terça-feira, 26 de maio de 2020

Cotidiano



Por quase um nada, o domingo se esvai, é o que digo quando meus olhos se despedem da maçaneta da porta depois de fechá-la esperando que ninguém mais faça batucada em suas folhas querendo entrar para contar as últimas novidades. Da última vez, que isto aconteceu na casa de dona Maricota (por favor, não me digam “que nome estranho!”), depois que ela trancou a porta e conferiu três vezes, como sempre o fazia, ela se sentou para tomar seu café e, sem querer, entornou-o na sua camisola de dormir e ficou muito zangada porque o marido instintivamente fez uma foto do instante e ameaçou colocá-la nas redes, mostrando-a na intimidade. Ela amuou, fez um biquinho de criança contrariada, mesmo sabendo que o marido jamais divulgaria sua foto pelas redes sociais porque ele sabia, ela não ficaria satisfeita. Neste contratempo, ele encontrou o pretexto para o que tinha em mente desde cedo sem que ela suspeitasse das suas intenções. Assim, para deixá-la com mais pulga atrás da orelha, fazia parte do jogo de sedução, ele se ajoelhou e beijou os dedos dos seus pés até que ficassem molhados de saliva. Ele sabia, ela não gostava dessa pirraça. Para ela, era pirraça porque todas as manhãs quando ele abria os olhos, ela já estava acordada fazia um bom tempo, então, ele se virava, se encostava e dizia. “Essa poupança me faz dormir de novo, chegue pra cá, antes, umas bombadas vão lhe fazer bem”. E fazia movimentos circulares esfregando, meio lá, meio cá, se me entendem, aquele pedaço de carne na sua bunda, e fazia isto às vezes, lenta e, às vezes, com mais frenesi, e perguntava sempre sorrindo: "me diga, você prefere assim?" Interrompia aqueles movimentos. Olhava pra ela, sorria. E recomeçava com um vai e vem igualmente frenético e perguntava “ou assim?”. E dava-lhe bombadas. E tentava beijar-lhe de boca suja. Ela sorria sem graça, empurrando-o para longe, e dizia-lhe: “Vá escovar os dentes e volte, que eu deixo”. Assim, começava, só de pirraça, a sessão matinal do lambe-lambe. Pois, como eu dizia, com muita força de vontade, ela arrancou os pés das suas mãos, inutilmente porque a salivação foi subindo pelas pernas. Já não era pirraça, ela admitia, subia uma comichão, ela disse depois que não estava morta, por quase nada, revelando certa ligeireza, desprendeu os cabelos e como estava abstêmia, pois fazia um tempo que ela não sabia o que era aquilo pra valer, se entregou. Sentia que era alguém com a obrigação de renascer, de respirar de novo a frescura do prazer, sentir a carne e as veias que latejavam. Sentia o cheiro da pólvora muito perto, queimando-lhe. Enquanto um pé da sandália ficava no corredor da casa, sentia um tremor nas mãos, enquanto se desembaraçava das vestes com sofreguidão como se ela fosse a protagonista dum filme naquela loucura feliz. Depois do lufa-lufa, ele caiu para o lado, prostrado, sinal de que a surra tinha sido boa e dormiu na mesma hora. E ela esquecera o seu adágio "nunca aos domingos", pois, pela primeira vez na vida, desde a adolescência, sempre detestara os domingos, sobretudo, depois do almoço, aí começara sua via crucis, quando os irmãos, ouvintes das emissoras de rádios, atormentavam-na, ao deixar no máximo volume a transmissão do futebol. Pela primeira vez, depois de anos de casada, Maricota ficou deitada horas sem querer que o domingo acabasse, mesmo que ambos, o marido e o domingo, estivessem pregados ao seu lado.

(José Carlos Sant Anna)

20 comentários:

  1. E houve ou não, bombadas?
    .
    Cumprimentos
    Cuide-se

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  2. Bom dia José Carlos,

    Gostei de ler sobre esse rola, rola, Ele foi bem habilidoso no quesito sedução, li num fôlego só, achei envolvente e elegante, sem apelação pornô.

    Obrigada por comentar lá no meu blog.

    Feliz semana com novas inspirações e ardências.
    Abraços!

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  3. Hay domingos que se salen de la norma y entonces toman ese cariz interesante y atrayente como tu relato, mi buen amigo.

    Un placer leerte en esta tarde.

    Mil besitos para ti y feliz semana.

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  4. Nunca es tarde para recordar que estamos vivos, sobre todo si es la piel y el placer los que sirven de recordatorio. Los domingos, y cualquier otro día, puede resignificarse con el cómplice adecuado.
    Y siempre es bueno ir chequeando de que vamos por el buen camino. ¿Es así? es una pregunta que puede guiarnos, puede ser una muestra de que nos importa lo que quiere el otro y puede ser también una señal, sugerente y seductora... ¿Es así?

    El relato me parece enternecedor, provocativo y sugerente. Y muy bien hilado

    Beijos, muitos

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  5. Y fue un Domingo de seducción y pasión. Bello y sensual poema. Saludos.

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  6. Um relato muito sugestivo que nos lembra a nossa "responsabilidade" de sermos felizes e a certeza de que, por dentro de tudo o que fazemos, o mais importante é o amor…
    Um beijo meu Amigo José Carlos.

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  7. Um domingo louvado, de autêntico culto. :)
    Excelente prosa, José Carlos.

    Grande abraço

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  8. JCarlos

    só mesmo você para descrever a cena desta maneira tão sua, tão engraçada e com tanta criatividade que acabei sorrindo.
    e sabe, acho que D.Maricota nunca mais vai esquecer esse domingo que é o Dia do Senhor e de ir à missa.
    Cuide-se meu caro amigo.
    beijinhos
    :)

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  9. Pues a mi siempre me encantaron los domingos... 😉
    Creo que es mi día preferido de la semana (para todo).
    Besos

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  10. Tua forma de escrever é envolvente. E as pitadas de humor acrescentam sedução. Lá se foi a pandemia!

    Beijos, meu amigo José Carlos.

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  11. Bom dia amigo José Carlos,

    Passei para agradecer sua mensagem de felicitações pelo meu dia de ontem]
    Abraços e bom fim semana que se aproxima.

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  12. rss, muito bem narrada e com humor essa sua narrativa. Tenho em comum com a dna. Maricota o fato de não gostar de domingo, eta dia bem chatinho. Também o lance da porta, meu amigo, fechei ou não fechei? Até eu não me aguento com as trancas. Ademais, lembrei do nosso consagrado Nelson Rodrigues, era também picante e contava tudo da vida desnuda, assim como ela é. Você é muito bom, José Carlos, a narrativa nada apelativa, contou com classe.
    Beijo, um bom fim de semana, "em casa", e que não tem mais diferença!

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  13. texto fulgurante
    um verdadeiro festival da escrita, caro José Carlos!

    agarras, por pirraça, está bem de ver, um Domingo (sem missa rss), entediante e mole, para dele fazeres uma Festa!metes lá dentro um casal de meia idade, qual casal peixinhos no aquário (muito feliz rss), e seguras o leitor pelo gasganete e não mais o largas e o obrigas a ser teu cúmplice nessa liturgia de pequenas crueldades e transgressões benignas de que és inspirado artífice e narrador exímio.

    chapeau, meu caro amigo.
    excelente!

    fraterno abraço



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  14. Caro José Carlos Sant’Anna este seu conto, “Cotidiano”, foi escrito com tal maestria que nos colocou, leitores que somos, diante de uma realidade do cotidiano desse casal deste tempo da Internet, com as suas intimidades, com a dona Maricota tendo que administrar certos avanços do marido danado. Um conto moderno que leva o leitor a saborear os acontecimentos na casa da dona Maricota. Parabéns!

    Um bom final de semana, amigo José Carlos.

    Grande abraço.

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  15. Muy bueno me gustó tu blog te sigo.

    Besos al alma.

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  16. A intimidade de um casal bem maduro, sem metáforas e sem eufemismos...

    O bom humor é precioso nos dias que correm...

    Dias agradáveis num Junho que desejamos auspicioso...

    Abraço, amigo Carlos.
    ~~~

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  17. Paso a dejarte mis saludos. Cuidate.

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  18. Bom, a abstinência é só em certas ocasiões, domingo não tem interdição.
    Esse nome de dama sugeriu-me desde logo cena forte. E a porta trancada? P´ra quê, interroguei-me. Nem candengues houve ou havia.
    Belo texto, caro José Carlos Sant'Anna.

    Abraço.

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  19. Decididamente, o melhor domingo.
    E provavelmente torna-se cotidiano. rs
    meu abraço Jcarlos

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  20. Uma deliciosa intimidade, encantadoramente partilhada com o leitor... deste domingo... certamente o primeiro de muitos... verdadeiramente apreciado pelo casal...
    Finalmente, Dona Maricota, se deu conta... de que nunca... se deve dizer nunca... :-))
    Pura delícia de texto, José Carlos! Adorei a leitura... deste recém descoberto... novo quotidiano dominical!...
    Beijinho
    Ana

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