sábado, 24 de abril de 2021

Não é por acaso


Por acaso,

eu brincava com a carne do sol

e o pirão de leite

em contrabando pelos morros

e o gelo nas artérias

 

e brincava

remexendo no caldo fundo

da cidade que se esfalfava

na avenida de Contorno

e adjacências na hora do rush

 

por acaso,

eu brincava em diversos ângulos

na insensatez da brutalidade

urbana sem cuspir fora

o sumo

 

e brincava

como se não houvesse mais o que fazer

já que o mundo se esboroa

dentro ou fora das bordas

antes de cobrir com as mãos o meu rosto

 

Por acaso,

acabaram as brincadeiras

 

e já enxergo sem rédeas o terreno fértil

para dizer-lhes que o mundo precisa

dar um basta

aos estupros coletivos e cotidianos

 

que rolam pelas ruas das cidades,

antes de limpar as manchas vermelhas,

nos tapetes a qualquer hora do dia.

 

E não por acaso

no ponto de ônibus a minha voz

é um fruto amargo sob um sol poeirento.

 

(José Carlos Sant Anna)


sábado, 17 de abril de 2021

Do caderno de Tão Preto

 


Às vezes, tudo é tão longe... Não é verdade? Por isso, antes que as palavras se multipliquem, à rodo, me encasqueto com os caramelos. É o que faço a partir do momento em que abro o computador para escrever-lhe minha Maricotinha, para escrever-lhe duas ou três linhas para matar as saudades. Modo de dizer. Depois que se digita a primeira palavra, nunca se sabe por qual caminho a pena nos leva. E hoje não se usa mais a pena, e sim um teclado onde as letras se embaralham, e mexem e remexem com a transpiração, daí porque, ao deter a avalanche a me soterrar, descubro um sem-número de gralhas. E à medida que as corrijo na tela, emendo outro sem número delas, e um círculo virtuoso, num impulso de ir mais além na minha ânsia, se instaura, e os caramelos, se os tenho à mão, se entremeiam sem cerimônia em busca do seu espaço. Como é que eu faço? Simples assim. Vou comendo-os, de um a um. E enquanto os mastigo sem pressa, amasso a embalagem e faço piparotes com o papel amassado. Quase nunca acerto a cesta do lixo, apesar do hábito de fazê-lo àquela distância. Sei que o melhor mesmo é não acertar o seu centro, a sua abertura, porque sair catando-os, um por um, faz parte da terapia, quando, então, meço o tamanho da minha ansiedade. Mas não há caramelos no pote. Fui à cozinha e não havia nenhum pacote armazenado na despensa. O que faço então? Fecho o computador e digo a mim mesmo adeus às armas e à farda de missivista ad hoc. Nenhuma palavra hoje será desentocada. Então, penso num pedido de desculpas pela falta a Maricota, pois hoje ela ficará sem minhas notícias por falta dos bombons. E eu ficarei, recolhido, sem os piparotes, apenas os resíduos que ficaram jogados à toa pelo caminho. Sabia que jogá-los à cesta desopila o fígado? Fazer o quê? Se não tem cão, caça com gato. Ah, meus beijos, Maricota, permanência clara entre o corisco e o trovão, como não os guardo na despensa, saiba que os terá dobrados e molhados, se me dizes o lugar onde os conservo antes de dar-lhes à farta  sei, a resposta está na ponta da língua  disse-o na ponta da língua?  nas tardes do teu corpo, rio abaixo, rio acima. 

 

(José Carlos Sant Anna)

  

 


sábado, 10 de abril de 2021

Fuligem

 


Embora não fosse deixar rastros de pólvora atrás de si, a cadela chamar-se-ia Fuligem, assim quis a "mãe" antes de conhecê-la. Dir-se-ia deste modo que era uma cruz o que a cadelinha carregaria para sempre, na delicadeza de pelo, finesse de porte e elegância do andar; em outras palavras, uma verdadeira dama, e o que a sua dona sentia desde já não era dor, era a tensão do mundo sobre os seus ombros com batismo tão impróprio.

Batizou-a antes de recebê-la de algum lugar distante embalada em caixa de papelão com fitinha de presente. Arrependeu-se na hora do batismo antecipado. Mas você bem sabe como é difícil trocar o nome depois do batismo, não há tabelião que o faça sem burocracia. E o telefone não parava de chamar perguntando-lhe se Fuligem já tinha chegado. Mãe, irmãos, primos, sobrinhos, colegas de trabalho e amigos sabiam que Fuligem, com poucos dias de nascida, estava chegando com dia e hora marcados. 

E a "mãe" respondia a todos com a mesma solicitude dizendo-lhes que não, que estava aguardando tão ansiosa quanto eles, enquanto andava com o telefone sem fio colado ao ouvido pelo meio da casa. 

Já sentia o sorriso sarcástico de Teca, sua irmã, como sempre irreverente, gozadora, a mão direita a segurar o cigarro a dizer-lhe:

– Onde já se viu batizar um cão antes de conhecê-lo, mulher? É pela cara que a gente batiza, dá o nome. Cachorro não é gente, não, que mal foi concebido a gente bota trezentos nomes na mesa para escolher um.

E ela sabia. Teca a chamaria de Fuligem só de pirraça, sempre com o sorriso de escárnio, ainda que a "mãe" depois desse sufoco criasse coragem para trocar-lhe o nome.

E agora, mais do que nunca, o corpo pesado, parecia que a "mãe" tinha voltado da guerra, e estava tão desesperada com a escolha do nome que, andando pela casa sem rumo, esbarrou num móvel e derrubou o primeiro cristal no meio da sala, depois outro e mais outro, e tímidas gotículas de sangue brotaram dos seus pés descalços, depois do seu útero como se ela tivesse parido aquela cadelinha tão fofa ainda recolhida à caixa de papelão, rosnando baixinho, sem forças para dizer que queria a liberdade, o ir e vir pela nova casa, pouco se importando com o seu nome de batismo. O que ela queria era respirar o ar livre, correr e brincar. A viagem fora longa! 


(José Carlos Sant Anna)



sábado, 3 de abril de 2021

Do fingimento poético

 



                           Para Caroline V. Sant Anna, a filhota


Digo-lhe 

o que parece óbvio


o homem tem necessidade

da ficção, da simulação,

do imaginário

da arte de fingir


da biografia

a própria vida grafada

aquilo que somos 

e aquilo que não fomos


e somos

fragmentos irregulares

pálidos pedaços

zonas de sombras sem conforto


passado instável e movediço

que sobe e desce


e quando nada parece firme

e a salvo, o que não foi

o que ainda pode vir a ser

aparece no saco sem fundo

do imaginário.


(José Carlos Sant Anna)