quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Razão do poema

 

Com todas as letras,

confesso

que me surpreenderia

se não fosse o grito altaneiro

vindo da carne das palavras 

incisivo, penetrante,

e de tantos viços possíveis

que me deixam abismado 

ao sugar a água do meu poço,

ao tirar do fruto o caroço,

ao fincar a unha no meu rosto,

ao afogar o meu espanto

alumbrando o momento

ardente na razão do poema

a haurir o chão da vida

até o pescoço. 


(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Pressentido




a lua se alaga
ávida de estrelas
em espasmo de amor

enquanto a rosa fascinada
do teu corpo
na polpa da minha língua

derrama em lampejo voraz
o teu sumo como um rio
de pétalas em êxtase

a arder de ti a mim 
como se candelabros fossem

sorvendo as colinas frescas
do rio em fogo no púrpuro cais.


(José Carlos Sant Anna)