quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Nas mãos de Chico Bobina transborda a taça



            Viver é plantar alegria. Planta-se pela manhã, colhe-se à noite, talvez ao redor de uma fogueira, com a garrafa de vinho girando entre amigos, sorvida pelo gargalo. E ainda que doa, nada se pode contra a luz quando ela não cessa de crescer dentro da gente, como se não houvesse sombras no chão, e a dádiva de se ter a casa no mesmo lugar sempre e, além disso, limpa, tranquila, inocente, tornando o indivíduo mais leve e, nem por isso, menos preocupado com o que acontece à sua volta.
        Pensando nos caminhos de agora, Teresa, mulher de Chico Bobina, encara os novos inquilinos que acabam de se instalar, na praça, bem abaixo da linha de pobreza e da sua janela de gerânios. Já se via, era um casal de ignotos lugares. Não havia pertences, pois, encobertos pelas árvores da praça e do alto do seu bem-estar e conforto não se vislumbrava àquela distância qualquer objeto no chão da praça, mas a postura do casal sobre a grama era de posse a estender seus braços silenciosos pelo vazio como se ali houvesse um monte de brinquedos.
         Na cadência do verbo, acaba é um modo de dizer porque os novos vizinhos se comportam como se fossem, há muito tempo, o dono, sem finos gestos, de um lote na praça e de uma telúrica solidão. 
            Teresa, resiliente aos tentáculos da inércia, tira o casaco — está sempre sentindo frio a mulher de Chico — e nas suas divagações, desde que descobriu o novo inquilino, diz a si mesmo, já sem fingimento, que não sabia que a praça tinha sido loteada. E se pergunta: "será que o novo inquilino está se sentindo à vontade no seu novo endereço, mesmo sabendo que, por detrás de cortinas, persianas, bandós, ele será, noite e dia, vigiado pelos moradores dos prédios que circulam a praça? 
            "E por que ele finca moradia no chão da praça e deixa tantos rastros?" Pondo um céu em meu sorriso isento, pergunto-me reflexivo. "E como serão os humores desse homem ignoto quando, à revelia, ele passa a fazer parte da vida da comunidade deste sítio, que traz o nome de Edvaldo Oliveira, que ninguém sabe quem foi. Como ninguém sabe também quem é o novo morador da praça!", pondero em seguida.
            Por outro lado, Teresa procura, de qualquer modo, agir como se não tivesse acontecido nada, sentindo o gosto de centeio da fatia de pão que levara para comer na varanda, enquanto acompanhava o novo inquilino, de papo pro ar pitando um cigarro em meio ao seu mundo precário como a fumaça que desaparecia embarcando no vento. 

(José Carlos Sant Anna) 

11 comentários:

  1. O rigor e a estética da escrita. "E ainda que doa, nada se pode contra a luz quando ela não cessa de crescer dentro da gente, como se não houvesse sombras no chão…" Tão belo!
    Um texto que mostra a força das imagens. Como num filme. Moldando personagens que tentam compreender quem chega de novo a um lugar que lhes é morada e vivência. Não me fiquei pelo primeiro gesto de observação e leitura. Mas quase pude sentir o gosto de centeio e ver a fumaça levada pelo vento...
    Um beijo, meu Amigo José Carlos.

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  2. Esse teu belo conto me leva rapidinho aos nossos inquilinos do bairro. De baixo de minha janela não, pois moro no 9º andar, ao contrário, tenho uma bela paisagem na frente e na rua arborizada. Porém... tenho variedades quando saio, o brasileiro de um modo geral têm inquilinos a céu aberto, parecem estudantes antigamente acampados, os escoteiros!! É, faz de conta que são escoteiros, meu amigo! Temos de encontrar defesas para o bom entendimento e a solidariedade que prevalecerem. Comidinha eles têm de graça, da vizinhança solidária. Há 2 anos morreu o Gabriel, inquilino há uns 15 anos e que ajudava a todos que precisavam. Figura simpática. Todos aqui sentem falta dele, sabias?
    Gostei de escutar Mercedes.
    Beijos, meu amigo José Carlos, um bom fim de semana chegando em nossos torrões...

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  3. Um conto para se ler deitada numa rede na sacada, enquanto se ouve o barulho da forte chuva que cai, observando os inquilinos do outro lado da rua a enxugarem suas varandas reticentemente gotejadas...
    Parabéns pelo belíssimo e envolvente enredo!

    Ps: Passando para dizer um oi, mas também para... (com muito atraso, pois demorei para conectar-me ao blog) agradecer as palavras de carinho e apoio que me deixaste. Palavras como as suas são sempre imprescindíveis. Muito obrigada, amigo! Vida que segue em paz e serena.

    Forte e saudoso abraço!

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  4. a tua arte de narrar, meu amigo
    pintor de paisagens humanas que nos divertem, por vezes
    e outras nos comovem

    inultrapassável, caro José Carlos.
    gostei muito

    grande abraço

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  5. Um belíssimo texto, que pela sua força descritiva, nos instala no âmago da Teresa... e nos torna testemunhas como ela, da chegada dos novos habitantes, e também juízes da situação... avaliando o perfil dos recém chegados...
    Magnifico trabalho... que uma vez mais... arranca o leitor do seu próprio lugar... e o coloca, onde a acção se passa... e onde mais verdadeiramente se sente... na própria personagem!...
    Notável, como sempre, José Carlos!
    Finalmente passando aqui de novo, após o meu interregno de alguns meses, da Net... sendo um prazer imenso, tornar aos meus cantinhos de eleição... e de profunda inspiração, como este!...
    Um beijinho! Votos de uma feliz e inspirada semana!
    Ana

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  6. Um texto que se lê e relê de bom grado. Começar por plantar alegria aguça-me a leitura e os gerânios à janela também. A vizinhança tem novas curiosidades na paisagem e não são do tipo de que se desfrute. Dá um nó na garganta quando todos os lugares nos pertencem deste modo.
    Gosto muito de passar nas dobras do dia, caro amigo José Carlos.
    Grande sensibilidade!

    Beijos.

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  7. ¡Hola, José-Carlos!

    Qué bello relato nos dejas, amigo: inquilinos como los que describen tus bellas letras, los tenemos en todos partes en este ingrato mundo que nos toca vivir.

    Me encanta eso de sembrar alegría; que también podemos plantarla de noche para recoger de día, me parece fantástico.

    Te dejo mi fraterno abrazo, colmado de paz, amor y bendiciones.

    Se muy, muy feliz.
    Echaba de menos tu espacio. Por cierto me encata el vídeo.


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  8. ler e reler e sabe sempre bem, pois vamos imaginando o cenário e quase que se sente o cheiro e o esvoaçar da fumaça...
    gostei deveras.
    beijinhos amigos
    :)

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  9. Um belo fresco pintado em cautelosas cores, porventura por ser o prólogo de peça ainda a desvendar.
    Mas não houve avareza na narrativa que é pródiga em imagens deliciosamente subtis, deixando ao leitor a liberdade de imaginar.
    Abraço.

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  10. Como já é habitual vir ler o que não li e tentar ver o que não vi,não posso ir embora sem antes deixar meu encantamento com o texto belíssimo, a cena comovente que em algum momento adentra também nossa janela e a sensação de atravessar a rua para entender de perto' 'porque será que alguém finca moradia na praça' assim sem rosto, sem nome, sem importância e calmamente deixa que a fumaça do cigarro desenhe seu destino.
    Encantada com o lirismo e agradecida por ser essa ponte que nos liga a paisagens, pessoas ,sentimentos, braços e abraços.
    Bons dias ,Jcarlos

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    1. Caso queira manter o hábito, pode fazê-lo, Lis!
      Até porque as publicações futuras serão mantidas na gaveta.
      Bons dias para você também.

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