segunda-feira, 2 de março de 2020

Por muito pouco



a esmo, 
num outeiro, 
ele cavou vagarosamente 
um buraco bem fundo, 
de feitio perfeito, 
em busca de uma dissimulada flor branca, 
enraizada por mãos secas, 
porém hábeis. 

depois 
dissimuladamente 
pensou quanto renderia, 
se achada, 
aquela flor em sua peregrinação, 
e quão serena é essa gente 
que cava em topo de monte um buraco, 
de feitio perfeito, já se disse, 
para corrigir a falha de um olho, 
drenando partículas, 
sem que o céu tenazmente 
pudesse vê-las orladas de nuvens, 
que se estendessem por debaixo do sol. 

depois girou a cabeça 
insensivelmente 
revelando intimidade maior com a dor, 
e o tronco abatido mas altivo, 
rua de mão única, 
manto de cal, 
adernou sobre as mãos crispadas, 
gelatinosas, 
testamento por fazer, 
sem que desabasse inteiramente. 

desde a eternidade 
essa gente 
vive à sombra, 
entre o clarão do outeiro e um bando de gentios, 
numa adoração 
que não é de anjo, e sim de papa defuntos. 

(José Carlos Sant Anna)

18 comentários:

  1. Percibo una despedida, amigo mío. Aquella donde el adiós no está disfrazado con un hasta luego.

    Bello y sentido poema.

    Mil besitos con cariño y feliz día.

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  2. Siento que hablas de fe, más bien de la necesidad de creer.

    Unha aperta

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  3. Um belo poema, triste, parece-me. O ser humano, ao longo da existência tem lidado com a morte de diferentes formas o que se reflete ainda nos nossos dias.

    Um abraço e tudo de bom, a vida nem sempre é fácil

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  4. Por mais buracos que se cavem, não há flores na escuridão. Apenas refúgios.

    Abraço, meu caro José Carlos

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  5. Como se pétalas brancas sobrevoassem os verdadeiros motivos do poema…
    Um beijo meu Amigo José Carlos.

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  6. Não há morte nem princípio
    tudo se move

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  7. Siento este poema muy triste!
    Un fuerte abrazo.

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  8. Bah... que triste, fico a imaginar quando se chega no topo, no fim da estrada. O último verso, meu amigo...
    Você, escreveu sobre a única grande certeza da vida.
    Muito profundo!
    Beijo, meu amigo, uma semana leve.

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  9. Aveces cavamos un hoyo para enterrar nuestra desdicha y encontramos nuestras raíces que nos dan fuerza para soportar el dolor..... Saludos amigo.

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  10. ele, todos, a gente cava
    cuidando que a flor salva

    Abraço.

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  11. Gostei muito do seu “Por muito pouco”, um poema denso e profundo a pedir do leitor mais de uma leitura, com a necessária atenção a cada um de seus versos para que possa tirar o sumo das palavras, pois há no poema uma clara e importante mensagem. Há que se ler o poema como quem procura encontrar a alma do poeta.

    Um abraço ao caro amigo José Carlos Sant’Anna.

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  12. nem toda a gente cava! já foi dito aí em cima...
    acrescento que nos buracos perfeitos não há mais flores imaculadas.
    nem muito menos anjos.

    que aliás os próprios defuntos rejeitam!

    em grande forma, Poeta.
    grande abraço, caro amigo José Carlos.

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  13. onde se lê "os próprios defuntos", deve ler-se "os próprios mortos-vivos".

    abraço

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  14. 'uma flor em peregrinação' será quanto renderia achá-la?
    De difícil interpretação esse poeta ... rs
    e pra quê querer entende-lo? melhor senti-lo.
    beijinho e bom domingo

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  15. Como se as flores fossem a solução ou quicá o perdão

    pertinente e denso poema ...

    beijo Poeta

    :)

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  16. Y en ese testamento, ¿me dejarías esa flor?
    Un abrazo.

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  17. Se só as flores se salvam... achar flor assim, seria como conseguir a redenção...
    Um texto de difícil interpretação sobre estas flores de peregrinação... celebrando recomeços... pois não será a morte um recomeço, em qualquer outro lado?...
    Um verdadeiro enigma, para decifrar neste inspirado momento poético... que não se deixa ver... mas apenas adivinhar...
    Beijinhos
    Ana

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