domingo, 19 de abril de 2020

Casa antiga



Mesmo sem cisco
meus olhos amanheceram 
vazados, 

gotejando retalhos 
da tua sombra pelo caminho

mais um dia 
em que as horas  
se prolongam crestadas!

Só o bailado leve das avencas
em meu abstrato jardim

À espera de que este hiato 
derrube os muros do tempo 
para não enferrujar a saudade! 

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sem nada dizer



Carlos, os olhos pregados na estrada, quase não disse nada pelo caminho, acomodando-se, como podia, no banco do motorista aos solavancos na pista esburacada. Ligeiramente atordoados, estavam os dois, ali, no fim de um mundo, e os tombos, jogando-os de um lado para o outro. Tudo o que queriam era comprar móveis antigos ou usados para mobiliar o apartamento que acabaram de alugar. Estavam dispostos a juntar os trapos. Era o que bastava. Por quanto tempo os trapos ficariam juntos ainda não faziam a menor ideia. É a lei do amor. Nunca, nunca se  sabe quanto tempo o amor pode durar. Como se não houvesse a dor, o sofrer, o chorar! E se não os houvesse? “Melhor era tudo se acabar”, canta Vinicius de Moraes. Canta, canta, minha gente! Uma eternidade, é o que dizem os sonhadores...
Beatriz arriou as malas num canto do quarto e lhe disse com voz dengosa:
– Um antiquário poderia resolver nosso problema, meu querido! O que você acha?
– Você tem razão. Mas agora estou muito suado, baby. Vou tomar um banho, você vem comigo?
Olhando-o por cima dos ombros, começou a despojar-se das poucas vestes como resposta. Mesmo sem música ambiente, ela mandou ver no striptease, o que ainda não tinha sido feito, mas Carlos precisava conhecer todos seus dotes. Este era um deles. Tinha chegado a hora. A blusa voou rapidinho sobre a sua cabeça. Como um bólido. E o corpo de Beatriz fazia malabarismos sensuais, provocativos; a saia caiu como se fosse uma lona de circo, e o sutiã, jogado no seu rosto, lhe tirou a respiração. Depois enroscava-se no que parecia um pole dance no meio da sala apenas de calcinha. A gata era uma fera, uma exímia dançarina, e ele ainda não sabia disso. Carlos não despregou os olhos, excitado. Ela piscou e entrou no banheiro na sua frente. Ele já a encontrou ensaboada. Carlos saiu do banho cansado, o espaço fora pequeno para a performance que ele não imaginara.
Atentos, os vendedores se inquietam esfregando as mãos quando eles param ruidosamente a caminhonete na porta do antiquário. Eles saltam. A primeira coisa que ele vê foi um bar do outro lado da rua. A visão o alegrou porque, além de seco por dentro, o sol tinha lhe fustigado a caminho do antiquário. Carlos atravessou a rua, entrou no bar e se sentou.
– Oh, disse ela! Você tem que vir aqui antes de olhar o antiquário?
– O antiquário pode esperar, baby. Ele não vai sair dali. Sem refrescar-me convenientemente eu não sou um homem completo.
– Eu já sabia que você ia terminar, aqui, num bar, o antiquário foi apenas um pretexto para ganhar a rua.
– Venha cá, baby, tenho que lhe contar uma coisa...
– Não, não quero saber de nada, você prometeu que pelo menos compraria uma cama.
– Vai lá, escolhe um colchão, uma cama e um fogão... sabe, minha baby, quem tem um banheiro como o que a gente tem lá no apartamento não precisa de cama, faremos sempre bem durante a ducha – disse-lhe com um riso debochado.
Quase uma hora depois, Carlos atravessou a rua de volta. Os objetos comprados já se equilibravam na caminhonete amarrados com um cordão de náilon. O vendedor, rosto afável, simpático, aguardava o cartão de crédito para bater o martelo inteiramente. 
Devolvido o cartão, Carlos a pegou pela cintura, grudando o seu corpo ao dela e, lascivamente, beijou-lhe o pescoço, lambendo-o até  o lóbulo da orelha, e disse-lhe murmurando:
– Vamos fazer o caminho de volta, baby?

(José Carlos Sant Anna)

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A lagarta


ficar adormecido em um sonho bom e puro, é ver-te, quedando-se esquecida de si mesma, degustar o seu lauto café da manhã. Sem nenhum barulho. e temerosas, as folhas se aconchegando uma a uma. e ver ainda muito mais sulcado o caule porque os dedos também não puderam reter a água a deslizar em correnteza; ficar sem perder a perspectiva, é ver erguer-se a luz do sol em tudo; é ver espalhar-se o discurso, às vezes, vigoroso, do vento pela extensa planície em quietude; e ver também um bando alado beber a seiva e roubar os frutos das árvores, tornando mais leve o ar que se respira. e esta expectativa, que paira silenciosa, acende dentro de mim uma luz na pandemia. 

(José Carlos Sant Anna)