quinta-feira, 12 de março de 2020

Acasos II


“Qualquer coisa, ligue”. Martelavam as três palavras e a pausa na sua cabeça como se fosse um jogo mais difícil que ler os poemas de João Cabral de Melo Neto. Apagara os vestígios de duas furtivas lágrimas quando notou os olhares transversais e gulosos do garçom a querer adivinhar-lhe os segredos, mesmo sabendo que ela não era uma mulher para o seu bico. E como sabê-lo, se não tentasse, disse o garçom para os seus botões. E ela pedira depressa a conta do cafezinho. Um, dois, três e já. E se levantou rapidamente. Enquanto caminhava devagar pela larga avenida da cidade observando as vitrines, dizia para si mesma “Não há nada mais que eu possa fazer por ele, pobre homem, que me pareceu muito desolado, quando eu lhe disse 'adeus'”. “Ele não entendeu nada, fora um encontro casual, duas semanas intensas, vorazes, fogosas, ele gostou e queria mais, queria ser o meu dono, mas eu nunca lhe dissera que estava disponível para quaisquer outras coisas, além das que fizemos. Fomos a cinema, restaurantes, teatros, e uma curta viagem em um final de semana”. “Compreendera, no entanto, que ele era um animal arisco, capaz de resistir, como o fizera na cama ao deixá-lo sem fôlego", dizia ainda para si mesma, enquanto caminhava por dentro de uma galeria repleta de miudezas importadas. Maquinalmente entoava a música Tatuagem, (Quero ficar no seu corpo/feito tatuagem/que pra é seguir viagem/quando a noite vem) de Chico Buarque de Holanda. E, passo a passo, seguia fascinada como todos os passantes. Entrava por uma quadra e saía pela outra pensando até quando o estar só seria ter uma vida dolorosa, como ele lhe dissera na hora da despedida. Apesar das dúvidas, ela ainda preferia passar as noites ao redor do lago em sua belíssima casa do que perder a sua liberdade. 

(José Carlos Sant Anna)

21 comentários:

  1. Sorrio... Há mesmo quem não perca a liberdade por nada... :-)

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  2. Los intereses de cada uno ocasiona el dolor, en muchas de la ocasiones.

    Un placer leerte y escuchar este tema.

    Mil besitos, José Carlos, y Muy feliz día.

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  3. A construção da liberdade tem custos, oh se tem, mas para certos seres não há outro caminho. É mesmo por ali.
    Bela narrativa, José Carlos.

    Abraço

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  4. A construção da liberdade tem custos, ó se tem, mas para certos seres não há outro caminho. É mesmo por ali.
    Bela narrativa, José Carlos.

    Abraço

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  5. El coste de la libertad también tiene su precio!
    Me encantó.
    Un fuerte abrazo.

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  6. Ah Roberta Sá adorável ! 'minha imperfeição é a voz da vez' JCarlos.
    E feliz quem tem uma belíssima casa do lago.

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  7. Todo tiene su precio. Un gusto leerte, saludos amigo.

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  8. Me quedo impresionada. No hay una frase que no sea bella.

    Me gusta cómo te has metido en la piel de esa mujer.

    Beijo

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  9. Olá, boa tarde!
    Estou voltando aos blogs, após longa ausência.
    Hei-de voltar ao seu!

    Saudações poéticas!

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    1. Bom vê-lo de volta, meu caro amigo Vieira Calado.
      Com acenos benfazejos em tempos difíceis!
      Abraços,

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  10. Texto muito bem escrito que se lê com vontade de saborear cada palavra que traduz em absoluto os momentos vividos.
    Um texto que nos deixa a reflectir, e muito!
    Mas, é muito bom ter a nossa liberdade.
    Gostei como sempre!
    Bom final de semana.
    Beijinhos
    :)

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  11. Ah, pois, caro José Carlos! a liberdade, por vezes, traz amargos de boca! senão mesmo dor de cotovelo...

    mas vale a pena, sempre. o pleno exercício da liberdade.

    excelente texto, como é teu timbre!

    grande abraço, meu amigo

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  12. São as chamadas "relações coloridas" em que as pessoas não abdicam de nada. O amor só tira a liberdade a quem não ama… O seu texto, um primor como era de esperar.
    Um grande beijo.

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  13. Gostei muito do conto, José Carlos, a liberdade é relativa; quando se ama, é ali, ao lado que queremos estar; mas quando não se ama, deve ser tortura, meu amigo!
    Excelente tua criação, não foi dessa vez que a moça quis se amarrar; não foi o suficiente. Quem sabe numa outra vez ela se resolva!
    Beijo, um ótimo fim de semana!

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  14. Olá, como tem passado.
    Estou a regressar aos blos, mas só em vieiracalado-poesia.blogspot.com

    Agora vou ser mais assíduo.

    Saudações poéticas!

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  15. Todo tiene un costo, no podemos tenerlo todo.
    Lo importante es sacar algo positivo de todo lo que nos pasa. ¿no crees?
    Te dejo un abrazo con mucho cariño.

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  16. Fiz um comentário para o poema de José Carlos Sant Anna, na sua penúltima postagem. Como o poeta é múltiplo, venho agora ao seu blog para comentar sobre o seu mais recente conto.
    Acasos II é o título do conto a que fiz alusão. Na medida em que eu lia esse conto também fazia o mesmo trajeto feito pela personagem, desde que ela deixou a cafeteria (onde ficou o garçom de olhos gulosos). O desenrolar da história é para ser lida, o que aconselho a todos os leitores.
    Acho que não preciso dizer que gostei muito do seu conto, caro amigo José Carlos. Parabéns!
    Um bom final de semana, com as apreensões normais pelo Coronavírus.
    Grande abraço.

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  17. Passando para saber de Ti.
    Blogue mais, nos dê esse prazer!
    _ e cuide-se, fique em casa :))

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  18. Andava em liberdade esta senhora da liberdade...

    Já eu andei montando estratégias para desinfetar máscaras, luvas,
    compras, chão, carro...
    Trabalhos que o jovem coroa nos trouxe...
    Só agora está tudo de quarentena, excetuando a minha irmã e marido que são médicos.
    Andei algo ausente... Para si, tudo pelo melhor.
    Beijinho, amigo.
    ~~~~

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  19. Relações, que de tão passageiras... parecem quase imaginárias... mas que reflectem muito da actualidade, das envolvências "modernas"...
    Gostei imenso, que neste belíssimo universo, em prosa poética... fosse a mulher, a agir como o homem... com uma inquestionável opção de escolha... que pôs em prática... sem pensar duas vezes...
    E por aqui... o talento... não é mesmo obra de acasos... é mesmo recorrente!... :-))
    Beijinho
    Ana

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