terça-feira, 22 de junho de 2021

Ela voltou

 

– Alguma notícia de Maricotinha?

O garçom olhou Tão Preto sem entender o que ele queria saber e deu quatro ou cinco passos adiante até uma mesa de canto do Meia Légua. Vazio, o bar estava sem aquela energia visceral e os garçons bocejavam pelo meio do salão.

Tão Preto, que o seguia rindo, se sentou e pediu um chope bem gelado, como se não tivesse lhe perguntado nadica de nada.

– O senhor perguntou o que doutor?

Tão Preto o olhou sério e disse:

– Eu lhe pedi um chope bem gelado, cheio de ânsia e vontade.

– Já comandei o pedido. Quer mais alguma coisa, doutor? – Perguntou-lhe gentil. 

– Não, obrigado. Um dedo de colarinho no chope, por favor!

– Mas o senhor queria saber alguma coisa quando entrou? Ou me enganei?

Tão Preto deu de ombros à insinuação do garçom, mas ele insistiu:

– Me perguntou se eu tinha notícias da senhora Maricotinha, não foi?

– E o senhor conhece D. Maricota das Neves Rocha? – Perguntou-lhe com um ar sério, como se dissesse quem lhe deu tanta intimidade.

Confuso, o garçom respondeu:

– Não, não conheço essa senhora! Foi o senhor que falou esse nome quando entrou.

– Fala sério, cara! Perguntei-lhe o quê?

O garçom se atrapalhou nas palavras para responder-lhe. E por não saber o que dizer, se afastou para pegar o chope no balcão, pensando “porra, lidamos com tantas esquisitices na vida. Aqui, no Meia Légua, não é diferente. Às vezes, elas parecem maiores. É o nome do bar. Pudera! Meia Légua”. E não se grilou com aquilo. “Toca a boiada, vaqueiro! O doutor tem cara de boa gente”, disse cheio de garra! Seus colegas no balcão da choperia o olharam desconfiados! Ele riu. E falou ainda alto para que eles o ouvissem: 

– A noite promete!

 

 

Maricotinha vai ficar furiosa ao saber que Tão Preto não segurou a língua e saiu pelo mundo afora e redes sociais – como viver sem elas hoje? – como se fosse o pôster do amigo Che Guevara, perguntando se alguém a tinha visto por aí, se alguém tinha notícias do paradeiro da sua companheira, como ele fazia agora com o garçom. Ou da sua fiel escudeira, como ele preferia chamá-la.

O garçom voltou com a tulipa de chope.

Tão Preto estava com a língua coçando e estava conta não conta a sua história, ali, no Meia Légua, que guardava outras histórias nas paredes e mobiliário da casa.  

– Senta aí que vou lhe contar uma história.

O garçom reagiu.

– Não posso sentar não doutor. Meu trabalho é em pé e não posso ficar de conversinha mole com cliente não, senão eu danço. As crianças estão em casa me esperando com o leite – respondeu meio na bronca o garçom.

Tão Preto riu da resposta torta e embicou a tulipa, deixando-a pela metade.

– Humm! O senhor estava seco? – disse conciliador o garçom.

– É a falta de Maricotinha – disse-lhe com um ar bem-humorado, observando sua reação ao ouvir pela segunda vez o nome de Maricotinha.

O garçom não se afastou. Ficou esperando o que estava por vir porque garçom é igual a barbeiro, gosta duma resenha.  

– Como é mesmo o seu nome?

– Daniel. Pode me chamar pelo meu nome, doutor.

– Pois, Daniel, quando menos se espera, furtivo, um mote arranha a porta – e Maricotinha some no mundo com o gostinho de torta na boca e os dentes brancos em excesso à mostra a quantos queiram admirar o seu riso sedutor e a desafiar a natureza dos galanteadores de plantão e a sua resistência, (no caso a dela, que fique claro). Certa vez, numa dessas fugas, brejeira, ela me disse: “Eu gosto mesmo é da solidão a sós e não a dois. Pode relaxar, meu bem! Sua testa estará sempre despojada de galhos. Eu sei que ela não é floresta”. E riu gostosamente.

Daniel foi pegar outro chope. Trouxe a tulipa na bandeja, colocou-a na mesa e se encostou na parede, curioso.  

– Maricotinha, nunca passou mais de uma semana longe da nossa alcova, ela é meu ioiô, vai e volta. Mas desta vez, ela já tem quinze dias ausente das correntezas do nosso rio.

– Quinze dias? Não errou nas contas, doutor? 

Tão Preto não deu bola para a observação do garçom e continuou:

 – Quando ela sumiu era uma manhã mais clara que qualquer outra manhã da minha vida. Depois de passarmos a noite em festa, rio abaixo, rio acima, como gostamos de fazer quando estamos juntos, em posição fetal, ela me pediu para aconchegar-me ao seu corpo para ela dormir mais depressa. Ao acordar, ela me encontrou de pé preparando o café da manhã. Ela chegou de tênis e malha para o jogging. Ela não falava que ia correr na orla. Ela caprichava na pronúncia. E dizia: “Se moderniza, cara! Diga jogging, é mais chique”, e ria do seu humor em alta como se estivesse aplicando na Bolsa de Valores.

No meio da segunda tulipa de chope, o telefone trincou. Tão Preto olhou o bicho e lá estava a mensagem: “Tá aonde, meu bem? Já tenho habeas corpus.  Meu amor é igual ao amor de malandro, ele vai e volta. Estou aquecendo a água do rio à tua espera, beijo!”

Revirado ao avesso com o combustível dialético da mulher, pelo sabor original que ela tem, efêmero e transgressor, Tão Preto já sentia o beijo de Maricotinha pelo seu corpo inteiro e disse para o seu duplo: "Dane-se o garçom! O resto da história, ele poderá ouvi-la qualquer outro dia. Mesmo porque agora o final poderá ser outro", e correu para os braços de Maricotinha.


(José Carlos Sant Anna)

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Do avarandado

 

acervo pessoal

Ao olhar em torno
abstraio-me do supérfluo
e refaço o curso dos dias
no repouso do silêncio
da solidão e do esquecimento 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 8 de junho de 2021

Tio Tonho

 


Era uma manhã cinzenta nos Alagados. Bem cinzenta. E ficaria mais cinzenta, se Tonho, o soldado do fogo, porque bombeiro de profissão, diante dos fatos, ao entrar em casa, tivesse perdido de outro modo a cabeça.

O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e se preparava para carregar água para abastecer a casa, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes do barraco onde morava. Não pensou duas vezes. Depressa, como um bólido, ele pegou a toalha para fazer a rodilha, a lata grande, de flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a novidade para casa.  

Num piscar de olhos, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com seus irmãos, embora lhe coubesse sempre um quinhão maior nas tarefas.

O menino gritou da porta da rua:

— Mãe, vou pegar a água no chafariz.

E não esperou a resposta da sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do barraco. 

Com pequeno atraso, ouviu já longe a resposta da mãe: 

— Não fique na rua. Chafariz e casa!

Ele não chegou imediatamente ao chafariz, pois estancou no meio do caminho ao ver um homem na superfície da água que, para sorte dele, era a maré cheia. 

Como aquele homem teria pulado pela janela, se na maré baixa a água refluía completamente deixando os mourões dos barracos, cobertos de ostras, visíveis, nus da água?

O homem nadava e mergulhava. E, ao emergir, olhava para trás para saber se havia alguém o perseguindo por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o reconheceu. E o homem, vendo-o, fez um sinal com o dedo na boca com uma mão e, em seguida, um gesto para afastar-se, ir-se embora, enquanto se segurava em um dos mourões do barraco mais próximo com a outra. O menino viu medo escrito no rosto do homem. Parecia que ele tinha visto uma alma penada em plena luz do dia. Assustado, o menino se afastou como ele pediu.

O homem era Ladi, como todos o chamavam. Um homem meio fino para os padrões da invasão. Tinha vindo do Rio de Janeiro e vivia se exibindo nas redondezas, metido a galã. O menino sabia quem era ele. Conhecia as irmãs e as sobrinhas dele. O menino, que era muito esperto, já olhava com interesse as três sobrinhas, na adolescência, ao vê-las desfilar pelas pontes quando ele se babava ou se refugiava pelos cantos.

O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher com um facão. E o menino, mesmo assustado, a curiosidade se sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra firme. 

Ele queria saber das notícias porque o homem que surrava a mulher era seu tio, o soldado do fogo, como o chamavam. Quase um codinome. Mas seu nome era Tonho. E o da mulher Rute. Eram chamados de tio e tia. Não era um parentesco em primeiro grau. 

Os laços familiares da sua mãe eram confusos para ele. Eram tantos tios e primos que, mais tarde, o menino acabou namorando uma delas, mas não ultrapassou os limites do possível para a época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família desestruturada. E seguia conselho da mãe ao pé da letra: “não arranje sarna para se coçar, menino”, era o que ela lhe dizia a toda hora. 

No chafariz, já sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. Como a notícia chegara ali tão depressa, ele não sabia dizer ou explicar. O que sabia e não disse, é que, por pouco, ele não assistiu a cena. 

Ladi, de cueca, pulando a janela do quarto e caindo ao mar para livrar-se de tio Tonho. O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da sua mulher. Ele já sabia que ela vadiava na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra de facão na mulher. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama. Se tal ocorresse, aí sim, como sabê-lo?, uma tragédia teria ocorrido. 

E o Ladi se escafedera ao perceber o barulho na porta da frente. Dizia-se depois que ele tinha pegado um ônibus de volta para o Rio de Janeiro, à noite, depois de passar o dia inteiro escondido no bairro do Jardim Cruzeiro, na casa de um irmão. Era o medo de que sobrassem lanhas do facão para ele. 

O menino nunca mais soube do tio Tonho, nem da tia Rute. Dizem que eles nunca se separaram, mas conheceram quase todos os bairros da cidade porque eles mudavam de casa com frequência. 


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto

 


terça-feira, 1 de junho de 2021

A ilusionista

 


No meio da sala, entre os livros da sua biblioteca, ela lhe pediu que fechasse a porta. Afobado, ele atendeu o pedido. Segura de que estavam a sós, ela, antes de tomar a iniciativa de tirar a roupa, lhe disse:

— O cadeado está meio aberto.

Ele lhe perguntou:

— Meio aberto? Como? Não há meio termo nesses casos — para saber se havia dubiedade na afirmativa que ela fazia.

Ela deixou escapar um riso discreto e meio tímido — ele quase afirmou que, no caso do tímido, havia o meio termo , e lhe disse:

— O cara ainda não tinha pegado o jeito de abrir cadeado. Era a primeira vez dele. A minha seria a única — por enquanto. Tô esperando por você. E não era um cadeado com segredo. Nunca houve literalmente cadeado com segredo nesses casos. Complacente, às vezes, sim,  deixando escapar outra vez o riso tímido. — Depois ele me tirou da caatinga, do meio do mato e me trouxe para a cidade grande, para que eu me cuidasse. Me cuidei e sou-lhe muito grata.  Me tornei uma artista.

Ao começar a tirar a roupa, ela teve um súbito lampejo e, interrompendo o seu gesto, se demorou olhando no fundo dos seus olhos, e lhe disse:

— Por que você demorou tanto a chegar para mim? Eu estava ficando cansada de esperar por você. Mas eu sabia que você viria. Agora, vem, vem, deixe-me amá-lo grudada às manchas daquela tela em branco — disse-lhe apontando a tela na parede da sua sala.

E, ao virar-se para olhar a tela, escorregadia como um sabonete, movediça, ela resvala. Ele alisa a sua barba por fazer ao ver seu objeto de desejo esvair-se pela janela como um rolinho de fumaça.


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


quarta-feira, 26 de maio de 2021

O doce sabor da fruta madura

 


É coisa demais gritando ao mesmo tempo a descoser a impressão que não arreda o pé da pandemia. 

Aquele gato em escorpião, olhos enfumaçados, sem mãe, permanece ao deus-dará na esquina. 

Aquela sombra sob a marquise no olho da noite é um soco no estômago. 

Esquecida, a inércia das longas viagens, sem malas, sem agasalho e sem a comida caseira deixa de ser um improviso que desconheceu os ensaios. 

Os santos óleos da dúvida para entender as mãos vazias, os tumultos flagrantes deslizando no ar já não preocupam o olho mágico da porta. 

O retrato da vovó – me desculpe, Lis, queria ao menos lhe explicar, mas não há tempo para fazê-lo nesta rede complexa de coincidências e agoras – se desfolhando, enquanto ela reclama do seu confinamento no retângulo da moldura. 

As palavras que se negam no meio da noite turva do casal sem filhos.

O grito pálido no silêncio em um lugar cheio de excesso em que o sono é irmão da morte.

O ensaio meticulosamente planejado para um "fora Bolsonaro" achando que as coisas podem dar certo, como se fôssemos os chilenos que elegem para sua assembleia constituinte uma maioria feminina. 

Ah, que inveja desse povo que não tem a consciência nos pés, na bola, no carnaval e em outras coisinhas mais!

Maricotinha, onde andarás? 

Me desculpe, estou descobrindo que sinto falta da tua pele macia, do teu perfume, minha fruta madura. 

Não está na hora de você voltar ao nosso confinamento e deleites, rio abaixo, rio acima?


(José Carlos Sant Anna) 

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Ensimesmado

 


poderia ser chamado loucura quando escrevo algo na vida provisória dos disfarces, deste modo eu não acharia surpreendente coser palavras ao teu corpo como quem, arisco, o habita, coroado de renúncias, enquanto arranjos indecisos chovendo cântaros de desejos desgarram-se das minhas mãos sob um vento leve que modela seu rosto.

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 15 de maio de 2021

Coisas estranhas

Coisas estranhas só acontecem comigo e elas têm um rosto, o que pode parecer ainda mais estranho é que este rosto está sempre com um ar exultante a me seduzir, a pegar-me pelas mãos e a levar-me a passear por avenidas e parques. Daí porque é mentira dos que andam a dizer por aí que as coisas estranhas ferem. Enganam-se. Os espinhos, sim. E sangram. 

Na casa de minha avó tinha um espelho grande na sala. Foi lá que eu descobri pela primeira vez que as coisas estranhas não saiam da minha cabeça. Sim, eu já me entendia como gente, é preciso que você saiba, meu caro leitor, mas não contei nada sobre este buraco negro na camada de ozônio que eu tinha descoberto ao caso a qualquer pessoa. Você é o primeiro a sabê-lo. 

Na dúvida, o que poderiam pensar da minha bravura ou da minha covardia, se eu contasse esta presunçosa bravata? Não, daqui já se ouve um farfalhar estranho, e ninguém é de ferro. O melhor é prevenir do que ouvir o realejo chamar ou se abrir a boca para se fechar os ouvidos.

Bem, é preciso dizer-lhe que não era a mim que o espelho refletia, e sim as coisas estranhas que não saíam da minha cabeça. 

Nunca via o meu rosto refletido no espelho. Sempre via muitas coisas estranhas ao mesmo tempo. Uma dessas coisas estranhas marcou para sempre a minha vida, embora eu não tivesse fugido para bem longe ao vê-la tão fagueira diante de mim. 

Era um homem em decomposição que ainda gargalhava sem fazer barulho, creiam. Minto. Ele franzia a testa e piscava o olho. Minto outra vez. Ele fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Assobiava e chupava cana. Ainda hoje não sei se ele piscava aquele olho azul para mim, ou se era um sestro, uma mania, que o processo de decomposição ainda não subtraíra da sua vida. 

Sou um para-raios de coisas estranhas. Somente ontem, ao ouvir a levada do rock na hora do reggae, eu descobri que esse bicho que não sai da minha cabeça não apareceu pela primeira vez no espelho da casa da minha avó.

Meu erro tem sido dar tanto peso a essa carga abjeta que me acompanha pela vida afora como se fosse um amuleto. 


(José Carlos Sant Anna)

 


 

 


sábado, 8 de maio de 2021

Depois do rumor



todo poema é grito
e silêncio:

corpo sangrando
à luz
de gestos escandidos

no vácuo
o turvo
na tua frente

é também corpo
labirinto
palavra 
abrigo

e depois
de vivido

colhes
no dilúvio do olho
flor reluzente 

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 1 de maio de 2021

Do caderno de Tão Preto II

 



Só a metade na dança das tuas marés. Das tuas palafitas. Conformado. Paciente. Destemido. Da cor de todas as cores. E sobre ausência, nada. Não diga nada. Nada sobre a ausência, sentida, pressentida, Tão Preto. Nada. E não se esqueça agora das promessas do passado ao fazer a barba; não se esqueça do menino olhando para dentro de você ao passar a lâmina na pele do seu rosto, enquanto, íntegro, inspecionas pelo espelho o telhado da minúscula casa, envolta em jardins, feita de palitos de fósforos, que enfeita sua mesa e sua vida. Esqueça as imagens distorcidas à procura de um foco. E nada de bolhas de sabão, esse tempo já passou, menino; passou; nada de sair tropeçando pelas esquinas, a ordem é manter o prumo e não deixar nada para trás; nada a apagar-se; se tudo está resolvido dentro do seu peito, esqueça o despertador e esqueça também seu tio Osvaldo apertando o nó de sua gravata até sufocá-lo. O fio que sustentava o ruído se perdeu, e você está vivo, bem vivo, no seu mapa arredondado. E ainda ganhou um emprego, e três pais. Escola, malte gelado e política guiaram-no pela vida afora sob as bênçãos das fibras de sisal. 
Esteios de madeira de lei é o que eles foram na vida de Tão. Os dias tristes ficaram para trás. Só os resquícios dos dias tristes permanecem. E a memória. Com a mão direita, Tão Preto segura o cigarro e a vontade de ligar para ela não passa, mas você tinha medo das palavras, elas o assustavam tanto quanto à timidez e, quando o medo era mais intenso, mais forte, você despia o sapato e começava a dançar entre os séculos e mares que os separavam antes de atravessar os oceanos. Não era preciso vinho. E lá ia, você, Tão Preto, engolindo poeira com as solas dos pés em brasa. O corpo em chamas, parecia um rato pelos cantos, revelando o animal que sempre foi. E nada mais importava se ela estava por perto. Nada mais o faria ignorar se o rumo era certo. Também importa saber se este mar ainda dessalga o seu corpo; saber se a sua geometria se assemelha à do mar, se há no seu horizonte nuvens, se há temporal, se há na sua solidão sempre sal; importa saber se se pode enredar-se em sua rede ou perder-se em sua linha, em seu anzol; se o frio na medula é um acorde em sol; se se pode entranhar-se em suas entranhas para, antes de passar a barra, apascentar-se em outro litoral e nos sorrisos fora do papel sem pular etapas ou sem escrever alguma coisa entre parênteses. Entre o azedo do tamarindo e o mel da abelha, Tão Preto ainda guarda com as digitais do tio Osvaldo a gravata do seu primeiro emprego.

(José Carlos Sant Anna)

sábado, 24 de abril de 2021

Não é por acaso


Por acaso,

eu brincava com a carne do sol

e o pirão de leite

em contrabando pelos morros

e o gelo nas artérias

 

e brincava

remexendo no caldo fundo

da cidade que se esfalfava

na avenida de Contorno

e adjacências na hora do rush

 

por acaso,

eu brincava em diversos ângulos

na insensatez da brutalidade

urbana sem cuspir fora

o sumo

 

e brincava

como se não houvesse mais o que fazer

já que o mundo se esboroa

dentro ou fora das bordas

antes de cobrir com as mãos o meu rosto

 

Por acaso,

acabaram as brincadeiras

 

e já enxergo sem rédeas o terreno fértil

para dizer-lhes que o mundo precisa

dar um basta

aos estupros coletivos e cotidianos

 

que rolam pelas ruas das cidades,

antes de limpar as manchas vermelhas,

nos tapetes a qualquer hora do dia.

 

E não por acaso

no ponto de ônibus a minha voz

é um fruto amargo sob um sol poeirento.

 

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 17 de abril de 2021

Do caderno de Tão Preto

 


Às vezes, tudo é tão longe... Não é verdade? Por isso, antes que as palavras se multipliquem, à rodo, me encasqueto com os caramelos. É o que faço a partir do momento em que abro o computador para escrever-lhe minha Maricotinha, para escrever-lhe duas ou três linhas para matar as saudades. Modo de dizer. Depois que se digita a primeira palavra, nunca se sabe por qual caminho a pena nos leva. E hoje não se usa mais a pena, e sim um teclado onde as letras se embaralham, e mexem e remexem com a transpiração, daí porque, ao deter a avalanche a me soterrar, descubro um sem-número de gralhas. E à medida que as corrijo na tela, emendo outro sem número delas, e um círculo virtuoso, num impulso de ir mais além na minha ânsia, se instaura, e os caramelos, se os tenho à mão, se entremeiam sem cerimônia em busca do seu espaço. Como é que eu faço? Simples assim. Vou comendo-os, de um a um. E enquanto os mastigo sem pressa, amasso a embalagem e faço piparotes com o papel amassado. Quase nunca acerto a cesta do lixo, apesar do hábito de fazê-lo àquela distância. Sei que o melhor mesmo é não acertar o seu centro, a sua abertura, porque sair catando-os, um por um, faz parte da terapia, quando, então, meço o tamanho da minha ansiedade. Mas não há caramelos no pote. Fui à cozinha e não havia nenhum pacote armazenado na despensa. O que faço então? Fecho o computador e digo a mim mesmo adeus às armas e à farda de missivista ad hoc. Nenhuma palavra hoje será desentocada. Então, penso num pedido de desculpas pela falta a Maricota, pois hoje ela ficará sem minhas notícias por falta dos bombons. E eu ficarei, recolhido, sem os piparotes, apenas os resíduos que ficaram jogados à toa pelo caminho. Sabia que jogá-los à cesta desopila o fígado? Fazer o quê? Se não tem cão, caça com gato. Ah, meus beijos, Maricota, permanência clara entre o corisco e o trovão, como não os guardo na despensa, saiba que os terá dobrados e molhados, se me dizes o lugar onde os conservo antes de dar-lhes à farta  sei, a resposta está na ponta da língua  disse-o na ponta da língua?  nas tardes do teu corpo, rio abaixo, rio acima. 

 

(José Carlos Sant Anna)

  

 


sábado, 10 de abril de 2021

Fuligem

 


Embora não fosse deixar rastros de pólvora atrás de si, a cadela chamar-se-ia Fuligem, assim quis a "mãe" antes de conhecê-la. Dir-se-ia deste modo que era uma cruz o que a cadelinha carregaria para sempre, na delicadeza de pelo, finesse de porte e elegância do andar; em outras palavras, uma verdadeira dama, e o que a sua dona sentia desde já não era dor, era a tensão do mundo sobre os seus ombros com batismo tão impróprio.

Batizou-a antes de recebê-la de algum lugar distante embalada em caixa de papelão com fitinha de presente. Arrependeu-se na hora do batismo antecipado. Mas você bem sabe como é difícil trocar o nome depois do batismo, não há tabelião que o faça sem burocracia. E o telefone não parava de chamar perguntando-lhe se Fuligem já tinha chegado. Mãe, irmãos, primos, sobrinhos, colegas de trabalho e amigos sabiam que Fuligem, com poucos dias de nascida, estava chegando com dia e hora marcados. 

E a "mãe" respondia a todos com a mesma solicitude dizendo-lhes que não, que estava aguardando tão ansiosa quanto eles, enquanto andava com o telefone sem fio colado ao ouvido pelo meio da casa. 

Já sentia o sorriso sarcástico de Teca, sua irmã, como sempre irreverente, gozadora, a mão direita a segurar o cigarro a dizer-lhe:

– Onde já se viu batizar um cão antes de conhecê-lo, mulher? É pela cara que a gente batiza, dá o nome. Cachorro não é gente, não, que mal foi concebido a gente bota trezentos nomes na mesa para escolher um.

E ela sabia. Teca a chamaria de Fuligem só de pirraça, sempre com o sorriso de escárnio, ainda que a "mãe" depois desse sufoco criasse coragem para trocar-lhe o nome.

E agora, mais do que nunca, o corpo pesado, parecia que a "mãe" tinha voltado da guerra, e estava tão desesperada com a escolha do nome que, andando pela casa sem rumo, esbarrou num móvel e derrubou o primeiro cristal no meio da sala, depois outro e mais outro, e tímidas gotículas de sangue brotaram dos seus pés descalços, depois do seu útero como se ela tivesse parido aquela cadelinha tão fofa ainda recolhida à caixa de papelão, rosnando baixinho, sem forças para dizer que queria a liberdade, o ir e vir pela nova casa, pouco se importando com o seu nome de batismo. O que ela queria era respirar o ar livre, correr e brincar. A viagem fora longa! 


(José Carlos Sant Anna)



sábado, 3 de abril de 2021

Do fingimento poético

 



                           Para Caroline V. Sant Anna, a filhota


Digo-lhe 

o que parece óbvio


o homem tem necessidade

da ficção, da simulação,

do imaginário

da arte de fingir


da biografia

a própria vida grafada

aquilo que somos 

e aquilo que não fomos


e somos

fragmentos irregulares

pálidos pedaços

zonas de sombras sem conforto


passado instável e movediço

que sobe e desce


e quando nada parece firme

e a salvo, o que não foi

o que ainda pode vir a ser

aparece no saco sem fundo

do imaginário.


(José Carlos Sant Anna)