segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Teu nome é flor

 



Um novembro bem atípico se recolhe entre dardos de sol e esparsas chuvas. E, na aridez das lembranças, para não enlouquecer, ele imagina escrever alguma coisa sobre os tempos bicudos da passagem deste ciclo da vida humana e, depois do apelo aos deuses, pensa em pandorgas, pião, bolas de gude, coqueiros, mares, ondas altas, em qualquer coisa ante a monotonia da escassez de mãos, ombros, braços, ventres, entre outras coisas, que o deixaria em febre alta. Logo os lábios saíram do torpor e se avivaram como se voassem por colinas frescas de onde vinha a neblina, enquanto o dia quente se insuflava açulando o seu corpo em tons vorazes. E com os pés desnudos sentia o aflorado lume das subidas que ardia da sola dos pés aos nervos e, sem se deixar vencer pelas intempéries desse raro novembro – em copas, mas sem as rasantes alegrias de outras primaveras – abafa o grito contido antes que as cortinas se fechem na aragem dos infindáveis dias de novembro, quando, fagueira, ela se mostra inteira. Ali estava ela, era a flor mais alta entre as árvores no cume da subida.


(José Carlos Sant Anna)



quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Um mal-entendido

Imagem capturada na internet


Para o seu desgosto, o marido ria pelos cantos da boca. À socapa. Ela o conhecia bem, portanto, sabia que aquele riso bem matreiro estava ali escancarado, à sua frente, o que a deixava ainda mais contrariada. Não era para menos. O garçom os surpreendera com uma inesperada reação. Ela ficou sem graça, mãos atadas e a língua presa à garganta, logo ela que não é de deixá-la assim sufocada, na goela. E o marido, embora estivesse constrangido e solidário com a situação, não deixava de achar patético aquele caco na cena do jantar. Por isto, ria fechado em si mesmo. Discreto. Ela que o via de outra maneira. Para ele, a cena fora cômica. Como ele me contou depois.
Empertigados, saíram os dois do hotel para jantar; ela, aproveitando o pulsar do momento, disse:
– Fagundes, que tal irmos novamente à Cantina do Mosquito? 
E, enfiando-lhe a mão por dentro da sua camisa, fez-lhe um carinho discreto no fundo do táxi e, depois, achando que tal atitude a deixava com  “tudo dominado”, arrematou:
– Hoje pedimos um consomê de frango de entrada e um risoto de frutos do mar, lá escolhemos a massa. Era tão fino aquele restaurante, não era, benzinho? – disse-lhe rindo. – Era a "minha cara". Você me disse ontem que gostou, você está lembrado?
Fagundes, autoritário, dominador, fez de conta que a conversa não era com ele. Sorriu rapidamente como se estivesse no teatro assistindo uma comédia onde o riso teria que ser breve para não se perder a próxima cena do espetáculo, e soprou o Mosquito para bem longe com discrição. Afinal, ele já tinha pedido ao taxista para levá-lo a uma casa portuguesa, com certeza, para degustar um bacalhau, pois estava até os gorgomilos de restaurantes italianos. E o taxista, obediente, seguira o roteiro do marido e os deixou no local combinado.
Ela fez uma cara de poucas amigas quando o taxista foi diminuindo a velocidade do seu carro e parou na porta de um restaurante português. Ela ameaçou voltar para o hotel no mesmo táxi, esbravejou, porém o marido, jeitoso, domou a fera momentaneamente. Por fim, contrafeita, ela entrou dizendo-lhe baixinho:
– Isto é lugar que me tragas... Não vês a diferença para a casa italiana de ontem?   
Realmente, o restaurante não tinha a sofisticação da casa italiana, mas era muito aconchegante. O espaço, ela reconheceu lá dentro, era acolhedor. O marido obtivera boas referências. Sentaram-se. O garçom veio servir-lhes, solícito. 
Ele pediu um caldo verde; ela, sopa de ervilhas, de entrada. Aceitaram o vinho do porto de aperitivo e as fatias frescas de pão. E pediram um bacalhau a lagareiro como o prato principal.
Enquanto aguardavam os pratos de entrada, degustavam o vinho e admiravam os detalhes da decoração retrô com galinhos de Barcelos por todos os cantos. Quase perguntaram ao garçom se os proprietários da Casa eram de Barcelos pela abundância de galos decorando o ambiente.
O garçom trouxe duas tigelas fumegantes e se afastou.
Eles comiam e conversavam. Conversavam é modo de dizer. Ela reclamava baixinho da sopa, dizendo-lhe que a carne não era de vaca. 
Desconfiado, o garçom os espionava discretamente um pouco afastado, pois a mulher, volta e meia, mostrava a tigela e dizia para o marido:
– Isso é carne de porco, Fagundes, eu detesto carne de porco, você sabe, não é?
Mesmo mantendo uma distância da mesa do casal, parecia que o garçom entendia tudo, pois, tanta conversa exibindo a tigela era mal sinal; o garçom, olhos atentos, concentrados na entonação de voz dela, procurava fazer uma leitura labial do que ela dizia, por desconfiar de que havia alguma coisa errada naquele reino, que não era o da Dinamarca, pois estava ali muito próximo de si.
Enquanto isso, Fagundes, louco por caldo verde, cuidava de raspar sua tigela com uma fatia de pão.
Intrigado, o garçom não afastava um só instante o olhar da mesa deles, guardando a devida distância, pois não entendia por que, apesar de tudo, ela sorvia a sopa com tanto prazer.
Quando, na tigela, sobraram poucos grãos de ervilha, as tiras de carne e um fio tênue do caldo, ela olhou o garçom disposta a indagar-lhe se era carne de porco. Apenas isso, nada mais, era o que ela queria saber. E fez-lhe um aceno discreto. 
O garçom, experiente, calejado no trabalho, português sem papas na língua, pressentindo com algum equívoco, diga-se, no que dali viria, se dirigiu à mesa disposto a não engolir nada do que a brasileira tivesse a dizer-lhe, e antes mesmo que ela abrisse a boca, ele se antecipou ao discurso da madame dizendo-lhe:
– Minha senhora, depois que bebestes o caldo todo é que tu vens reclamar, ora, faz-me o favor, a senhora não está em sua terra não!
E, sem titubeios, deu meia volta nos calcanhares, e foi apanhar uma bandeja. 
Voltou à mesa e retirou a louça da mesa, sem dar-lhe, outra vez, tempo de dizer-lhe qualquer coisa. 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Ilha interior


O mundo visto à sombra das horas desertas não era sequer o imaginado nos olhos adolescentes como se ainda voássemos, tímidos pássaros que éramos, no lombo de burros. Grave alegria em nossa ilha interior. A todo instante chegam postais, dando-nos conta do passado como se nos quisessem dizer: é em vós que o mundo sempre existiu. Porque os postais contam, sem os naufrágios, as histórias dos nossos primeiros passos. E o marulhar das lembranças nos diz tanto de madrugadas nunca esquecidas na escalada das almejadas culminâncias a embriagar-nos, que já não sabemos o que tem atravessado o gargalo das noites de caminhos infinitos. 


(José Carlos Sant Anna) 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Orvalho no olhar


 

Aquele corpo, bem de frente, me olha

tão próximo, cristal de pormenores,

e exala em cristalinas veias o lábio 

a arder em ânsias e fogo e fausto

e vastidão ao descobrir o lugar

em ebulição, novelo desvelado,

aurora do templo único levitado

e sobre a lenha o lume alimentado

no laço do desejo onde o amor

se reinventa e sorve o ardor da sede

ao sabor do sumo que me alaga.

 

(José Carlos Sant Anna)