quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Enquanto aguardo a noite de Natal

  


Sairei a passear pelos arredores de Bach,

arrastando pela coleira um pastor alemão a latir em russo ou em polonês,

como sabê-lo?

Se calhar, camarada, deixarei o pastor pelos arredores de Mozart e trarei de lá

um rouxinol

para uma ingênua melodia sentimental, com a devida vênia de Villa-Lobos, enquanto aguardo a sombra de um voo.

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Teu nome é flor

 



Um novembro bem atípico se recolhe entre dardos de sol e esparsas chuvas. E, na aridez das lembranças, para não enlouquecer, ele imagina escrever alguma coisa sobre os tempos bicudos da passagem deste ciclo da vida humana e, depois do apelo aos deuses, pensa em pandorgas, pião, bolas de gude, coqueiros, mares, ondas altas, em qualquer coisa ante a monotonia da escassez de mãos, ombros, braços, ventres, entre outras coisas, que o deixaria em febre alta. Logo os lábios saíram do torpor e se avivaram como se voassem por colinas frescas de onde vinha a neblina, enquanto o dia quente se insuflava açulando o seu corpo em tons vorazes. E com os pés desnudos sentia o aflorado lume das subidas que ardia da sola dos pés aos nervos e, sem se deixar vencer pelas intempéries desse raro novembro – em copas, mas sem as rasantes alegrias de outras primaveras – abafa o grito contido antes que as cortinas se fechem na aragem dos infindáveis dias de novembro, quando, fagueira, ela se mostra inteira. Ali estava ela, era a flor mais alta entre as árvores no cume da subida.


(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Um mal-entendido

Imagem capturada na internet


Para o seu desgosto, o marido ria pelos cantos da boca. À socapa. Ela o conhecia bem, portanto, sabia que aquele riso bem matreiro estava ali escancarado, à sua frente, o que a deixava ainda mais contrariada. Não era para menos. O garçom os surpreendera com uma inesperada reação. Ela ficou sem graça, mãos atadas e a língua presa à garganta, logo ela que não é de deixá-la assim sufocada, na goela. E o marido, embora estivesse constrangido e solidário com a situação, não deixava de achar patético aquele caco na cena do jantar. Por isto, ria fechado em si mesmo. Discreto. Ela que o via de outra maneira. Para ele, a cena fora cômica. Como ele me contou depois.
Empertigados, saíram os dois do hotel para jantar; ela, aproveitando o pulsar do momento, disse:
– Fagundes, que tal irmos novamente à Cantina do Mosquito? 
E, enfiando-lhe a mão por dentro da sua camisa, fez-lhe um carinho discreto no fundo do táxi e, depois, achando que tal atitude a deixava com  “tudo dominado”, arrematou:
– Hoje pedimos um consomê de frango de entrada e um risoto de frutos do mar, lá escolhemos a massa. Era tão fino aquele restaurante, não era, benzinho? – disse-lhe rindo. – Era a "minha cara". Você me disse ontem que gostou, você está lembrado?
Fagundes, autoritário, dominador, fez de conta que a conversa não era com ele. Sorriu rapidamente como se estivesse no teatro assistindo uma comédia onde o riso teria que ser breve para não se perder a próxima cena do espetáculo, e soprou o Mosquito para bem longe com discrição. Afinal, ele já tinha pedido ao taxista para levá-lo a uma casa portuguesa, com certeza, para degustar um bacalhau, pois estava até os gorgomilos de restaurantes italianos. E o taxista, obediente, seguira o roteiro do marido e os deixou no local combinado.
Ela fez uma cara de poucas amigas quando o taxista foi diminuindo a velocidade do seu carro e parou na porta de um restaurante português. Ela ameaçou voltar para o hotel no mesmo táxi, esbravejou, porém o marido, jeitoso, domou a fera momentaneamente. Por fim, contrafeita, ela entrou dizendo-lhe baixinho:
– Isto é lugar que me tragas... Não vês a diferença para a casa italiana de ontem?   
Realmente, o restaurante não tinha a sofisticação da casa italiana, mas era muito aconchegante. O espaço, ela reconheceu lá dentro, era acolhedor. O marido obtivera boas referências. Sentaram-se. O garçom veio servir-lhes, solícito. 
Ele pediu um caldo verde; ela, sopa de ervilhas, de entrada. Aceitaram o vinho do porto de aperitivo e as fatias frescas de pão. E pediram um bacalhau a lagareiro como o prato principal.
Enquanto aguardavam os pratos de entrada, degustavam o vinho e admiravam os detalhes da decoração retrô com galinhos de Barcelos por todos os cantos. Quase perguntaram ao garçom se os proprietários da Casa eram de Barcelos pela abundância de galos decorando o ambiente.
O garçom trouxe duas tigelas fumegantes e se afastou.
Eles comiam e conversavam. Conversavam é modo de dizer. Ela reclamava baixinho da sopa, dizendo-lhe que a carne não era de vaca. 
Desconfiado, o garçom os espionava discretamente um pouco afastado, pois a mulher, volta e meia, mostrava a tigela e dizia para o marido:
– Isso é carne de porco, Fagundes, eu detesto carne de porco, você sabe, não é?
Mesmo mantendo uma distância da mesa do casal, parecia que o garçom entendia tudo, pois, tanta conversa exibindo a tigela era mal sinal; o garçom, olhos atentos, concentrados na entonação de voz dela, procurava fazer uma leitura labial do que ela dizia, por desconfiar de que havia alguma coisa errada naquele reino, que não era o da Dinamarca, pois estava ali muito próximo de si.
Enquanto isso, Fagundes, louco por caldo verde, cuidava de raspar sua tigela com uma fatia de pão.
Intrigado, o garçom não afastava um só instante o olhar da mesa deles, guardando a devida distância, pois não entendia por que, apesar de tudo, ela sorvia a sopa com tanto prazer.
Quando, na tigela, sobraram poucos grãos de ervilha, as tiras de carne e um fio tênue do caldo, ela olhou o garçom disposta a indagar-lhe se era carne de porco. Apenas isso, nada mais, era o que ela queria saber. E fez-lhe um aceno discreto. 
O garçom, experiente, calejado no trabalho, português sem papas na língua, pressentindo com algum equívoco, diga-se, no que dali viria, se dirigiu à mesa disposto a não engolir nada do que a brasileira tivesse a dizer-lhe, e antes mesmo que ela abrisse a boca, ele se antecipou ao discurso da madame dizendo-lhe:
– Minha senhora, depois que bebestes o caldo todo é que tu vens reclamar, ora, faz-me o favor, a senhora não está em sua terra não!
E, sem titubeios, deu meia volta nos calcanhares, e foi apanhar uma bandeja. 
Voltou à mesa e retirou a louça da mesa, sem dar-lhe, outra vez, tempo de dizer-lhe qualquer coisa. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Ilha interior


O mundo visto à sombra das horas desertas não era sequer o imaginado nos olhos adolescentes como se ainda voássemos, tímidos pássaros que éramos, no lombo de burros. Grave alegria em nossa ilha interior. A todo instante chegam postais, dando-nos conta do passado como se nos quisessem dizer: é em vós que o mundo sempre existiu. Porque os postais contam, sem os naufrágios, as histórias dos nossos primeiros passos. E o marulhar das lembranças nos diz tanto de madrugadas nunca esquecidas na escalada das almejadas culminâncias a embriagar-nos, que já não sabemos o que tem atravessado o gargalo das noites de caminhos infinitos. 


(José Carlos Sant Anna) 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Orvalho no olhar


 

Aquele corpo, bem de frente, me olha

tão próximo, cristal de pormenores,

e exala em cristalinas veias o lábio 

a arder em ânsias e fogo e fausto

e vastidão ao descobrir o lugar

em ebulição, novelo desvelado,

aurora do templo único levitado

e sobre a lenha o lume alimentado

no laço do desejo onde o amor

se reinventa e sorve o ardor da sede

ao sabor do sumo que me alaga.

 

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Razão do poema

 

Com todas as letras,

confesso

que me surpreenderia

se não fosse o grito altaneiro

vindo da carne das palavras 

incisivo, penetrante,

e de tantos viços possíveis

que me deixam abismado 

ao sugar a água do meu poço,

ao tirar do fruto o caroço,

ao fincar a unha no meu rosto,

ao afogar o meu espanto

alumbrando o momento

ardente na razão do poema

a haurir o chão da vida

até o pescoço. 


(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Pressentido




a lua se alaga
ávida de estrelas
em espasmo de amor

enquanto a rosa fascinada
do teu corpo
na polpa da minha língua

derrama em lampejo voraz
o teu sumo como um rio
de pétalas em êxtase

a arder de ti a mim 
como se candelabros fossem

sorvendo as colinas frescas
do rio em fogo no púrpuro cais.


(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Bilhete



Tudo era tão perfeito
quando você se aninhava
em meu corpo viajado
para dizer-me quanto era amor
os sonhos e as canções
que nos enleavam em balões de alegria
até que os dias se apagaram
tão de repente pelos caminhos
dos escritos delirantes
e dos labirintos interiores
sem deixar que as labaredas,
as chamas se extinguissem
no mundo de estampas
em que estivemos cativos
sem sombra a separar-nos.

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 25 de julho de 2020

Peregrina



Antes
que julho recuse roteiros
cansados ou se finde na parede
ondula no ar um vozerio
enfatuado a distrair o tédio
e o esquecimento

e os dias em agravo pungente
a mendigar um silêncio luminoso
das cinzas do tempo
esquecem os frutos deteriorados
nas miragens do amanhã

e com o tempo se esgotando
a crueza das tuas sombras
nos caminhos crestada
ao sol implacável de obscuros gestos
sem trair ou subtrair-se

pergunta-nos a cada giro do espelho:
que idade tem a toxina
ao saber que, 
incansável,
ela chegou donzela e neurótica
querendo acariciar a todos
nós!

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ao amanhecer



Ela foi dormir com uma lágrima furtiva. Pelo que se foi era salgada, porém pequenina, embora a tivesse deixado com o coração magoado. E, sob os lençóis, enquanto dormia, em seus sonhos, apareceram e desapareceram mil corcéis pelas extensas planícies dos seus desejos, onde tudo principia, em fogo único, compondo uma água clara, já esquecida do rancor, no apelo de braços abertos. Ao amanhecer, depois dos sonhados caminhos na noite de delírios amorosos, ela se surpreendeu ao ver-se de unhas aparadas, cutículas feitas, enquanto uma traça se escondia entre as dobras do colchão. 
(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 10 de julho de 2020

A seco



“Chove chuva chove sem parar”
Jorge Benjor


A chuva não deu trégua durante a madrugada e ainda corria solta pela manhã, alagando as ruas da cidade, quando a empregada entrou molhada das cabeça aos pés. A água que escorria pelo corpo era tanta que fez, sob os seus pés, uma poça na cozinha. 
A patroa, alheia ao que acontecia lá fora, perguntou-lhe as razões de estar atrasada.
E, sem titubeios, a empregada respondeu:
– Enquanto a senhora se remexia sob os lençóis, eu segurava a onda desse dilúvio pelo caminho...

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Chistoso


Na luz vertical,
doutor Sigmund Freud
com o velho ar blasé 
sem enxergar o próprio ego 
tateia pelo consultório 
procurando 
"na luz difusa do abajur lilás" 
ainda reticente
o corpo da paciente.

Enquanto
no bazar da história, 
os momentos íntimos das coisas 
[só os das coisas]
se confundem
com o café coado 
afogado de pura ciência 
imersos em puro ócio

Vai rolando, rolando
um clima 
na pulsão da tarde fria
em devaneios estranhos 
e no denso perfume das rubiáceas, 

de pince-nez Descartes,
mera figura de retórica,
tomando sol
na varanda do consultório 
de bermuda à Agostinho Carrara 
não está nem aí para a música 
que ecoa no gramofone

São ávidos enredos
na teia que rola 
sobre o divã cor púrpura, 
em que o curvilíneo corpo   
é o objeto à frente do sujeito
inadimplente.

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pra quê?


 Por favor, na paz do meu trote e na sede de ar puro, deixe-me passar, pois, só pra contrariar, vou quebrar regras e rotinas da pandemia pelo gosto do sol, e de ver-te e de pintar um grafite barroco no muro da esquina.
 E eu com isso?
 Sei lá... Deixe-me passar, é o que me basta!
 E depois?... O que farás?
 Como eu sei que é o tempo que voa, eu não tenho pressa até porque o sol já terá inundado meu dia, então, vou devagar com a água feliz do meu corpo ao covil da minha felina. Ansiosa, eu sei, ela estará me espiando da janela com o seu vestido vermelho, pequeno detalhe que me deixa em parafuso e, inteira na intimidade, o infinito principia em sua toca, depois que eu chego. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Maré alta


Em cada nó de marinheiro
uma secreta alquimia
desengrinalda
as ondas,
os sais,
os sargaços,
dessentindo nuvens
e marés
que nos invadem plenamente
sem ter nosso amor
ignorado. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 16 de junho de 2020

Lição de vida



O jumento empacou numa subida íngreme quando passava pela porta de D. Milu. Quando o pai viu a cena, nervoso, gritou pela cerca que atravessava o quintal da vizinha para que o menino o chicoteasse. Aí quem empacou foi a criança. O jumento carregava quatro barricas de água no lombo, com ele na canga, e o pai lhe pedia para chicoteá-lo. Ele não entendeu. E também não obedeceu. 
Eram dois animais empacados. O menino que não sabia como descer do lombo do bicho e abandoná-lo ali mesmo. E o jumento. Ele foi posto na canga pelo pai, logo só poderia descer tirado pelo próprio pai ou por outra pessoa. Era esperar e aguentar no seu lombo o que viria de castigo por não saber puxar o animal. O pai achava que o menino tinha de saber levar o jumento como se fosse da roça. E o menino era da cidade.
Nos olhos do menino o medo. Ele sabia que o pai se fazia respeitar pelo chicote, usando-o por qualquer deslize do filho ou do animal, o que nunca lhe saiu da memória, embora, naquele momento, colocar o burro para subir o barranco em tais circunstâncias era qualquer coisa além da sua compreensão de criança. 
Pior é que o menino só estava no lombo do animal para deixar a mãe livre para a visita do pai. Assim, ocupado com sua mãe, o pai iria demorar. Só muito tempo depois ele veio tirar o menino de cima do bicho e, depois, fazê-lo subir o barranco. Dali mesmo o menino voltou para casa, o pai seguiu seu destino com o jumento.
E muito mais tarde, o menino aprenderia que “jumento não sobe escada”*.  
(José Carlos Sant Anna)

* Adaptação da frase "ademã que vou em frente, cavalo não sobe escada", de Ibrahim Sued, colunista social, do jornal O Globo.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sorrateiro




Depois de extrair
um anacoluto 
da rocha 
deixei-o rolar 
cintilante 
como um papo surreal
de vanguarda
numa esquina paradisíaca
da rua dos prazeres

e, distraído,
como se falasse
ao telefone,
fiz,

(por não encontrar o senhor  
que nos governa
em torno de palavras
vazias), 

um cálculo aritmético 
sobre a argila
de como contrariar regras
para achatar 
a curva da solidão
por meio de oníricos delírios.

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pelas leiras


Sorri o menino

Ainda há pouco
ele estava no mundo da lua

onde renasciam as horas
entre os corpos fustigados
à sombra do capinzal

e só a pele entenderia
as mãos de luar nos cabelos
suspirando amor e sede
antes do mel do prazer

E o desejo salta a porteira,
e passa de mansinho,
e destelha a casa grande.

E livre como veio
acompanha
pelo chão do caminho
a vida ao longo da jornada.

Sorri o menino

Ainda há pouco
ele estava no mundo da lua

E os corpos se encharcam
na passarela dos sentidos,

antes germinam beijos
nas leiras do amor desvairado
na grande sala vazia. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 26 de maio de 2020

Cotidiano



Por quase um nada, o domingo se esvai, é o que digo quando meus olhos se despedem da maçaneta da porta depois de fechá-la esperando que ninguém mais faça batucada em suas folhas querendo entrar para contar as últimas novidades. Da última vez, que isto aconteceu na casa de dona Maricota (por favor, não me digam “que nome estranho!”), depois que ela trancou a porta e conferiu três vezes, como sempre o fazia, ela se sentou para tomar seu café e, sem querer, entornou-o na sua camisola de dormir e ficou muito zangada porque o marido instintivamente fez uma foto do instante e ameaçou colocá-la nas redes, mostrando-a na intimidade. Ela amuou, fez um biquinho de criança contrariada, mesmo sabendo que o marido jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais porque ele sabia, ela não ficaria satisfeita. Neste contratempo, ele encontrou o pretexto para o que tinha em mente desde cedo sem que ela suspeitasse das suas intenções. Assim, para deixá-la com mais pulga atrás da orelha, fazia parte do jogo de sedução, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que ficassem molhados de saliva. Ele sabia, ela não gostava dessa pirraça. Para ela, era pirraça porque todas as manhãs quando ele abria os olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo, então, ele se virava, se encostava e dizia. “Essa poupança me faz dormir de novo, chegue pra cá, antes, umas bombadas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos circulares esfregando, meio lá, meio cá, se me entendem, aquele pedaço de carne na sua bunda, e fazia isto às vezes, lenta e, às vezes, com mais frenesi, e perguntava sempre sorrindo: "me diga, você prefere assim?" Interrompia aqueles movimentos. Olhava pra ela, sorria. E recomeçava com um vai e vem igualmente frenético e perguntava “ou assim?”. E dava-lhe bombadas. E tentava beijar-lhe de boca suja. Ela sorria sem graça, empurrando-o para longe, e dizia-lhe: “Vá escovar os dentes e volte, que eu deixo”. Assim, começava, só de pirraça, a sessão matinal do lambe-lambe. Pois, como eu dizia, com muita força de vontade, ela arrancou os pés das suas mãos, inutilmente porque a salivação foi subindo pelas pernas. Já não era pirraça, ela admitia, subia uma comichão, ela disse depois que não estava morta, por quase nada, revelando certa ligeireza, desprendeu os cabelos e como estava abstêmia, pois fazia um tempo que ela não sabia o que era aquilo pra valer, se entregou. Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia o cheiro da pólvora muito perto, queimando-lhe. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da casa, sentia um tremor nas mãos, enquanto se desembaraçava das vestes com sofreguidão como se ela fosse a protagonista dum filme naquela loucura feliz. Depois do lufa-lufa, ele caiu para o lado, prostrado, sinal de que a surra tinha sido boa e dormiu na mesma hora. E ela esquecera o seu adágio "nunca aos domingos", pois, pela primeira vez na vida, desde a adolescência, sempre detestara os domingos, sobretudo, depois do almoço, aí começara sua via crucis, quando os irmãos, ouvintes das emissoras de rádios, atormentavam-na, ao deixar no máximo volume a transmissão do futebol. Pela primeira vez, depois de anos de casada, Maricota ficou deitada horas sem querer que o domingo acabasse, mesmo que ambos, o marido e o domingo, estivessem pregados ao seu lado.

(José Carlos Sant Anna)