segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Do carnaval (poemeto)

 


Ventania, luzes de volúpia

e verdes maças em muros altos

 

Fábulas tecidas,

melopeias doidivanas

entoadas

entre os vãos lisos

dos escaninhos da memória

 

e dos ventos repousantes

entre os beijos mais fundos

quando nuvens de veludos

me arpoavam 

no mundo dos teus olhos


(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Prosaico



Embriagado em sede rebelde
eu quis 
escrever um adágio
e o mote seria água

mas um peixe
atravessou meu caminho
enquanto 
eu descia o rio
em sentido contrário.

E as coisas começaram
a fazer sentido.

Maricota tinha razão
quando 
cansada da vocação
de se aventurar pelo mundo
me disse:

 Os peixes flutuam voluptuosamente
e só os vemos porque 
olhamos 
a água do rio ou do mar

Depois de ouvi-la fiquei pensando 
na obviedade do que tinha sido dito

E assim se passam as horas 
rio abaixo, rio cima
enquanto rabisco o adágio
e Maricota 
toma chá com as amigas.

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Onde começa

 


Última parede    malograda

logo me lembrei dos alicerces em pó

a derrubar as paredes do tempo

 

E depois do voo da pandorga 

cada qual descobre o que deseja ver 

a qualquer oscilar do pêndulo 

nas manhãs orvalhadas de abril.

 

E lá se vai o tempo lavrando searas

resguardando suspiros e soluços, 

náufragos,

pelos pontos cardeais dos espelhos

a mirar meus olhos constelados.

 

Deixo que falem. E o que me dizem 

de mapas de iniciação

avivam o fulgor de códigos e cartilhas,

cristalinos fios d’água

que afloram de encostas distantes

 

São manhãs de peixes em órbita. 

Luz verde em aleluias e hosanas 

como o canto dos rouxinóis.

 

Às vezes, essas manhãs me ignoram.

Mas, pouco importa, pois, além 

dos bem-te-vis e rouxinóis, 

Rubem Fonseca me acolhe.

 

E da sua prateleira na minha biblioteca,

reparte comigo uma recôndita alegria.

 

Cúmplice de intrigas e ardis 

nos hortos das estações do ano

em conluios diuturnos,

 

a biblioteca é o tablado que ilumina 

tais simulacros poéticos.

 

Ali, como uma música a fluir da pedra, 

começa a minha jornada 

 

(José Carlos Sant Anna)