segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Teu nome é flor

 



Um novembro bem atípico se recolhe entre dardos de sol e esparsas chuvas. E, na aridez das lembranças, para não enlouquecer, ele imagina escrever alguma coisa sobre os tempos bicudos da passagem deste ciclo da vida humana e, depois do apelo aos deuses, pensa em pandorgas, pião, bolas de gude, coqueiros, mares, ondas altas, em qualquer coisa ante a monotonia da escassez de mãos, ombros, braços, ventres, entre outras coisas, que o deixaria em febre alta. Logo os lábios saíram do torpor e se avivaram como se voassem por colinas frescas de onde vinha a neblina, enquanto o dia quente se insuflava açulando o seu corpo em tons vorazes. E com os pés desnudos sentia o aflorado lume das subidas que ardia da sola dos pés aos nervos e, sem se deixar vencer pelas intempéries desse raro novembro – em copas, mas sem as rasantes alegrias de outras primaveras – abafa o grito contido antes que as cortinas se fechem na aragem dos infindáveis dias de novembro, quando, fagueira, ela se mostra inteira. Ali estava ela, era a flor mais alta entre as árvores no cume da subida.


(José Carlos Sant Anna)



11 comentários:

  1. Texto poético, lindíssimo de ler.
    .
    Feliz semana
    Abraço

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  2. Estamos, de um e do outro lado do Atlântico, entre a primavera e o outono, neste novembro em que refugiamos o olhar na paisagem e, para não enlouquecermos, escrevemos a esperança, que se torna a flor mais alta de tudo o que desejamos...
    Como gosto de o ler, meu Amigo José Carlos!
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  3. Raro Noviembre pero precioso tu sentir poético. Saludos amigo.

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  4. JC

    Meu amigo, quanta sensibilidade, verdade e carinho você colocou nesse teu texto.
    Mas no fim você teve a recompensa ao ver a "flor" mais alta e bonita da arvore da sua fantasia ou realidade.
    Depois essa música, que noa faz ouvir uma, duas muitas vezes.
    Adorei!
    Cuide-se meu caro Poeta
    Beijinhos
    :)

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  5. Pagodinho e Marisa Montes_ também atípico vê-los juntos no melancólico apelo do quão difícil é 'encontrar-se', entao deixa que se vá o novembro e que dezembro traga flores altaneiras ou não_ mas flores.
    meu abraço

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  6. uma escrita elegante e segura que é um encanto ler
    devagar e em voz alta - como quem saboreia um vinho de eleição

    texto brilhante, caro Poeta José Carlos Sant Ana
    forte abraço, meu amigo

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  7. Bah, meu amigo José Carlos, que delícia de texto, li 3 vezes para me deliciar com a poética do teu texto, é um canto à natureza. E nada como a escrita nesses tempo bicudos para suavizar nossos dias.
    Belo!!
    Uma boa semana, cuide-se bastante.
    beijo

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  8. Tu poema esta lleno de sentir de mucha sensibilidad y acertado para este moemnto de la vida. Un noviembre particular pero en tus letras bonito. Un abrazo

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  9. Que texto delicioso, José Carlos! Como sempre de uma imensa e admirável, riqueza descritiva!...
    Realmente, passámos por um Novembro bem atípico... também por estes lados... com a vida suspensa de tudo... menos de preocupação, e incerteza! Eu mergulhei de cabeça em rituais de prevenção antivírica caseira... que me levam quase todo o meu tempo livre, até à beira da loucura... mas pelo menos, mãe continua bem... dentro de uma conjuntura cada vez mais preocupante!... Hoje, novos máximos de vitimas, foram atingidos no nosso país... e com as movimentações do Natal... a tendência é que seja sempre a subir até Janeiro...
    No entanto... as ruas estão cheias... quase dando a ilusão de que não se passa nada... quem não passa por hospital... não sente nada mesmo, do que está acontecendo!... Mas os serviços estão no limite, por todo o lado... e os focos de contágios, continuam florescendo que nem papoilas, de Norte a Sul do nosso país!
    Estimo que tudo esteja o melhor possível, por aí! Bom final de domingo, e votos de uma excelente semana, com saúde... nosso bem mais precioso, no momento!...
    Beijinhos
    Ana

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  10. Belo! Meus votos de um feliz novo ciclo! Abraço

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