segunda-feira, 29 de junho de 2020

Pra quê?


 Por favor, na paz do meu trote e na sede de ar puro, deixe-me passar, pois, só pra contrariar, vou quebrar regras e rotinas da pandemia pelo gosto do sol, e de ver-te e de pintar um grafite barroco no muro da esquina.
 E eu com isso?
 Sei lá... Deixe-me passar, é o que me basta!
 E depois?... O que farás?
 Como eu sei que é o tempo que voa, eu não tenho pressa até porque o sol já terá inundado meu dia, então, vou devagar com a água feliz do meu corpo ao covil da minha felina. Ansiosa, eu sei, ela estará me espiando da janela com o seu vestido vermelho, pequeno detalhe que me deixa em parafuso e, inteira na intimidade, o infinito principia em sua toca, depois que eu chego. 

(José Carlos Sant Anna)

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Maré alta


Em cada nó de marinheiro
uma secreta alquimia
desengrinalda
as ondas,
os sais,
os sargaços,
dessentindo nuvens
e marés
que nos invadem plenamente
sem ter nosso amor
ignorado. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 16 de junho de 2020

Lição de vida



O jumento empacou numa subida íngreme quando passava pela porta de D. Milu. Quando o pai viu a cena, nervoso, gritou pela cerca que atravessava o quintal da vizinha para que o menino o chicoteasse. Aí quem empacou foi a criança. O jumento carregava quatro barricas de água no lombo, com ele na canga, e o pai lhe pedia para chicoteá-lo. Ele não entendeu. E também não obedeceu. 
Eram dois animais empacados. O menino que não sabia como descer do lombo do bicho e abandoná-lo ali mesmo. E o jumento. Ele foi posto na canga pelo pai, logo só poderia descer tirado pelo próprio pai ou por outra pessoa. Era esperar e aguentar no seu lombo o que viria de castigo por não saber puxar o animal. O pai achava que o menino tinha de saber levar o jumento como se fosse da roça. E o menino era da cidade.
Nos olhos do menino o medo. Ele sabia que o pai se fazia respeitar pelo chicote, usando-o por qualquer deslize do filho ou do animal, o que nunca lhe saiu da memória, embora, naquele momento, colocar o burro para subir o barranco em tais circunstâncias era qualquer coisa além da sua compreensão de criança. 
Pior é que o menino só estava no lombo do animal para deixar a mãe livre para a visita do pai. Assim, ocupado com sua mãe, o pai iria demorar. Só muito tempo depois ele veio tirar o menino de cima do bicho e, depois, fazê-lo subir o barranco. Dali mesmo o menino voltou para casa, o pai seguiu seu destino com o jumento.
E muito mais tarde, o menino aprenderia que “jumento não sobe escada”*.  
(José Carlos Sant Anna)

* Adaptação da frase "ademã que vou em frente, cavalo não sobe escada", de Ibrahim Sued, colunista social, do jornal O Globo.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Sorrateiro




Depois de extrair
um anacoluto 
da rocha 
deixei-o rolar 
cintilante 
como um papo surreal
de vanguarda
numa esquina paradisíaca
da rua dos prazeres

e, distraído,
como se falasse
ao telefone,
fiz,

(por não encontrar o senhor  
que nos governa
em torno de palavras
vazias), 

um cálculo aritmético 
sobre a argila
de como contrariar regras
para achatar 
a curva da solidão
por meio de oníricos delírios.

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pelas leiras


Sorri o menino

Ainda há pouco
ele estava no mundo da lua

onde renasciam as horas
entre os corpos fustigados
à sombra do capinzal

e só a pele entenderia
as mãos de luar nos cabelos
suspirando amor e sede
antes do mel do prazer

E o desejo salta a porteira,
e passa de mansinho,
e destelha a casa grande.

E livre como veio
acompanha
pelo chão do caminho
a vida ao longo da jornada.

Sorri o menino

Ainda há pouco
ele estava no mundo da lua

E os corpos se encharcam
na passarela dos sentidos,

antes germinam beijos
nas leiras do amor desvairado
na grande sala vazia. 

(José Carlos Sant Anna)