segunda-feira, 18 de maio de 2020

Na outra margem


Era uma manhã fria do outono. A casa já estava em rebuliço quando o cara acordou sobressaltado. Eram as últimas horas de sono da madrugada, e aquele corpo atlético, malhado já tinha recuperado as energias gastas no dia anterior, quando lhe veio um pesadelo desconcertante, o que o fez levantar-se antes da hora e com um mal humor do cão. 
Como já se conhecia, aquele mal-humor não era repentino, ele aparecia com frequência, por isso, todos, em casa, trataram de guardar certa distância do cara. Ninguém se aproximou dele, deixando-o tocar o bonde para a Lapinha, como se dizia antigamente nas bandas de cá.
Ele mal engoliu um café com leite e torradas. Tomou um banho, vestiu-se, pegou uma maça na fruteira e saiu chutando o balde pelo jardim da casa, como se alguém, por ventura, tivesse culpa dos pesadelos homéricos que o perseguia desde os tempos de criança. Seu psicanalista ainda não tinha resolvido ainda esta questão na terapia.
E lá se foi ele. Bola pra frente, sem prece aos deuses.
Com as chaves do carro numa mão e sacola com toalha, sabonete, shampoo e uma muda de roupa na outra, dirigiu-se à garagem. Abriu a mala do carro e jogou a sacola dentro. Nela os acessórios para uma ducha depois da sessão de musculação. Bateu a porta da mala e tomou a direção do carro.
Claro que ele não estava atrasado para a aula, apenas acordara mal-humorado com o pesadelo. E mesmo sem estar atrasado, saiu como um menino contrariado ou um motorista mal-educado e, sem respeitar as leis de trânsito, seguiu costurando as ruas que o levavam à academia.
Logo no primeiro cruzamento, ele precisou estancar às pressas sem que houvesse tempo para evitar um abalroamento. Amassou o para-choque do carro da frente e arranhões na lataria. Nada tão grave, foi o que lhe parecera inicialmente. Seguramente, ele pensou, era mais um aborrecimento para a manhã fria de outono que mal começava.
Palavrões, impropérios para si mesmo não aliviaram as tensões. Esperou sem se mexer do volante. Foi o condutor do outro veículo que desceu e olhou o seu carro. Depois o dele. Achou que o prejuízo não tinha sido um pecado maior diante da sacristia, e já tinha notado a cara de poucos amigos que rosto do motorista trazia. Mesmo assim, ela se aproximou da porta do carro dele e lhe pediu para baixar o vidro, deu tapinhas nas suas costas e disse-lhe com voz pausada e provocante:
– Um bom dia, cara! Um bom trabalho pra você!
Ainda lhe veio na ponta da língua a vontade de acrescentar com uma rasgada  ironia:
– Vê se te acalma um pouco, será bom para a tua saúde, meu! – Mas àquela altura o bom-senso calou mais alto.
Só então ele percebeu pela delicadeza da voz e das mãos que se tratava de uma mulher. Parecia tarde para mostrar suas garras de sedutor. Ela já lhe dera as costas. E seria mesmo um sedutor com tanto enfado?
Mulher perfeita, com seu cabelo castanho, corpo esbelto, vestido branco que lhe ressaltava as formas com o andar, sapatos vermelhos, tornozelos finos e uma juventude revelada a olho nu. Ela poderia estar ao seu dispor, se ele não tivesse sido tão estúpido. Quem sabe? 
Ele a seguiu com olhar e concluiu que diante dele esteve uma fêmea para macho nenhum botar defeito. E agora parecia tarde. Buzinou e ultrapassou o carro da fêmea, depois de levantar grosseiramente o dedo médio.
Seguiram em frente. Ambos. Duas quadras adiante ele já a tinha esquecido.  
Chegou ao destino e estacionou o seu carro na porta da academia e, só então, deu um “confere” no seu carro. Pegou a sacola, agora mais calmo, entrou e foi direto ao vestiário para trocar a roupa e guardar a sacola com todos os seus pertences.
Tão desligado e possesso estivera até então que ele não vira que fora seguido pela mulher como se ela fosse um detetive. Ela saltara ao mesmo tempo do seu carro e o seguira agora a pé, à meia distância, e ficara observando os seus movimentos no vestiário. A recepcionista não lhe deu atenção. Tomou-a como uma das frequentadoras da Academia, deixando-a à vontade para os seus propósitos.
Atenta, a mulher viu quando ele guardou chave do seu armário no bolso e se dirigiu à sala de musculação. Ela repetiu os movimentos dele. Entrou no vestiário e, rapidamente, arrombou o armário em que ele depositara a sacola. Pegou-a com todos seus pertences e saiu. 
Ao passar pela recepção, deixou cair propositalmente um cartão de visitas. No verso, ela escrevera enigmaticamente "sacola+carro=transtorno". 
Ela sabia que, pelo grau de irritação que o acometeria com a perda da sacola e outros pertences, o cartão levaria horas para ser encontrado e outras tantas para ser decifrada a mensagem. 
A frustração dela era não poder ver a cara de espanto que ele faria ao abrir o armário e encontrá-lo vazio depois da malhação. E depois o cartão de visitas!  Mas ela aguardaria!

(José Carlos Sant Anna)

16 comentários:

  1. Muy buen micro, mi buen amigo... no sé si tomarlo como una venganza o... por todo lo contraio, una nueva manera de conquista. En todo caso celebro la narrativa.

    Mil besitos para tu semana, José Carlos.

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  2. Muito bem imaginado, urdido e escrito... Li com genuína curiosidade, ficando 'presa' à leitura.
    A criatura merecia uma lição, porém, gabo a paciência da punidora...

    José Carlos, agradeço o som que me indicou por 'link'.
    Realmente, um espanto de música criada pelos pesos pesados da MPB.
    Excelente, gostei muito e muito agradeço.

    Chet Baker era um exímio e talentoso trompetista que levou uma lamentável vida, habitual nos artistas do seu tempo.
    Ficou muito bem completando este 'post'.

    Desejo-lhe uma boa semana, fintando com destreza o tal coroa...
    O meu abraço sorridente e amigo.
    ~~~

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  3. Fiquei presa da narrativa, meu Amigo José Carlos. Fico a aguardar a continuação.
    Que bela peça de jazz com que nos brindou. O trompete de Chet Baker é maravilhoso.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  4. Mulher perfeita, sin duda. Risos. No sé si surgirá algo entre ellos cuando se encuentren para él recuperar sus pertenencias, pero parece que ella puede ser una maestra para aprender a manejar ese mal humor matinal. Tal vez incluso sea la solución a esas pesadillas que ni el psicoanalista pudo resolver...

    Muy buen relato, José Carlos

    Beijos, muitos

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  5. Oxalá o cartão de visitas não tenha um número de telefone errado, lol
    Gostei muito do video

    Cumprimentos

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  6. Uma escrita genial, talento indiscutível para narrar um fato.
    Bom demais !
    Agora a cada leitor a expectativa que a revolta seja do tamanho da sutileza da moça bonita.
    Também fico no "Aguardo ' amigo rs

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  7. Hay muchas maneras de conquistar y asi quitar el mal humor. Saludos.

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  8. JCarlos
    delicioso de ler, bem urdido, bem ecrito que me prendeu desde o príncipio, mas, isto continua? claro?!
    que eu estou curiosa para saber o final.
    boa semana.
    beijinhos
    :)

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  9. Bom dia Amigo José Carlos, gostei da sua trama tecida com as agulhas da vingança, eita mulher danada, será que era nordestina?
    Imagino a cara dele ao não encontrar seus pertences... Ufa!!

    Adorei seu conto!

    Bom dia e continue esperando dias melhores.

    Bjs no coração!

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  10. Me gustó mucho esta iniciativa de narrativa.
    Besitos.

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  11. Bah, mas me deixou assim, sem beira nem eira? Ele vai procurar a mulher?
    É...mas você escreveu muito bem esse conto, aliás conto é assim, o final fica para a nossa imaginação e muitas interrogações. Mas eu espero, quietinha, prometo, o final desse conto! rsss Não consigo imaginar nada, pode acontecer muitas coisas, vou aguardar que sua mente desenvolva o que queremos saber, OK?
    Beijo, meu amigo, uma boa semana na medida do possível!

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  12. malhas que o trânsito tece.
    um texto memorável, meu caro amigo José Carlos
    diria (quase) épico! preparatório das grandes manobras
    de atracagem...

    és um grande escritor e poeta,
    não me canso de dizer-(te),
    mas tu sabes.

    forte abraço

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  13. Um texto que nos agarra do princípio ao fim. Talento que não é vulgar. Realmente há dias aziagos, gente com um mau humor e grosseria assinaláveis.
    Com alguém assim, a mulher teve um comportamento muito imaginativo. Incomodou mesmo. Porém, o cartão deixa o leitor em suspenso. Há vários cenários possíveis.

    Abraço, amigo José Carlos.

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  14. Um apontamento, um postal, um post-it? Ou um de muitos episódios soltos que giram na nossa cabeça, à espera que se lhe deite a mão? Seja como for, redundou num texto que se recomenda.
    O que é que vai nessa cabeça, caro José Carlos?

    Grande abraço

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  15. A vingança... é um prato que se serve frio... ou a escaldar... se ela voltar ao ginásio... para apimentar a vingança, um dia destes!... :-))
    Algo me diz... que ela tem para lhe oferecer a terapia... que cura qualquer pesadelo... :-D
    Mais um texto extraordinário... que nos deixa... com vontade de mais!... Assim que se dá por terminada a sua leitura!...
    Parabéns, José Carlos! Beijinhos
    Ana

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