quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Onde começa

 


Última parede    malograda

logo me lembrei dos alicerces em pó

a derrubar as paredes do tempo

 

E depois do voo da pandorga 

cada qual descobre o que deseja ver 

a qualquer oscilar do pêndulo 

nas manhãs orvalhadas de abril.

 

E lá se vai o tempo lavrando searas

resguardando suspiros e soluços, 

náufragos,

pelos pontos cardeais dos espelhos

a mirar meus olhos constelados.

 

Deixo que falem. E o que me dizem 

de mapas de iniciação

avivam o fulgor de códigos e cartilhas,

cristalinos fios d’água

que afloram de encostas distantes

 

São manhãs de peixes em órbita. 

Luz verde em aleluias e hosanas 

como o canto dos rouxinóis.

 

Às vezes, essas manhãs me ignoram.

Mas, pouco importa, pois, além 

dos bem-te-vis e rouxinóis, 

Rubem Fonseca me acolhe.

 

E da sua prateleira na minha biblioteca,

reparte comigo uma recôndita alegria.

 

Cúmplice de intrigas e ardis 

nos hortos das estações do ano

em conluios diuturnos,

 

a biblioteca é o tablado que ilumina 

tais simulacros poéticos.

 

Ali, como uma música a fluir da pedra, 

começa a minha jornada 

 

(José Carlos Sant Anna) 

9 comentários:

  1. Gostei muito da música. Gostei muito do poema. Simplesmente brilhante.
    .
    Abraço… Cuide-se
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. Al mirarnos vislumbramos la misma naturaleza... agua cristalina y una mirada constelada. Es precioso, José Carlos. UN plcer leerte.

    Mil besitos para ti y muy feliz día, amigo.

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  3. "Derrubar as paredes do tempo", desse tempo "verdadeiro" que passa de qualquer modo, independentemente do que acontece. E, nesse tempo que passa, posso imaginar os olhos constelados do poeta em diálogo com o papagaio de papel, com a água cristalina, com os livros, com Rubem Fonseca que reparte consigo a difícil arte da alegria, como se fosse música. Magnífico poema que desvenda o mais singular de cada instante, porque "cada qual descobre o que deseja ver".
    Cuide-se bem meu Amigo José Carlos.
    Um beijo.

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  4. Verdade, amigo e 'lá se vai o tempo'_ naufragamos ou emergimos?
    _enquanto encontras acolhida nas prateleiras da biblioteca, fico acolhida aqui com poemas e 'música a fluir da pedra'.
    Obrigada, Jcarlos
    grande grande abraço

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  5. Que belo poema, professor! E assim está nossa vida, que precisa mais do que nunca, algumas coisas prazerosas para nos acolher!

    "Às vezes, essas manhãs me ignoram.
    Mas, pouco importa, pois, além
    dos bem-te-vis e rouxinóis,
    Rubem Fonseca me acolhe."

    Um beijo, querido amigo, uma boa semana, com saúde e paz!

    (Adorei o "bolodório" deixado por lá...rsss não conhecia a simpática palavra!)

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  6. JCarlos

    derrubar as paredes do tempo
    e inventando nossos dias fazendo o que gostamos
    e nao deixar morrer a esperança

    gostei do seu poema.

    um beijinho de amizade

    :)

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  7. As bibliotecas de cada um, têm-se revelados verdadeiros oásis, nestes tempos áridos que atravessamos!... E num mundo fechado... são um verdadeiro pólo de abertura... para outros mundos...
    Gostei imenso do poema, que nos lembra, que é preciso reinventarmos o tempo... agora que ele nos parece que passa... a um ritmo tão diferente... e com algo, que nos alimente a alma... como a boa prosa ou poesia...
    Um beijinho! Bom fim de semana, com saúde!
    Ana

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