sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sem nada dizer



Carlos, os olhos pregados na estrada, quase não disse nada pelo caminho, acomodando-se, como podia, no banco do motorista aos solavancos na pista esburacada. Ligeiramente atordoados, estavam os dois, ali, no fim de um mundo, e os tombos, jogando-os de um lado para o outro. Tudo o que queriam era comprar móveis antigos ou usados para mobiliar o apartamento que acabaram de alugar. Estavam dispostos a juntar os trapos. Era o que bastava. Por quanto tempo os trapos ficariam juntos ainda não faziam a menor ideia. É a lei do amor. Nunca, nunca se  sabe quanto tempo o amor pode durar. Como se não houvesse a dor, o sofrer, o chorar! E se não os houvesse? “Melhor era tudo se acabar”, canta Vinicius de Moraes. Canta, canta, minha gente! Uma eternidade, é o que dizem os sonhadores...
Beatriz arriou as malas num canto do quarto e lhe disse com voz dengosa:
– Um antiquário poderia resolver nosso problema, meu querido! O que você acha?
– Você tem razão. Mas agora estou muito suado, baby. Vou tomar um banho, você vem comigo?
Olhando-o por cima dos ombros, começou a despojar-se das poucas vestes como resposta. Mesmo sem música ambiente, ela mandou ver no striptease, o que ainda não tinha sido feito, mas Carlos precisava conhecer todos seus dotes. Este era um deles. Tinha chegado a hora. A blusa voou rapidinho sobre a sua cabeça. Como um bólido. E o corpo de Beatriz fazia malabarismos sensuais, provocativos; a saia caiu como se fosse uma lona de circo, e o sutiã, jogado no seu rosto, lhe tirou a respiração. Depois enroscava-se no que parecia um pole dance no meio da sala apenas de calcinha. A gata era uma fera, uma exímia dançarina, e ele ainda não sabia disso. Carlos não despregou os olhos, excitado. Ela piscou e entrou no banheiro na sua frente. Ele já a encontrou ensaboada. Carlos saiu do banho cansado, o espaço fora pequeno para a performance que ele não imaginara.
Atentos, os vendedores se inquietam esfregando as mãos quando eles param ruidosamente a caminhonete na porta do antiquário. Eles saltam. A primeira coisa que ele vê foi um bar do outro lado da rua. A visão o alegrou porque, além de seco por dentro, o sol tinha lhe fustigado a caminho do antiquário. Carlos atravessou a rua, entrou no bar e se sentou.
– Oh, disse ela! Você tem que vir aqui antes de olhar o antiquário?
– O antiquário pode esperar, baby. Ele não vai sair dali. Sem refrescar-me convenientemente eu não sou um homem completo.
– Eu já sabia que você ia terminar, aqui, num bar, o antiquário foi apenas um pretexto para ganhar a rua.
– Venha cá, baby, tenho que lhe contar uma coisa...
– Não, não quero saber de nada, você prometeu que pelo menos compraria uma cama.
– Vai lá, escolhe um colchão, uma cama e um fogão... sabe, minha baby, quem tem um banheiro como o que a gente tem lá no apartamento não precisa de cama, faremos sempre bem durante a ducha – disse-lhe com um riso debochado.
Quase uma hora depois, Carlos atravessou a rua de volta. Os objetos comprados já se equilibravam na caminhonete amarrados com um cordão de náilon. O vendedor, rosto afável, simpático, aguardava o cartão de crédito para bater o martelo inteiramente. 
Devolvido o cartão, Carlos a pegou pela cintura, grudando o seu corpo ao dela e, lascivamente, beijou-lhe o pescoço, lambendo-o até  o lóbulo da orelha, e disse-lhe murmurando:
– Vamos fazer o caminho de volta, baby?

(José Carlos Sant Anna)

20 comentários:

  1. Y finalmente Carlos se salió con la suya y evitó hacer las compras, jajaja. Que tenga cuidado que con esa gata, que seguro que puede ser fiera de muchas maneras, jajajaja.

    Nunca sabemos cuánto durará un amor. Por eso lo mejor es vivir cada instante como si fuera eterno, ¿no es acaso eterno si lo vivimos como si fuera el primero y último a la vez?

    Casi no tuve que usar el traductor. Estoy contenta por eso.

    Beijos, muitos

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  2. Esta canción (no lo sabes, pero está llena de recuerdos para mí) se presta para un striptease (jajaja)

    Mais beijos

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  3. " O amor é eterno enquanto dura "". É essa a lei da vida.

    Decerto que a Estória não se passou nos dias de hoje. Caso se passasse ele não a poderia beijar, e muito menos lamber-lhe, o lóbulo da orelha, loool
    .
    Desejando uma Páscoa muito Feliz
    ( tanto quanto possível )

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  4. Mientras dure el amor, hay que vivirlo intensamente como el primer día y no dejar que se apague la llama.
    Un fuerte abrazo cariñoso.

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  5. Um conto bem ao seu estilo.
    Prende logoo leitor, uerendo ler mais.
    Ai, acho que Carlos nao vai auguentar esse amor por muito tempo, mas dure o que durar, pois o amor é para sempre, embora às vezes não seja.
    Aproveito e desejo uma Páscoa Feliz, dentro das circunstâncias (em quarentena)
    Beijinhos
    :)

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  6. Volvamos bebé, la ducha nos está esperando 😉
    Un abrazo.

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  7. Empiezo por la canción porque la he estado escuchando mientras te leía, además de que es uno de los temas que más me gusta de Nina. He disfrutado de este relato lleno de sensualidad, juego, de esa chispa que enciende en un momento y sobre todo... de la complicidad que existe cuando hay sentimientos y no importa el dónde ni el cuando... porque se tienen aun sin muebles.

    Mil besitos y muy feliz tarde, José Carlos.

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  8. José Carlos, meu caro amigo

    juraria que já vi filme em algum lado! rss
    não poderei precisar se a actriz seria a mesma. mas a cena do soutien é o máximo. quem esqueceria?

    e posso ainda garantir que o "realizador", quer dizer, o escritor
    não chegava aos teus calcanhares.

    excelente inventiva
    excelente escrita

    enorme teu talento.

    grande abraço, meu ilustre amigo

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  9. Meu amigo J.Carlos, que conto bem escrito, sim, prende, nos leva até o fim, vamos indo para ver o que acontece, o desfecho!
    O cenário muito bem preparado, as 'conversitas', também. Gostei do papo do antiquário e do boteco, deu uma espraiada boa para voltar a amarrar.
    E claro, aí vem Vinícius, não poderia deixar de estar presente com seu soneto da fidelidade:

    "Que não seja imortal, posto que é chama
    Mas que seja infinito enquanto dure."

    Muito bom, professor, gostei muito e muito!
    Beijo, e cuide-se, nós também estamos em 'casa'.

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  10. El amor aveces se va muy pronto. Saludos amigo.

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  11. Claro que gostei deste seu conto, assim natural, despido de falsas "moralidades". Um filme que a imaginação captou de imediato.
    Que talento, o seu, meu Amigo José Carlos. Quando o comecei a ler também me lembrei do Vinícius. E adorei ouvir a Nina Simone.
    Uma boa semana com os cuidados necessários.
    Um beijo.

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  12. Não conhecia esta voz.
    Obrigado!

    abç!

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  13. _como assim,bebê ? nada de beijinhos no pescoço rsrs
    só serve para inflamar, em tempos de seca :))
    mui belo sua escrita Jcarlos
    e o bom caminho é haver volta_ que haja sempre uma boa ducha rs
    abraços e abraços

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  14. Nunca o tinha lido neste género, pelo que, não tenho a certeza se o 'baby' pertence à qualificação do lado satírico da personagem que preferiu o bar e ignorou o antiquário...
    Presumo que sim e, partindo deste princípio, achei o episódio interessante e o texto ótimo.
    Dias bons de confinamento bem aproveitado.
    Beijinho, José Carlos
    ~~~~

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  15. Caro amigo José Carlos Sant Anna li o seu conto num fôlego só, sem piscar. Então me veio a contos e contos e dos nossos grandes escritores, autor de ótimos romances, contos e crônicas: Rubem Fonseca, que nos deixou esta semana.

    Um grande abraço amigo José Carlos.

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  16. Recorte de vida como quem tropeça nela, sem programação. O movimento e o encanto da narrativa prendem, como uma curta metragem bem conseguida.

    Um abraço, amigo José Carlos.

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  17. A bela voz de Nina de Nina Simone dá bom ritmo à narrativa.

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  18. Antiquário, ma non troppo.
    Em grande, José Carlos!

    Grande abraço

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  19. Adorei este happy end!... Surpreendente! Confesso que não estava à espera... neste nosso mundo tão imprevisível e dramático, hoje em dia... tantos amores acabam, mal tendo tido tempo de começarem...
    Como sempre, uma narrativa formidável... que se devora com gosto!...
    Adorei cada palavra! Beijinhos, José Carlos!
    Ana

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