quarta-feira, 6 de novembro de 2019

João se casou outra vez


Ainda ontem, no velho andar de sempre do antigo casarão, onde rolam as nossas conversas mais triviais, quase sempre regado a um bom vinho e queijos finos, eu soube que João, filho de Madalena e Pedro, dos tempos idos da Ribeira, lá na cidade baixa, contraiu núpcias, quer dizer, no popular, se casou outra vez. Pois é, pasme, meu caro leitor, João encontrou outra moça ajuizada que aceitou o pedido de casamento dele! Ou seja, para João o mundo não mudou; e também não mudamos nós? É o que me pergunto antes que a flauta se cale no casarão. Bem, pelo menos, sem escárnio, João continua o mesmo, não importa quantas primaveras ele carregue nos ombros. E não são poucas, admitamos! Cá pra nós, o cara já está bem maduro, quase quebrando o cabo da Boa Esperança! "E, apesar disso, quantas loucuras, meu Deus – pensei , o cara, por hábito, as comete, num dia sim e no outro também!" Exagero na minha exclamação, eu sei, mas é como se fosse assim mesmo como eu digo, acredite! Eu já perdi as contas neste barco de nuvens construído para que o tempo de vida de João se dissolva em viagens cumpridas por si mesmas. De qualquer modo, é o que lhe digo, quer seja na igreja, quer seja no civil, em suas andanças casamenteiras, João já tirou e botou o anel de compromisso no seu dedo anelar esquerdo doze vezes. Sem contar os casos omissos. Explico-me. Não estão sendo contadas as uniões em que os remos e os rumos foram destroçados antes da consumação, na igreja ou no civil, como os aqui referidos. Parece que João acredita que se casar é um jogo de baralho em que cada um exibe as cartas e ambos se desnudam. E tudo está resolvido no ter-se e dar-se inteiramente. O cara gosta de ser dono e escravo ao mesmo tempo. Ninguém sabe o que ocorre depois da unção do padre, pastor ou juiz de paz. O que se sabe mesmo é que, quando um amor acaba, logo começa outro. Tem uma comichão dentro dele. E não consegue deixar de fazê-lo o quanto antes, se possível. Posso dizê-lo com todas letras. Fui testemunha ocular dessa história nas doze vezes anteriores; conheci as doze noivas, boas moças, por sinal. Todas me chamavam pelo nome quando já vogavam sem porto e com uma esperança fugaz nos mastros. Perdi o mais recente casamento de João, o barqueiro seguiu o curso livre das águas sem lembrar-se de mim na outra margem. Fiquei ruminando o porquê da minha exclusão no rol dos convidados. As fotos das núpcias vieram pelo zap, cumplicidade comigo de um parente muito próximo. João não sabe que eu recebi as fotos. Espero da sua parte a lealdade, meu caro leitor. 
(José Carlos Sant Anna)

8 comentários:

  1. Este é o meu amigo José Carlos Sant’Anna contista. Escreveu desta vez o conto intitulado “João se casou outra vez”. Uma história contada com a mais refinada arte, “com cada coisa em seu lugar”, como diria um dos nossos maiores poetas, Manuel Bandeira. Como eu tenho aquele defeito de indicar um bom livro para quem goste de ler, não hesitaria em dizer que leia: “João se casou outra vez”.
    Uma boa semana amigo José Carlos.
    Grande abraço.

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  2. Meu amigo José Carlos, você escreveu um belo conto, que nos leva a andar com curiosidade, mas de cara eu vi o problema do homem, coitado!
    Você não foi convidado por ser um "pé frio!" Veja só: o camarada casou 12 vezes, você foi convidado nas 12 e todas as vezes não deu certo! Então alguma coisa deu errado!
    Vá lá que o homem continuasse lhe convidando e não parasse mais de casar! rssss
    Adorei ler, rss, fiquei cá rindo da situação. Coisa inusitada!
    Beijo, professor, um feliz dia!

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    1. Minha amiga Tais,
      Talvez você tenha razão, acho que foi o "meu pé frio", rss!
      Mais adiante, você descobrirá que o "cara" "casa, descasa" porque gosta.
      Beijo, Tais, e um bom dia para o casal e amigos!

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  3. Numa escrita como sempre excelente, você nos traz um conto cheio de humor. Há pessoas assim, casam e descasam ao ritmo das estações… Gostei deste seu jeito de contar. "O cara gosta de ser dono e escravo ao mesmo tempo." Uma delícia…
    Um beijo, meu Amigo José Carlos.

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  4. Caro amigo José Carlos,

    foi um prazer viajar, neste "barco de nuvens construído", por conta do João. Já agora trato pelo nome.
    Ele deve achar que a vida é curta demais para não apanhar todos os navios e aportar em novos paraísos, antes que " quebre o cabo da Boa Esperança".
    O conto tem imensa graça. E, mesmo apeado na outra margem, teu relato fez-se ao largo.

    Um abraço.

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  5. esse cara, seu amigo já leva 12 casamentos? de papel assinado e convidados? e mesmo assim sem "contar com os casos omissos"?

    o tipo é um perigo público... a sacar a mulher do próximo! caspité!

    mas por mim, tudo bem - casamento de papel, um chega!
    e, por vezes, até é demais!

    excelente texto, meu amigo!
    ao que parece, a causar borbulhas na margem deste lado rss

    grande abraço, meu Caro José Carlos

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  6. lembra o Jô Soares
    casa descasa...ai eu não caso!
    acho que todos os homens fogem do casamento mas este João, lã terã as suas razões para fazer o oposto.
    uma delícia de conto.
    beijo
    :)

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  7. E como o número 13, normalmente se associa a uma mudança do padrão de sorte... será desta, que João permanecerá casado, até ao fim dos seus dias, com esta última noiva?...
    Conto com a sua lealdade, José Carlos, para não transmitir este meu palpite ao João... para ele não ficar já ciente... do que o espera... finalmente, uma relação estável!... Ele pode não aguentar!... :-)
    Um conto de leitura deliciosa! Adorei! Tal como a interpretação musical acima, de um tema que muito aprecio... mas que apenas o conhecia, na versão de Mike Olfield, enquanto banda sonora, do filme The Killing Fields... e maravilhei-me igualmente, com esta performance musical!
    Sempre profundamente enriquecedor, passar por aqui!...
    Beijinho
    Ana

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