha vida podia ser resumida na bola de futebol, nas peladas de rua e nos campinhos que sempre arranjávamos para os nossos embates futebolísticos. Poema danado, caro José Carlos! Quanta lembrança! Quanta saudade!
    Meus aplausos, poeta.
    Um abraço.

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  9. Brincadeira de poeta-ganapo
    De bola faz poema
    poema de bola. E que bola!
    Criança d'agora não sabe
    nem sonha a metade do jogo...
    O que era fazer bola e baliza
    Já agora, aqueciam-se tardes
    inteiras, até que já noite
    mãe pegava apito:
    exigia regresso a casa

    Gostei de ler.
    Abraço.

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