sábado, 2 de janeiro de 2021

Na véspera

 


Permanecem as palavras. Ou quase.

Na véspera do Ano Novo, ela me escreveu

um texto. Lúcido. Simétrico. E curto. 

O texto me fez pensar em fotogramas. 

Era tão enxuto que me levou ao velho Graça, 

o comuna de Palmeira dos Índios, aquele 

que deu uma leve dor de cabeça à elite 

brasileira aos militares. Soberbo escritor. 

O texto é um filme em preto e branco. 

Ao olhar cada fotograma contra a luz, penso 

na história que o texto insinua entre dois 

oceanos. Mas não há fotogramas, penso ainda; 

há, sim, é o que o texto me diz. E penso também 

em Caetano Veloso. O Caetano de Chuva, 

suor e cervejasem a carnavalização, quando 

ela acentua: “Obrigado, por ser e estar. 

Não me soltes. Não me percas”. Não penso 

em camuflagem depois dessa luz entrando 

pela janela da sala e sorrio com este claro 

canto de aurora no riacho do ano novo.. 


                                   (José Carlos Sant Anna)