quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Um mal-entendido

Imagem capturada na internet


Para o seu desgosto, o marido ria pelos cantos da boca. À socapa. Ela o conhecia bem, portanto, sabia que aquele riso bem matreiro estava ali escancarado, à sua frente, o que a deixava ainda mais contrariada. Não era para menos. O garçom os surpreendera com uma inesperada reação. Ela ficou sem graça, mãos atadas e a língua presa à garganta, logo ela que não é de deixá-la assim sufocada, na goela. E o marido, embora estivesse constrangido e solidário com a situação, não deixava de achar patético aquele caco na cena do jantar. Por isto, ria fechado em si mesmo. Discreto. Ela que o via de outra maneira. Para ele, a cena fora cômica. Como ele me contou depois.
Empertigados, saíram os dois do hotel para jantar; ela, aproveitando o pulsar do momento, disse:
– Fagundes, que tal irmos novamente à Cantina do Mosquito? 
E, enfiando-lhe a mão por dentro da sua camisa, fez-lhe um carinho discreto no fundo do táxi e, depois, achando que tal atitude a deixava com  “tudo dominado”, arrematou:
– Hoje pedimos um consomê de frango de entrada e um risoto de frutos do mar, lá escolhemos a massa. Era tão fino aquele restaurante, não era, benzinho? – disse-lhe rindo. – Era a "minha cara". Você me disse ontem que gostou, você está lembrado?
Fagundes, autoritário, dominador, fez de conta que a conversa não era com ele. Sorriu rapidamente como se estivesse no teatro assistindo uma comédia onde o riso teria que ser breve para não se perder a próxima cena do espetáculo, e soprou o Mosquito para bem longe com discrição. Afinal, ele já tinha pedido ao taxista para levá-lo a uma casa portuguesa, com certeza, para degustar um bacalhau, pois estava até os gorgomilos de restaurantes italianos. E o taxista, obediente, seguira o roteiro do marido e os deixou no local combinado.
Ela fez uma cara de poucas amigas quando o taxista foi diminuindo a velocidade do seu carro e parou na porta de um restaurante português. Ela ameaçou voltar para o hotel no mesmo táxi, esbravejou, porém o marido, jeitoso, domou a fera momentaneamente. Por fim, contrafeita, ela entrou dizendo-lhe baixinho:
– Isto é lugar que me tragas... Não vês a diferença para a casa italiana de ontem?   
Realmente, o restaurante não tinha a sofisticação da casa italiana, mas era muito aconchegante. O espaço, ela reconheceu lá dentro, era acolhedor. O marido obtivera boas referências. Sentaram-se. O garçom veio servir-lhes, solícito. 
Ele pediu um caldo verde; ela, sopa de ervilhas, de entrada. Aceitaram o vinho do porto de aperitivo e as fatias frescas de pão. E pediram um bacalhau a lagareiro como o prato principal.
Enquanto aguardavam os pratos de entrada, degustavam o vinho e admiravam os detalhes da decoração retrô com galinhos de Barcelos por todos os cantos. Quase perguntaram ao garçom se os proprietários da Casa eram de Barcelos pela abundância de galos decorando o ambiente.
O garçom trouxe duas tigelas fumegantes e se afastou.
Eles comiam e conversavam. Conversavam é modo de dizer. Ela reclamava baixinho da sopa, dizendo-lhe que a carne não era de vaca. 
Desconfiado, o garçom os espionava discretamente um pouco afastado, pois a mulher, volta e meia, mostrava a tigela e dizia para o marido:
– Isso é carne de porco, Fagundes, eu detesto carne de porco, você sabe, não é?
Mesmo mantendo uma distância da mesa do casal, parecia que o garçom entendia tudo, pois, tanta conversa exibindo a tigela era mal sinal; o garçom, olhos atentos, concentrados na entonação de voz dela, procurava fazer uma leitura labial do que ela dizia, por desconfiar de que havia alguma coisa errada naquele reino, que não era o da Dinamarca, pois estava ali muito próximo de si.
Enquanto isso, Fagundes, louco por caldo verde, cuidava de raspar sua tigela com uma fatia de pão.
Intrigado, o garçom não afastava um só instante o olhar da mesa deles, guardando a devida distância, pois não entendia por que, apesar de tudo, ela sorvia a sopa com tanto prazer.
Quando, na tigela, sobraram poucos grãos de ervilha, as tiras de carne e um fio tênue do caldo, ela olhou o garçom disposta a indagar-lhe se era carne de porco. Apenas isso, nada mais, era o que ela queria saber. E fez-lhe um aceno discreto. 
O garçom, experiente, calejado no trabalho, português sem papas na língua, pressentindo com algum equívoco, diga-se, no que dali viria, se dirigiu à mesa disposto a não engolir nada do que a brasileira tivesse a dizer-lhe, e antes mesmo que ela abrisse a boca, ele se antecipou ao discurso da madame dizendo-lhe:
– Minha senhora, depois que bebestes o caldo todo é que tu vens reclamar, ora, faz-me o favor, a senhora não está em sua terra não!
E, sem titubeios, deu meia volta nos calcanhares, e foi apanhar uma bandeja. 
Voltou à mesa e retirou a louça da mesa, sem dar-lhe, outra vez, tempo de dizer-lhe qualquer coisa. 

(José Carlos Sant Anna)

8 comentários:

  1. Pois. A senhora gostava mais dos restaurantes italianos do que dos portugueses. Iria pôr defeito na comida toda... Gosto deste seu modo de narrar e este "mal-entendido" entende-se muito bem...
    Um bom fim de semana, meu Amigo José Carlos.
    Muita saúde.
    Um beijo.

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  2. Credo. Eu acabo sempre sorrindo com seus textos, mas acho que este foi mesmo um mal entendido.
    Bom fim de semana, caro Poeta/Professor e Mestre das palavras.
    Beijinhos
    Obrigada!
    :)

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  3. Si era cerdo o no, se termino todo.... Saludos amigo.

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  4. Pronto; fiquei com raiva da mulher!! rs
    Muito bem contada essa história, José Carlos, de início já antipatizei com a mulherzinha, conheço esse tipo de pessoa e coloco à distância. Minha reação... parece que estou no restaurante assistindo, também.
    Benza Deus, que mulher chata.
    Essa é a parte boa do cronista, contista, romancista quando faz despertar no leitor vários sentimentos, até uma 'boa' ira!!
    Beijo, meu amigo, uma boa semana!
    Cuide-se bastante.

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  5. és um genial contador de estórias, caro José Carlos
    em meia dúzia linhas, defines com consistência os personagens.

    a madame desta é uma espantosa "anáfora"(rss) a luzir ao longo da narrativa...

    e é fabulosa a fezer "carinhos discreto no fundo do táxi". carinhos no marido, está claro, que a senhora é comedida...

    chapeau, meu amigo
    adorei

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  6. "a madame desta estória ...", deve ler-se

    abraço

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  7. :-) No caso... o garçom... falando assim... só poderia ser coproprietário do restaurante... pois se fosse mero empregado... tal daria direito... a dispensa imediata... pois funcionário que queira manter seu posto de trabalho, sabe logo à partida, que o cliente tem sempre razão (mesmo não tendo)... a menos que fosse funcionário novo... mas com uma saída dessas... não ficaria para aquecer no lugar, se acaso a cliente, usasse o livro de reclamações, ou fosse reclamar com a gerência.
    Essa expressão... até que é muito usada, em muito desentendimento casual... quando um dos elementos seja estrangeiro, de qualquer nação... mas em determinados contextos... por rondar o puro preconceito... não pode ser sustentada!...
    A gente sabe que no puro e acalorado desentendimento, uma das partes tem tendência para mandar outra... para qualquer lado... e até já tenho ouvido destinos bem piores... :-D mas em contexto laboral... não seria uma expressão tolerável, para um subordinado, pelo menos (já que patrão, fala como quer... e só ele responde por isso)... mas num restaurante... impera sempre a velha máxima... "o cliente tem sempre razão!" seja ele de que terra for!... :-)) De contrário a reputação de um restaurante... iria para o brejo, como se diz aí desse lado do Atlântico... se cada cliente que reclamasse, fosse tratado de tal forma, que desse azo a reclamações... para mais, ainda de outro teor... que não apenas a origem da carne... e hoje em dia... tudo se espalha que nem pólvora, em redes sociais... para o bem... ou para o mal... o que ditaria, que uma casa comercial ficasse logo "queimada", em menos de nada, se tratassem clientes de forma tão amistosa, por sistema.
    Beijinhos, José Carlos! Bom final de domingo e votos de uma excelente semana!
    Ana

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