segunda-feira, 6 de julho de 2020

Chistoso


Na luz vertical,
doutor Sigmund Freud
com o velho ar blasé 
sem enxergar o próprio ego 
tateia pelo consultório 
procurando 
"na luz difusa do abajur lilás" 
ainda reticente
o corpo da paciente.

Enquanto
no bazar da história, 
os momentos íntimos das coisas 
[só os das coisas]
se confundem
com o café coado 
afogado de pura ciência 
imersos em puro ócio

Vai rolando, rolando
um clima 
na pulsão da tarde fria
em devaneios estranhos 
e no denso perfume das rubiáceas, 

de pince-nez Descartes,
mera figura de retórica,
tomando sol
na varanda do consultório 
de bermuda à Agostinho Carrara 
não está nem aí para a música 
que ecoa no gramofone

São ávidos enredos
na teia que rola 
sobre o divã cor púrpura, 
em que o curvilíneo corpo   
é o objeto à frente do sujeito
inadimplente.

(José Carlos Sant Anna)

12 comentários:

  1. Cumprir as obrigações acredito que cumprisse...... em pensamento, lol
    Gostei do Poema. Profundo e muito bem escrito.
    .
    Feliz início de semana
    Abraço poético

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  2. Chistosa e primorosamente
    escrito,
    eis o belo poema
    de um Poeta
    erudito.
    Com humor e muito estilo
    me levou a pensar
    num outro também
    dos grandes
    de seu nome
    Millôr Fernandes.

    Encantada com sua maravilhosa versatilidade poética,
    deixo um beijinho, amigo José Carlos!

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  3. Profundo y bello poema. Saludos amigo.

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  4. A um fundador duma dinastia tudo se perdoa, até a sua inadimplência.
    A examinar o material dos pés dum mito? Adorei, meu caro.

    Grande abraço

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  5. Gostei do tom de humor com que escreve este poema. Pude imaginar Freud com ar blasé e o paciente em "ávidos enredos na teia que rola sobre o divã cor púrpura"...
    Um grande beijo.

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  6. Temos alguns 'Freuds' aqui em casa onde é muito bem quisto, mas tirando os seus livros, no canto da sala há uma escultura do 'doutor' para que não esqueçamos que a raça é problemática, é infernal, e assim seguirá, está no seu DNA. Nada mudou a não ser o Divã, substituído nos consultórios por uma estilosa poltrona. Deu uma renovada, já que os problemas são sempre os mesmos! Pobre Freud!
    Na verdade seguiremos problemáticos, mas o doutor ganhou um belíssimo poema do professor José Carlos - muito criativo e que adorei.
    Um beijo, uma boa semana !

    "São ávidos enredos
    na teia que rola
    sobre o divã cor púrpura,
    em que o curvilíneo corpo
    é o objeto à frente do sujeito
    inadimplente."

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  7. Genial, meu Caro Amigo!
    A fantástica ideia de levar o Dr. Freud ao divã
    não lembraria ao mais pintado!...

    manifestamente uma velharia!
    quem hoje em dia se atreve a matar o pai?
    aliás, sabe-se lá quem é o pai ... rss

    excelente!
    belo poema...

    grande abraço

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  8. José Carlos Sant Anna, esta vez me jugó en contra la traducción, creo. No estoy segura de haber entendido, es más: estoy segura de que me pierdo importantes matices que el traductor de Google y mi escaso conocimiento del portugués no sabemos apreciar. E igualmente me deja una reflexión: el terapeuta necesitando terapia o, al menos, una mirada más consciente a lo que le provoca su paciente. Supongo que todos tenemos nuestras sombras.

    Muitos beijos, muitos

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  9. JCarlos

    cheio de humor!
    quem imaginaria Freud no divã?!
    mas achei o poema bem conseguido.
    Beijinhos
    :)

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  10. Ahahah,muito engraçado o teu poema,gostei imenso!! Tudo de bom para ti,muitos beijinhos!!

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  11. Quase sempre no divã,rola um clima ... rs
    _e que a 'luz do abajour lilás' seja o complemento ideal paras ideias difusas do Doutor.
    meu abraço,amigo querido

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  12. Quase imagino... se Freud fosse vivo... o seu ar intrigado... perante um mundo... hoje em dia tantas vezes inexplicável...
    Imagino o som do gramofone... cortado pelo som de um telemóvel de última geração... com a dama curvílínea apressando-se a afirmar, em jeito de desculpa, por não se ter conseguido desligar da "kardashianização" de suas realidades..."Meu PT, agendando meus exercícios no ginásio..."
    Deliciosa descrição poética... que nos remete para um tempo... onde o tempo... tinha outra velocidade... e bem maior profundidade ao sentir-se... hoje em dia... tudo é veloz e superficial... em iluminação asséptica... sem o prazer de iluminações difusas... como só um abajur lilás, conseguiria proporcionar...
    Absolutamente delicioso de se apreciar, este poético ambiente de consulta... de um outro tempo... mesmo com tempo...
    Beijinhos!
    Ana

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