sábado, 1 de fevereiro de 2020

Estudo para flauta e violão


as palavras antigas, além do perfume em hebraico, em luz velada, cantam as horas no casarão vazio; uma ratazana emparedada viaja nos olhos adocicados do peregrino a fabricar a vida em seus calejados pés de um Jeca. e deitado sob a sombra e um verde, parecia num mundo de estampas atirado no sorvedouro da torrente, a se esbater, reagir e afundar; e o perfil de outros animais, tão próximos, hóspedes de longa permanência do coro de outras catedrais, também faziam ruído; e junto aos teus muros e ao teu corpo, um tufão apagou o soluçar de um saxofone límpido. louvações e nuvens de incenso enchiam os aposentos. e seguiam cantando os guizos pela estrada, enquanto o peregrino, quase nulo, à luz de um sol maquiavélico, respira e se enriquece de seiva e mais doçura antes que o rio se integre ao mar. 

(José Carlos Sant Anna)

16 comentários:

  1. Esperanzador y reflexiva tu entrada, José Carlos. Dicen que finalmente todo irá bien, y si no es así, es porque no es el final.

    Mil besitos y feliz febrero.

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  2. Este seu excelente texto tem uma linguagem tão singular que resiste a uma análise que não seja a minha própria leitura. Você, meu Amigo José Carlos é um oficiante da palavra. Tem um jogo de ritmos e imagens e uma articulação da força lírica com a subtileza do que escreve, que dá gosto lê-lo.
    Um beijo.

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  3. Palavras antigas contam histórias antigas.
    Uma poesia feita música, com um som muito bonito.
    Beijos

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  4. Viejas palabras que cantan al sonido dulce del saxofón.... Un placer leerte amigo, saludos.

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  5. Saúdo teu regresso, caro José Carlos.

    um gosto enorme poder continuar a desfrutar dos teus textos a jogarem-se (quase) sempre (em prosa ou em poesia) no limite da significação, que apenas uma sólida "oficina da escrita" permite exercitar.

    e assim se oferecem os teus textos, na suprema arte de seduzir os leitores, tensos e vibrantes, como as cordas de um violão, em mãos exímias.

    grande e fraterno abraço

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  6. Não sou assíduo, sobretudo pontual, mas seja qual for a frequência ou a hora nocturna, diurna, fico de olhos vidrados na elegância da forma jovem e bem conformada, no sumo que se escapa abundante de sua prosa.
    Abraço, Artista da Palavra.

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  7. e depois de todos os detalhes
    as águas
    correm
    sempre para a foz

    assim são as palavras...

    beijinhos

    :)

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  8. Agradeço a interessante leitura do seu texto poético em
    que brilham inusitadas imagens variadas: visuais, mas
    também, auditivas e olfativas.
    Leio a situação de peregrino confrontada com a opulência.

    Gostei muito da canção que não conhecia.
    Continuação de dias muito agradáveis.
    O meu abraço, amigo.
    ~~~~~~

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    1. Majo, minha amiga,

      Obrigado pelo teu passeio e olhar atento.
      A música é muito bonita. Este arranjo está excelente. Trata-se de o quarto movimento – a Tocata – das Bachianas Brasileiras n° 2, de Heitor Villa Lobos (1887-1959). A letra é do escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras Ferreira Gullar (1930-2016). Ferreira Gullar é um pseudônimo de José Ribamar Ferreira. É um dos vencedores do Prêmio Camões, 2010.
      O cantor é músico, arranjador, compositor, maestro, parceiro, dentre outros, de Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Tom Jobim, Francis Hime.
      Abraços, Majo!

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    2. Estava muito longe de perceber que se tratava de canto lírico de alto nível... Entretanto agradou-me sobremodo.
      De Villa Lobos e Ferreira Gullar tenho apenas conhecimentos gerais, o que lamento.
      Agradeço muito a excelente explicação, estimado amigo.
      Abraço da minha melhor cordialidade.
      ~~~~

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  9. Quando as palavras cantam paisagens interiores
    os rios correm como hinos nos dedos do poeta
    Abraço

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  10. E lá vai o trem 'correndo pela serra ao luar'... lindíssimo 'flauta e violão' com Edu Lobo.
    Para o texto,só louvação querido JCarlos.
    abraço e saudade e ti.

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  11. Olá, professor! Que lindo texto sobre as 'andanças de um peregrino', um cenário que você construiu com poesia e cheio de beleza.
    Voltou em grande estilo, José Carlos, que bom, sinto falta dos amigos blogueiros quando se ausentam nas férias!
    Um beijo, até breve!

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  12. Mucha poesía en este texto que invita a ser leído y releído, a degustarlo con calma, saborearlo y decantarlo.

    Un abrazo

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  13. ¡Hola, José-Carlos!

    Veo y leo que cantan tus poéticas letras al son de un instrumento y todo el precioso texto que gira al rededor del peregrino que consigue la gracia de un final fantástico. Gracias por deleitarnos con esta linda poesía.

    Un abrazo, mi gratitud y mi gran estima.
    Se muy, muy feliz.

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  14. A essência da passagem do tempo... e da vida... condensada num pedacinho de texto... onde se conta uma história sem princípio e sem fim... feita de aquis e de agoras... emoções e sensações...
    Absolutamente impressionante, José Carlos! Lendo e relendo... para incredulamente, tentar absorver, como conseguiu mostrar tanto... em pouco mais do que uma dúzia de linhas... Se isto não é arte... não sei o que seja...
    Saindo daqui hoje... em modo de reverência, Mestre!...
    Beijinho
    Ana

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