sábado, 17 de abril de 2021

Do caderno de Tão Preto

 


Às vezes, tudo é tão longe... Não é verdade? Por isso, antes que as palavras se multipliquem, à rodo, me encasqueto com os caramelos. É o que faço a partir do momento em que abro o computador para escrever-lhe minha Maricotinha, para escrever-lhe duas ou três linhas para matar as saudades. Modo de dizer. Depois que se digita a primeira palavra, nunca se sabe por qual caminho a pena nos leva. E hoje não se usa mais a pena, e sim um teclado onde as letras se embaralham, e mexem e remexem com a transpiração, daí porque, ao deter a avalanche a me soterrar, descubro um sem-número de gralhas. E à medida que as corrijo na tela, emendo outro sem número delas, e um círculo virtuoso, num impulso de ir mais além na minha ânsia, se instaura, e os caramelos, se os tenho à mão, se entremeiam sem cerimônia em busca do seu espaço. Como é que eu faço? Simples assim. Vou comendo-os, de um a um. E enquanto os mastigo sem pressa, amasso a embalagem e faço piparotes com o papel amassado. Quase nunca acerto a cesta do lixo, apesar do hábito de fazê-lo àquela distância. Sei que o melhor mesmo é não acertar o seu centro, a sua abertura, porque sair catando-os, um por um, faz parte da terapia, quando, então, meço o tamanho da minha ansiedade. Mas não há caramelos no pote. Fui à cozinha e não havia nenhum pacote armazenado na despensa. O que faço então? Fecho o computador e digo a mim mesmo adeus às armas e à farda de missivista ad hoc. Nenhuma palavra hoje será desentocada. Então, penso num pedido de desculpas pela falta a Maricota, pois hoje ela ficará sem minhas notícias por falta dos bombons. E eu ficarei, recolhido, sem os piparotes, apenas os resíduos que ficaram jogados à toa pelo caminho. Sabia que jogá-los à cesta desopila o fígado? Fazer o quê? Se não tem cão, caça com gato. Ah, meus beijos, Maricota, permanência clara entre o corisco e o trovão, como não os guardo na despensa, saiba que os terá dobrados e molhados, se me dizes o lugar onde os conservo antes de dar-lhes à farta  sei, a resposta está na ponta da língua  disse-o na ponta da língua?  nas tardes do teu corpo, rio abaixo, rio acima. 

 

(José Carlos Sant Anna)

  

 


8 comentários:

  1. rsss, muito bom! Eu também vou com uma ideia, tomo o caminho e muitas vezes mudei o itinerário, fui por caminhos que nem sonhava!
    Quanto aos teus caramelos... eu sou mais afoita, abro o vidro de biscoitinhos amanteigados várias vezes, só eles dominam minha ansiedade, mas antes de cada um rezo para não atingir os 200 quilos pós pandemia. E prometo que na próxima ida ao supermercado, passarei longe deles. Mas ainda não cumpri minha promessa.
    Essa do papelzinho na cesta, caro professor...Eu conheço, sim, sempre tem aqueles que voam sem força, que escapam do rumo e da vista, e lá vou eu...
    E quanto à Maricota...tá bom, tá perdoado.
    Beijo, um bom fim de semana, José Carlos!! Cuide-se, a coisa aqui no Brasilis...virgi!

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  2. Divertiu-se a escrever este texto, confesse meu Amigo. Até fiquei com vontade de comer caramelos, mesmo aqueles que se pegam aos dentes, e depois tentar acertar no cesto com os papéis. Quanto às palavras, tão caprichosas, só vão por onde querem, como animais selvagens.
    Cuide-se bem.
    Um bom fim de semana.
    Um beijo.

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  3. Bello y original texto amigo. Saludos.

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  4. Pegamos numa palavra e nunca sabemos onde nos leva. Nem damos conta dos caramelos ou quadradinhos de chocolate que comemos. Gosto de chocolate negro, em tablete.
    Teu texto é hilariante e "desopila o fígado". Estamos precisados. :)

    Beijos, meu amigo José Carlos.

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  5. Ando precisando 'desentocar 'palavras. Não há nada no pote.
    E, o tamanho da ansiedade nem com caramelos, Jcarlos.
    Gosto muito das suas escritas soltas e leves _ faz-me falta .
    Fica bem, com saúde .E abraços.


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  6. JCarlos

    acho que você se deliciou a escrever este texto tão criativo.
    e sabe, eu gosto de caramelos rsrs
    boa semana
    saúde e muita paz é o que desejo
    beijos
    :)

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  7. um texto bem suculento e divertido, caro José Carlos!
    mas certamente compreenderás que prefira chocolates
    da "Menina da Tabacaria" ...

    grande abraço, Caro Poeta

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  8. Só faltava uma silaba
    disse EUGÉNIO DE ANDRADE

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